A assim chamada realidade

Literatura

01.04.16

No fun­do de todas as gran­des cons­ta­ta­ções, mes­mo das nas­ci­das de tra­gé­di­as insu­pe­rá­veis, abri­ga-se sem­pre o melhor de todos os valo­res euro­peus, o anseio por liber­da­de que irri­ga nos­sa vida com algu­ma coi­sa a mais, uma rique­za, cons­ci­en­ti­zan­do-nos da rea­li­da­de e da nos­sa exis­tên­cia e da res­pon­sa­bi­li­da­de que temos por ela.

Imre Kertész, Heureca

 

Em 2002, no dis­cur­so de rece­bi­men­to do Prêmio Nobel de Literatura (incluí­do em A lín­gua exi­la­da, tra­du­zi­do do hún­ga­ro por Paulo Schiller), Imre Kertész con­fes­sou ter difi­cul­da­de em enxer­gar a cone­xão entre o prê­mio, a escri­ta e a pró­pria vida. Tanta aten­ção — que cer­ta­men­te lhe tra­ria novos lei­to­res — era uma novi­da­de. Desde o pri­mei­ro livro, Kertész foi um autor asso­ci­a­do ao Holocausto. Ouvia com frequên­cia que o tema “não era opor­tu­no nem atra­en­te”. Não deu impor­tân­cia. Escrevia, dis­se, para si mes­mo. Com isso, ten­tou cons­truir e man­ter a pró­pria indi­vi­du­a­li­da­de — o que pare­cia vital nas cir­cuns­tân­ci­as que rege­ram a mai­or par­te de uma vida trans­cor­ri­da sob dife­ren­tes regi­mes tota­li­tá­ri­os.

Nascido em Budapeste, aos quin­ze anos Kertész foi envi­a­do a alguns dos cam­pos de con­cen­tra­ção nazis­tas, incluin­do Auschwitz. Retornou à Hungria em 1945, saí­do de Buchenwald. Podendo esco­lher outro país para morar, pre­fe­riu vol­tar à ter­ra natal. Em outro ensaio incluí­do em A lín­gua exi­la­da, afir­ma que vol­tou “gui­a­do pelo ins­tin­to do cachor­ro erran­te”.

Ontem, 31 de mar­ço, Imre Kertész mor­reu aos 86 anos, víti­ma do mal de Parkinson. Deixou um tes­te­mu­nho vali­o­so em for­ma de fic­ção e ensai­os. Em um des­tes últi­mos, con­ta que, quan­do ven­ceu o Nobel, rece­beu do dire­tor do Memorial de Buchenwald sua ficha do cam­po, que anun­ci­a­va a “mor­te” do pri­si­o­nei­ro núme­ro 64.921, Imre Kertész. Ao nar­rar o epi­só­dio, lem­brou ter men­ti­do a ida­de — para não ser clas­si­fi­ca­do como cri­an­ça e poder se apre­sen­tar como ope­rá­rio, decla­rou ter nas­ci­do em 1927, dois anos antes.

Certa noi­te, aos nove anos, vol­tan­do para casa com o pai, nota­ram que um cine­ma local exi­bia Jud Süss, fil­me de pro­pa­gan­da nazis­ta. O pai lhe con­tou que os espec­ta­do­res que saíam do tea­tro pro­cu­ra­vam por judeus para agre­dir, em uma espé­cie de pogrom. Kertész com­pre­en­deu então que, como judeu, era inde­se­ja­do, mas per­ma­ne­ceu em Budapeste. Sempre dis­se que foi por esse moti­vo que seus livros saí­ram do jei­to que saí­ram. Se em 1956, aos 27 anos, quan­do estou­rou a Revolução Húngara, não par­tiu, foi por­que quis escre­ver. “Se par­tis­se de onde as pes­so­as fala­vam minha lín­gua, sabia que nun­ca mais escre­ve­ria”, dis­se num dos ensai­os.

Acabou encon­tran­do aqui­lo que cha­mou de “cami­nhos tor­tu­o­sos para a liber­da­de inte­ri­or”. Mais de uma vez expres­sou a “neces­si­da­de de sair da mul­ti­dão nar­co­ti­zan­te, da História, que nos supri­me a indi­vi­du­a­li­da­de e o des­ti­no”. Sempre afir­mou que era fácil ser escri­tor na Hungria: um escri­tor, afir­mou, pre­ci­sa ape­nas de papel e cane­ta. Kertész não pen­sa­va em lei­to­res. De acor­do com ele, “uma linha intrans­po­ní­vel [o] sepa­ra­va da lite­ra­tu­ra e dos ide­ais, do espí­ri­to asso­ci­a­do ao con­cei­to de lite­ra­tu­ra”. A linha, cla­ro, era Auschwitz. Por isso o Nobel lhe pare­ceu tão estra­nho.

Segundo Kertész, des­cre­ver o tota­li­ta­ris­mo den­tro de outro regi­me tota­li­tá­rio fez com que sua escri­ta assu­mis­se uma lin­gua­gem mui­to par­ti­cu­lar. Declara que “no Ocidente, numa soci­e­da­de livre, tal­vez não tives­se sido capaz de escre­ver o roman­ce hoje conhe­ci­do como Sem des­ti­no”, con­si­de­ra­do o mais impor­tan­te de sua car­rei­ra. Ao pro­ta­go­nis­ta, György Köves, atri­buiu mui­tas das pró­pri­as expe­ri­ên­ci­as em Auschwitz. Com Fiasco, segui­do de Kaddish para uma cri­an­ça não nas­ci­da, o livro for­ma uma tri­lo­gia.

Mas que­ro falar de Liquidação (tam­bém em tra­du­ção do hún­ga­ro de Paulo Schiller), de 2003, que o autor dis­se ser seu últi­mo livro a res­pei­to do Holocausto. Com pou­co mais de cem pági­nas, fun­ci­o­na como uma peque­na sín­te­se da obra do autor.

Liquidação é um livro inte­res­san­te na for­ma. A fron­tei­ra entre o real e o ima­gi­na­do — e o que adqui­re algu­ma vera­ci­da­de ou mate­ri­a­li­da­de por meio da escri­ta — é poro­sa. Qualquer autor que pre­ten­da cons­truir um livro com tro­cas súbi­tas de nar­ra­do­res, alu­sões vari­a­das e meta­lin­gua­gem tem mui­to a apren­der com Kertész.

No iní­cio o pro­ta­go­nis­ta, um edi­tor, lê uma peça na qual ele mes­mo é um per­so­na­gem, e que pare­ce espe­lhar acon­te­ci­men­tos de sua vida. Foi escri­ta por B., um ami­go de lon­ga data. B. nas­ceu em 1944 “em Oswieccim, mais exa­ta­men­te numa das bar­ra­cas de Birkenau, no cam­po de con­cen­tra­ção conhe­ci­do como Auschwitz”. Quando B. se sui­ci­da, o edi­tor tem a ideia de publi­car o mate­ri­al encon­tra­do em seu apar­ta­men­to, com­pos­to sobre­tu­do de notas sol­tas.

O pro­ble­ma é que o sujei­to está con­ven­ci­do de que há um roman­ce escon­di­do em algum lugar. Somente um roman­ce pode­ria aju­dar a ele e aos demais — que tam­bém tive­ram “des­ti­nos revol­vi­dos por for­ca­dos” — a com­pre­en­de­rem o que acon­te­ceu, a com­pre­en­de­rem B., a com­pre­en­de­rem Auschwitz. Mas não há roman­ce. Não na for­ma espe­ra­da.

Quando o edi­tor conhe­ceu B., pediu a este que cedes­se uma nar­ra­ti­va para publi­ca­ção em uma revis­ta lite­rá­ria. Ao ler, diz, “ape­nas minha náu­sea se inten­si­fi­cou”. O ter­mo não é ale­a­tó­rio. Em um tex­to sobre A Náusea, de Jean-Paul Sartre, Albert Camus tra­ta do medo de enca­rar o absur­do e a ausên­cia de sen­ti­do (A Inteligência e o Cadafalso, em tra­du­ção de Manuel da Costa Pinto e Cristina Murachco). “De tan­to viver reman­do con­tra a cor­ren­te, um des­gos­to, uma revol­ta toma con­ta de todo o ser, e a revol­ta do cor­po cha­ma-se náu­sea”, escre­ve. Não por aca­so, Liquidação tra­ta o sui­cí­dio como um pro­ble­ma filo­só­fi­co.

Nem mes­mo o pro­ta­go­nis­ta, quan­do inti­ma­do pela polí­cia para escla­re­cer a mor­te do ami­go, sabe con­tar a his­tó­ria de B. “Na sala da repar­ti­ção, onde eu sen­tia que se reu­nia toda a indi­fe­ren­ça do mun­do, com­pre­en­di tam­bém que toda a his­tó­ria che­ga­va a um final, [e] que todas as nos­sas his­tó­ri­as eram his­tó­ri­as ine­nar­rá­veis.” Quem está inte­res­sa­do no que eu tenho a dizer, caso o que eu tenho a dizer pudes­se ser dito?

Não ape­nas o per­so­na­gem pen­sa assim. É a con­tra­di­ção mais óbvia, e mais for­te, em toda a obra de Kertész. Apesar de ter rece­bi­do um Nobel de Literatura, ele não con­fia, ou não con­fia por intei­ro, no ato de nar­rar. Pensando em sua tra­je­tó­ria, pare­ce natu­ral que ele não tenha podi­do con­fi­ar em qua­se nada, nem (ou sobre­tu­do) na pala­vra escri­ta.  B., tam­bém autor, tam­pou­co acre­di­ta na escri­ta. Contraditório, acre­di­ta ser pre­ci­so calar as pró­pri­as dores. A rea­li­da­de de B., assim como a de Kertész, é tão atroz e impro­vá­vel que pare­ce fic­ção.

Judit, ex-mulher de B., é mais oti­mis­ta quan­to ao ato de nar­rar. “Mas eu acre­di­to na escri­ta. Em nada mais, somen­te na escri­ta. O homem vive como um ver­me, mas escre­ve como se fos­se para Deus”, diz. Para ela “o mun­do é fei­to de cacos par­ti­dos, um caos escu­ro, sem nexo, sus­ten­ta­do ape­nas pela escri­ta”. Ao lon­go da obra de Kertész se intui a osci­la­ção, com mai­or ou menos pun­gên­cia: a escri­ta impor­ta; a escri­ta não impor­ta; a escri­ta impor­ta; a escri­ta não impor­ta.

Em Liquidação, um caso amo­ro­so nar­ra­do por uma per­so­na­gem pare­ce ao pro­ta­go­nis­ta “sim­ples como um con­to, e impos­sí­vel como a vida”. Ler Kertész é resol­ver essa ques­tão prin­ci­pal: afi­nal, escre­ver tem algum valor? E a vida? Para nos­sa sur­pre­sa, a res­pos­ta é posi­ti­va. Para Camus, “o erro de uma cer­ta lite­ra­tu­ra é acre­di­tar que a vida é trá­gi­ca por­que é mise­rá­vel”, uma vez que “pode ser emo­ci­o­nan­te e mag­ní­fi­ca, [e] esta é sua tra­gé­dia”. Em um cer­to sen­ti­do, a obra de Kertész refle­te sua cons­ci­ên­cia dis­so. Basta lem­brar que Judit, em Liquidação, sen­te cul­pa por ser feliz.

Imre Kertész fez o pos­sí­vel para acre­di­tar na escri­ta. Transmitiu seu lega­do, con­tri­buin­do para que o futu­ro, como diz a máxi­ma, não repi­ta os erros catas­tró­fi­cos do pas­sa­do. “Da dúvi­da pri­mi­ti­va, tal­vez sur­ja um ‘Escrevo, logo sou’”, obser­va Camus. Para Kertész, essa fra­se foi uma rea­li­da­de. Ou, como diz um dos nar­ra­do­res no caos de Liquidação, foi “a assim cha­ma­da rea­li­da­de”.

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