A arte de mostrar o invisível

No cinema

07.06.13

José Wilker em "Mundo invisível"

Não é toda hora que o ciné­fi­lo pode ver, numa úni­ca ses­são, um pou­co do cine­ma de Wim Wenders, Theo Angelopoulos, Manoel de Oliveira, Jerzy Stuhr, Beto Brant e um punha­do de outros rea­li­za­do­res de pri­mei­ra linha. É isso, nada menos, o que nos ofe­re­ce o lon­ga Mundo invi­sí­vel com seus onze seg­men­tos, assi­na­dos por doze dire­to­res das mais vari­a­das naci­o­na­li­da­des.

http://www.youtube.com/watch?v=LfnA9jDNPX8

O pro­je­to foi con­ce­bi­do por Leon Cakoff, cri­a­dor e dire­tor da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, mor­to em 2011, e Renata de Almeida, sua par­cei­ra na mos­tra e na vida, nos mol­des de outro fil­me cole­ti­vo pro­du­zi­do pela dupla em 2004, Bem-vin­do a São Paulo.

Se o lon­ga de 2004 tra­zia as mar­cas do impro­vi­so e de uma cer­ta pre­ca­ri­e­da­de, Mundo invi­sí­vel, tal­vez pela par­ce­ria com a pro­du­to­ra Gullane, se apre­sen­ta como uma obra bem mais madu­ra e con­sis­ten­te, a des­pei­to da deli­be­ra­da hete­ro­ge­nei­da­de de enfo­ques, esti­los e lin­gua­gens de suas par­tes, mais ou menos arti­cu­la­das pelo tema geral da (in)visibilidade no mun­do urba­no con­tem­po­râ­neo.

Concisão de mes­tres

A par­tir des­sa ideia um tan­to vaga, cada cine­as­ta seguiu um cami­nho par­ti­cu­lar. Com exce­ção do últi­mo seg­men­to, diri­gi­do por Atom Egoyan e escri­to e pro­ta­go­ni­za­do por Leon Cakoff, que se pas­sa em Yerevan, capi­tal da Armênia, todos os outros são ambi­en­ta­dos em São Paulo.

Alguns são cur­tís­si­mos, econô­mi­cos, qua­se mini­ma­lis­tas, explo­ran­do a con­cen­tra­ção tem­po­ral do cur­ta-metra­gem. O caso mais extre­mo é o de Jerzy Stuhr, que se limi­ta a fil­mar o públi­co de uma ses­são de seu fil­me O tem­po de ama­nhã, na Mostra Internacional de São Paulo de 2003. A ima­gem gra­nu­la­da dos ros­tos banha­dos pela luz da tela, sob o som dos diá­lo­gos em polo­nês (com legen­das em por­tu­guês), cria uma ter­cei­ra dimen­são, que é o ter­ri­tó­rio mági­co do cine­ma.

Outro epi­só­dio enxu­to é o de Manoel de Oliveira, no qual dois ami­gos (Leon Cakoff e Ricardo Trêpa, neto do cine­as­ta por­tu­guês) encon­tram-se casu­al­men­te na ave­ni­da Paulista e, para con­ver­sar sem ser inter­rom­pi­dos pelos toques de seus res­pec­ti­vos celu­la­res, resol­vem falar um com o outro… pelo celu­lar. A for­ça do fil­me vem do con­tras­te entre essa situ­a­ção pro­sai­ca e a gra­vi­da­de dos assun­tos abor­da­dos na con­ver­sa: a cri­se da éti­ca no mun­do, a ânsia pelo poder que atro­pe­la tudo, pro­pos­tas para sal­var o pla­ne­ta. Há ape­nas três pla­nos no fil­me: a ave­ni­da vis­ta do alto de um ter­ra­ço do Conjunto Nacional; os dois ami­gos con­ver­san­do em pla­no médio, um de fren­te para o outro; os mes­mos dois vis­tos a par­tir do outro lado da ave­ni­da, sem que ouça­mos suas falas. Uma lição de lim­pi­dez e capa­ci­da­de de sín­te­se.

Atores invi­sí­veis

No outro extre­mo há seg­men­tos bem mais lon­gos, como o de Maria de Medeiros, sobre um cama­rei­ro de hotel que pre­sen­cia as his­tó­ri­as cômi­cas ou trá­gi­cas de vári­os hós­pe­des man­ten­do-se pra­ti­ca­men­te invi­sí­vel a eles, e o de Laís Bodanzky, uma dis­cus­são sobre o con­cei­to de “ator invi­sí­vel” cri­a­do pelo dire­tor e ator japo­nês Yoshi Oïda. Os dois são par­ci­al­men­te frus­tra­dos. O de Maria de Medeiros, pelo cará­ter um tan­to ingê­nuo da “men­sa­gem” e pela ence­na­ção con­ven­ci­o­nal. O de Laís, pela redun­dân­cia dos depoi­men­tos (de dois ato­res e de uma mon­ja budis­ta, além do pró­prio Oïda), ain­da que cada um deles, indi­vi­du­al­men­te, pos­sa ser inte­res­san­te.

No regis­tro docu­men­tal, Wim Wenders foi mais feliz ao retra­tar cri­an­ças com gra­ve defi­ci­ên­cia visu­al (vale dizer, qua­se cegas) tra­ta­das num depar­ta­men­to espe­ci­al da Santa Casa de São Paulo. A deli­ca­de­za e a pre­ci­são do olhar de Wenders e o encan­to natu­ral das cri­an­ças fazem a for­ça do fil­me. O úni­co senão fica por con­ta da músi­ca oni­pre­sen­te ao pia­no (de André Abujamra) que, ape­sar de bela, redun­da com as ima­gens, “per­fu­man­do a flor”, como diria João Cabral de Melo Neto.

O seg­men­to mais estra­nho e ousa­do — e que pare­ce ter menos a ver com o tema geral pro­pos­to — é tam­bém um dos melho­res. Trata-se de Kreuko, de Beto Brant e Cisco Vasques, divi­di­do em duas par­tes bem dis­tin­tas. Na pri­mei­ra, um homem fil­ma­do em clo­se (Mauricio Paroni de Castro, tam­bém autor do rotei­ro), com o ros­to par­ci­al­men­te mer­gu­lha­do na som­bra, diz, com uma fala alu­ci­na­da e olhos esbu­ga­lha­dos que fazem lem­brar Peter Lorre, que optou por enlou­que­cer duran­te uma qui­mi­o­te­ra­pia, e pas­sa a nar­rar cenas de peças de Shakespeare em ver­sões per­ver­ti­das. Na segun­da par­te ence­nam-se, mais ou menos, essas cenas, em cená­ri­os tea­trais, com ilu­mi­na­ção expres­si­o­nis­ta e mise-en-scè­ne de cine­ma mudo. Há algo de David Lynch nes­se exer­cí­cio, e o efei­to é tão pode­ro­so que o espec­ta­dor demo­ra um pou­co a iden­ti­fi­car Sônia Braga e José Wilker entre os ato­res.

Testamento de Cakoff

Por fim (já que é impos­sí­vel falar de todos), cabem algu­mas pala­vras sobre o seg­men­to que encer­ra o lon­ga, Yerevan, o visí­vel, diri­gi­do pelo armê­nio-cana­den­se Atom Egoyan. Nele, Leon Cakoff, tam­bém de ori­gem armê­nia, apa­re­ce sen­ta­do numa pra­ça cen­tral de Yerevan segu­ran­do a foto de um homem que ele diz ser seu avô, exe­cu­ta­do pelos tur­cos há qua­se cem anos.

"Mundo invisível"

Leon cum­pre ali uma pro­mes­sa fei­ta à mãe, de pro­cu­rar naque­la cida­de alguém que tenha conhe­ci­do o pai dela. A situ­a­ção dá ori­gem a uma cola­gem de fil­mes e fotos que docu­men­tam o geno­cí­dio dos armê­ni­os pelos tur­cos oto­ma­nos e vári­os momen­tos da luta armê­nia pela auto­no­mia naci­o­nal. A imbri­ca­ção entre bio­gra­fia e his­tó­ria nem sem­pre é con­vin­cen­te, mas é impos­sí­vel evi­tar a como­ção ao ouvir Cakoff pro­nun­ci­ar, no final do fil­me, pala­vras que pode­ri­am resu­mir toda uma vida (a sua) dedi­ca­da ao cine­ma: “Filmes mudos, gre­ves silen­ci­o­sas, geno­cí­dio esque­ci­do: qual­quer coi­sa para afir­mar a minha cren­ça no poder das ima­gens”.

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