Robert Silvers (1929-2017)

Annie Schlechter

Robert Silvers (1929-2017)

A arte de perguntar

Literatura

21.03.17

A cer­ta altu­ra de The 50 Year Argument, docu­men­tá­rio sobre a New York Review of Books diri­gi­do por Martin Scorsese e David Tedeschi, o len­dá­rio edi­tor da revis­ta, Robert Silvers, é fla­gra­do ali­men­tan­do um cachor­ro den­tro da reda­ção. A cena pro­sai­ca mos­tra que, para Silvers, a revis­ta quin­ze­nal que ele edi­tou por cin­co déca­das — des­de o pri­mei­ro núme­ro, em 1963, até sua mor­te, no últi­mo dia 20, aos 87 anos — era uma exten­são da pró­pria casa. Para não dei­xar dúvi­das quan­to a isso, ele se diver­tia con­tan­do que man­ti­nha uma cama nos fun­dos do escri­tó­rio para as noi­tes mais lon­gas de fecha­men­to.

Se a Review era sua casa, Silvers era o anfi­trião ide­al. A cada edi­ção, ele pro­mo­via nas pági­nas da revis­ta “um encon­tro de gran­des men­tes”, na defi­ni­ção do dire­tor David Tedeschi. Desde o iní­cio, a Review reu­niu gera­ções de gran­des escri­to­res, jor­na­lis­tas, crí­ti­cos e inte­lec­tu­ais: de Susan Sontag e James Baldwin a J.M. Coetzee e Robert Darnton, de Gore Vidal e Joan Didion a John Banville e Ian Buruma. Nas inú­me­ras home­na­gens publi­ca­das des­de a mor­te de Silvers, algu­mas lem­bran­ças são recor­ren­tes entre os cola­bo­ra­do­res: o livro que che­ga­va de sur­pre­sa pelo cor­reio com um bilhe­te (“Veja o que pode ser fei­to sobre isso”), a liga­ção intem­pes­ti­va para pedir uma repor­ta­gem ou tirar dúvi­das sobre um tex­to. Cenas de um diá­lo­go entre edi­tor e autor que podia durar meses, ali­men­ta­do pela curi­o­si­da­de inter­mi­ná­vel e pela lei­tu­ra rigo­ro­sa de Silvers.

Quando entre­vis­tei Silvers em 2013, por oca­sião do ani­ver­sá­rio de 50 anos da Review, ele deu pro­vas des­sa curi­o­si­da­de ao comen­tar ani­ma­da­men­te os últi­mos tex­tos que tinha edi­ta­do, sobre temas tão vari­a­dos como o pro­je­to de digi­ta­li­za­ção de livros da Google, novas teo­ri­as sobre a cons­ci­ên­cia huma­na e o pornô soft da série Cinquenta tons de cin­za. Já o rigor ficou cla­ro na for­ma como defi­niu seu ofí­cio. “Editar é fazer per­gun­tas”, ele me dis­se. “O segre­do des­se tra­ba­lho é explo­rar, caso a caso, as pos­si­bi­li­da­des de diá­lo­go com os auto­res, pen­san­do sem­pre em como ampli­ar e apro­fun­dar a refle­xão deles”. Os fru­tos des­se diá­lo­go podem ser vis­tos em livros hoje clás­si­cos que come­ça­ram como arti­gos para a revis­ta, como Sobre a vio­lên­cia, de Hannah Arendt, e A doen­ça como metá­fo­ra, de Susan Sontag.

Nascido em 1929, no esta­do de Nova York, Silvers viveu em Paris na déca­da de 1950 e lá aju­dou a cons­truir outro mar­co da vida inte­lec­tu­al con­tem­po­râ­nea, a revis­ta Paris Review. De vol­ta aos EUA, nos anos 1960, tra­ba­lhou na revis­ta Harper’s, onde publi­cou um mani­fes­to da escri­to­ra Elizabeth Hardwick con­tra a crí­ti­ca lite­rá­ria ame­ri­ca­na da épo­ca, na qual ela via ape­nas “elo­gio insí­pi­do e dis­cor­dân­cia frou­xa, esti­lo míni­mo e tex­ti­nho fra­co, fal­ta de envol­vi­men­to, pai­xão, per­so­na­li­da­de, excen­tri­ci­da­de — a ausên­cia, enfim, do pró­prio tom lite­rá­rio”.

Durante uma gre­ve geral da impren­sa nova-ior­qui­na, em dezem­bro de 1962, Silvers se uniu a um gru­po de inte­lec­tu­ais que que­ri­am fun­dar uma revis­ta vibran­te e ousa­da para aca­bar com o maras­mo da vida lite­rá­ria ame­ri­ca­na. Apostavam que, com a gre­ve, as edi­to­ras, por fal­ta de opção, topa­ri­am anun­ci­ar até em um veí­cu­lo des­co­nhe­ci­do. Assim sur­giu, em feve­rei­ro de 1963, a Review, com Silvers e Barbara Epstein como edi­to­res – ela mais dedi­ca­da à crí­ti­ca lite­rá­ria, ele ao jor­na­lis­mo e à não fic­ção em geral. O arran­jo durou até 2006, quan­do ela mor­reu e ele ficou sozi­nho à fren­te da revis­ta. Com a mor­te de Silvers, ain­da não se sabe quem ocu­pa­rá seu lugar.

Seja quem for, terá o desa­fio de man­ter o esti­lo cul­ti­va­do por Silvers: uma mis­tu­ra nada orto­do­xa de crí­ti­ca de arte, repor­ta­gem de fôle­go, aná­li­se polí­ti­ca, comen­tá­rio soci­al e divul­ga­ção cien­tí­fi­ca, com um olho na his­tó­ria e outro no pre­sen­te. O DNA de revis­ta lite­rá­ria nun­ca impe­diu a Review de inter­vir nos deba­tes públi­cos mais urgen­tes das últi­mas cin­co déca­das. Opôs-se à Guerra do Vietnã e à Guerra do Iraque. Denunciou Richard Nixon e Donald Trump. Cobriu a que­da da Cortina de Ferro, as dita­du­ras na América Latina, o apartheid na África do Sul e as vári­as fases do con­fli­to Israel-Palestina. Em 1967, no auge das lutas do movi­men­to negro por direi­tos civis nos EUA, estam­pou na capa um dia­gra­ma que ensi­na­va os lei­to­res a pre­pa­rar um coque­tel molo­tov.

Em todo esse tem­po, Silvers publi­cou ape­nas um edi­to­ri­al, no núme­ro de estreia da revis­ta. Em pou­cas linhas, pro­me­tia falar de livros “inte­res­san­tes e impor­tan­tes”, nun­ca dos tri­vi­ais — exce­to para “esva­zi­ar uma repu­ta­ção tem­po­ra­ri­a­men­te infla­da ou apon­tar uma frau­de”. Dizia ain­da que­rer “suge­rir, ain­da que de for­ma imper­fei­ta, algu­mas qua­li­da­des que uma revis­ta lite­rá­ria res­pon­sá­vel deve­ria ter”. Na entre­vis­ta de 2013, ele me dis­se se orgu­lhar de ter sido sem­pre fiel a esses prin­cí­pi­os: “Somos uma revis­ta de livros e idei­as. Livros e idei­as. Duas coi­sas vitais para o mun­do”.

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