A canção e os 8-bits

Música

14.11.12

Em 1985, enquan­to Bruce Springsteen era o mai­or ven­de­dor de dis­cos dos Estados Unidos, com Born in the USA, o Brasil do pri­mei­ro Rock in Rio ouvia RPM, Elba Ramalho e Roupa Nova inces­san­te­men­te nas rádi­os. Mas naque­le ano, outro gran­de hit, fora do cir­cui­to das FMs, dos LPs e dos gran­des shows, come­ça­va a tomar con­ta das salas de estar e dos quar­tos das cri­an­ças: “Overworld”, do japo­nês Koji Kondo.  O nome da músi­ca e do com­po­si­tor em nada faci­li­ta a memó­ria do lei­tor, então lá vai a cola: “Overworld” é o nome do tema prin­ci­pal do mais famo­so e mais ven­di­do jogo de vide­o­ga­me de todos os tem­pos: Super Mario Bros. Estima-se que até hoje foram comer­ci­a­li­za­dos nada menos que 40 milhões de car­tu­chos do jogo da Nintendo em todo o mun­do. No Brasil, o jogo ele­trô­ni­co pro­ta­go­ni­za­do pelo caris­má­ti­co enca­na­dor ita­li­a­no e seu irmão, Luigi, se popu­la­ri­zou pri­mei­ro pelo vide­o­ga­me naci­o­nal com­pa­tí­vel com o sis­te­ma da Nintendo, o Phantom System, fabri­ca­do pela Gradiente. Em segui­da, devi­do ao gran­de suces­so de Super Mario, uma dúzia de outras empre­sas tam­bém pro­du­zi­ram vide­o­ga­mes que roda­vam os car­tu­chos de jogos da Nintendo. Mas nenhum deles foi tão mar­can­te para as cri­an­ças da épo­ca quan­to o sau­do­so Phantom.

Muitas des­sas cri­an­ças que fica­ram hip­no­ti­za­das pela tri­lha de Super Mario Bros. hoje são expo­en­tes da dita “nova” gera­ção de can­to­res e com­po­si­to­res da músi­ca popu­lar bra­si­lei­ra. Ao mes­mo tem­po em que a infân­cia de gran­de par­te des­ses com­po­si­to­res foi mar­ca­da por dis­cos repre­sen­ta­ti­vos da músi­ca bra­si­lei­ra e estran­gei­ra, a tri­lha sono­ra repe­ti­ti­va dos jogos ele­trô­ni­cos fez par­te des­se mes­mo momen­to de for­ma­ção e, pro­va­vel­men­te, ocu­pa uma fatia gene­ro­sa do incons­ci­en­te musi­cal de todos. Porém, essa músi­ca limi­ta­da pela memó­ria de um anti­qua­do micro­pro­ces­sa­dor de 8-bits foi guar­da­da no mes­mo espa­ço des­ti­na­do à memó­ria audi­ti­va dos jin­gles comer­ci­ais, dos moto­res dos fus­cas, dos recla­mes dos anti­gos ven­de­do­res de rua e do baru­lho do toca-fitas rebo­bi­nan­do: tor­nou-se pura nos­tal­gia do noi­se de um tem­po que não vol­ta mais.

Por que, no uni­ver­so infan­til dos anos 1980 de cada um dos futu­ros com­po­si­to­res de músi­ca popu­lar, o que ouvía­mos no rádio ou na vitro­la tinha um valor dife­ren­te daque­la que cos­tu­má­va­mos ouvir nos con­so­les de vide­o­ga­me? Afinal de con­tas, éra­mos todos cri­an­ças em ple­no desen­vol­vi­men­to da liber­da­de cri­a­ti­va. Todo tipo de músi­ca deve­ria ser váli­da. Lembro que aos 11 anos, já dono de um Super Nintendo, gra­vei de for­ma mui­to tos­ca — posi­ci­o­nan­do fren­te a fren­te o falan­te da TV e o micro­fo­ne do gra­va­dor — uma fita cas­se­te com alguns dos meus hits pre­di­le­tos dos jogos. Será que fui o úni­co?

Claro que a for­ça mun­di­al avas­sa­la­do­ra da indús­tria fono­grá­fi­ca e a gran­de tra­di­ção da músi­ca popu­lar no Brasil foram os prin­ci­pais agen­tes para que todos pen­sás­se­mos que as tri­lhas dos jogos ele­trô­ni­cos eram outra coi­sa que não músi­ca. Tanto a indús­tria fono­grá­fi­ca quan­to a can­ção popu­lar no Brasil atin­gi­am naque­le momen­to sua apo­te­o­se. A inter­net, que faria des­mo­ro­nar a indús­tria, era ain­da um pro­je­to de labo­ra­tó­rio, e as teses sobre o fim da can­ção pare­ce­ri­am extre­ma­men­te equi­vo­ca­das.

Mas o que é pre­ci­so cha­mar a aten­ção é que aqui­lo que escu­tá­va­mos nas tri­lhas dos jogos de vide­o­ga­me era o des­do­bra­men­to comer­ci­al da evo­lu­ção da músi­ca ele­tro­a­cús­ti­ca. Mal sabía­mos que está­va­mos ouvin­do as notas da pri­mei­ra gran­de demo­cra­ti­za­ção dos sons sin­té­ti­cos. Talvez tenha sido o momen­to-cha­ve da his­tó­ria em que os estu­dos avan­ça­dos de músi­ca ele­trô­ni­ca das gran­des uni­ver­si­da­des ame­ri­ca­nas (e japo­ne­sas) foram assi­mi­la­dos e dis­se­mi­na­dos pelas gran­des empre­sas de games, antes mes­mo da mul­ti­pli­ca­ção dos jogos para PC e da recen­te ascen­são da Apple. Há um inte­res­san­te para­le­lo entre a evo­lu­ção da músi­ca ele­tro­a­cús­ti­ca mun­di­al e a evo­lu­ção da can­ção popu­lar no Brasil: dois enor­mes even­tos musi­cais e soci­ais do sécu­lo XX que cor­ri­am ao mes­mo tem­po e mal se esbar­ra­ram ao lon­go das déca­das.

Retornando ao ano de 1985, em pouquís­si­mo tem­po a memó­ria dos chips dos vide­o­ga­mes cres­ce­ria de for­ma assus­ta­do­ra, tor­nan­do as tri­lhas com­pos­tas em micro­chips de 8-bits tec­no­lo­gi­ca­men­te obso­le­tas. Hoje em dia, músi­ca ori­gi­nal para vide­o­ga­me é um mer­ca­do mili­o­ná­rio, assim como o das tri­lhas sono­ras de Hollywood, e envol­ve com­po­si­to­res famo­sos e orques­tras reno­ma­das. Da mes­ma for­ma, há atu­al­men­te uma enor­me faci­li­ta­ção tec­no­ló­gi­ca pro­mo­vi­da pelos pro­gra­mas para gra­var e fazer músi­ca. Em 2012, apren­der a mani­pu­lar músi­ca ele­trô­ni­ca é tão ou mais fácil que apren­der a tocar vio­lão. E aqui che­ga­mos ao pon­to nevrál­gi­co da cri­a­ção musi­cal da “nova gera­ção” que pro­duz músi­ca no sécu­lo XXI: de um lado a con­so­li­da­ção do for­ma­to da can­ção e, do outro, a ple­na demo­cra­ti­za­ção de todos os tim­bres que os ouvi­dos huma­nos foram capa­zes de cap­tar. (Esses sons vão das notas da pri­mei­ra flau­ta fabri­ca­da pelos homens ao baru­lho dos ven­tos da lua Titã de Saturno cap­ta­dos pela NASA, pas­san­do por tudo o que a huma­ni­da­de foi capaz de ouvir e fabri­car sono­ra­men­te em 35 mil anos de pro­du­ção musi­cal.)

A carac­te­rís­ti­ca mais repre­sen­ta­ti­va da músi­ca dos vide­o­ga­mes de 8-bits eram seus tim­bres ori­gi­nais, pecu­li­a­res, resul­ta­do de sua tec­no­lo­gia limi­ta­da. Outra res­tri­ção que se tor­nou mar­ca des­se tipo de músi­ca eram as com­po­si­ções estru­tu­ra­das em loo­pings, ou seja, em repe­ti­ções. No Super Mario Bros., por exem­plo, os dife­ren­tes momen­tos do jogo são carac­te­ri­za­dos pela dura­ção de seus temas musi­cais. Em fases mais exten­sas os temas aca­bam sen­do mais lon­gos e os loo­pings ocor­rem com menos frequên­cia. Nos temas de con­fron­to, mais crí­ti­cos, os loo­pings são mais assí­du­os e os temas, mais cur­tos e fre­né­ti­cos. Da tec­no­lo­gia limi­ta­da, de pou­cos recur­sos, nas­cia uma esté­ti­ca musi­cal sin­gu­lar.

Essas res­tri­ções nun­ca foram parâ­me­tro para com­por uma can­ção. A não ser que o desa­fio seja uma impo­si­ção do pró­prio com­po­si­tor, evi­den­te­men­te. Portanto, o que se apro­vei­tou das tri­lhas sono­ras em 8-bits para a can­ção em si não foram os loo­pings, mas sim os seus tim­bres. Recentemente, três com­po­si­to­res em espe­ci­al, todos nas­ci­dos no final da déca­da de 1970 (joga­ram bas­tan­te vide­o­ga­me quan­do eram cri­an­ças), fize­ram uso dos tim­bres espe­cí­fi­cos dos games na gra­va­ção de suas can­ções gra­va­das em 2012. Porém, a rela­ção com vide­o­ga­me nes­sas can­ções não se limi­tou à sono­ri­da­de espe­cí­fi­ca, e o uni­ver­so dos games virou o prin­ci­pal tema de suas letras.

 

O com­po­si­tor Dudu Tsuda

O pau­lis­ta Dudu Tsuda, nas­ci­do em 1979, autor do álbum Le son par lui même, compôs em par­ce­ria com a per­nam­bu­ca­na Lulina, tam­bém de 1979, a “Música para vide­o­ga­me bra­si­lei­ro”.  Dudu tinha a base da músi­ca com os tim­bres de 8-bits e Lulina fez a letra ins­pi­ra­da nes­ses tim­bres. A can­ção trans­põe um enre­do clás­si­co de um herói de jogo ele­trô­ni­co para as difi­cul­da­des do mun­do auto­má­ti­co da vida adul­ta.

Eu cor­ro, cor­ro sem saber
pra que fui pro­gra­ma­do
quan­do é que eu vou mor­rer

Me fazem pular
me fazem ati­rar
eu sigo sem­pre em fren­te
sem parar para pen­sar

Será que eu sou con­tro­la­do
por algum deus que aper­ta os botões?
será que sou recom­pen­sa­do
ou será que eu sou mais um dos vilões?

 

 

O com­po­si­tor Jonas Sá

O cari­o­ca Jonas Sá, nas­ci­do em 1978, é autor da can­ção “8-bit”. Repleta de sam­ples de tri­lhas sono­ras de anti­gos jogos ele­trô­ni­cos, a letra da can­ção (ain­da iné­di­ta e pre­vis­ta para ser lan­ça­da no dis­co Blam! Blam!, no pri­mei­ro semes­tre de 2013) fala da soli­dão do uni­ver­so do mun­do ele­trô­ni­co atra­vés dos tem­pos e de suas telas bri­lhan­tes. Um des­do­bra­men­to do eu-líri­co que, quan­do cri­an­ça, era um assí­duo joga­dor de vide­o­ga­me.

A con­fu­são lá fora se mis­tu­ra
Aos gemi­dos gela­dos das moci­nhas
Do meu com­pu­ta­dor
Tenho mais de mil ami­gos onli­ne
Mas o mais assí­duo é a soli­dão

A últi­ma estro­fe da can­ção reme­te ao vício ele­trô­ni­co infan­til, mas ago­ra repre­sen­ta­do pelo “filho peque­no” que joga vide­o­ga­me enquan­to o per­so­na­gem prin­ci­pal da letra se conec­ta ao mun­do real, via os dese­jos car­nais da mãe des­se filho. A des­co­ber­ta de uma nova “diver­são” que, de fato, não é ele­trô­ni­ca.

Filho peque­no jogan­do vide­o­ga­me ao lado
Sua mãe lam­ben­do o meu cor­po sua­do
E a magia come­çou…

Dudu, Lulina e Jonas, cada um a seu modo, fazem uso dos desa­fi­os musi­cais impos­tos ao sécu­lo XXI. Recorrendo à nos­tal­gia, com uma alta car­ga de angús­tia e incer­te­za nas letras, os três apon­tam uma manei­ra de lidar com o trans­bor­da­men­to dos tim­bres (pro­du­to do sécu­lo pas­sa­do) den­tro da cul­tu­ra da can­ção — que, segun­do Zé Miguel Wisnik, é a mai­or con­tri­bui­ção cul­tu­ral bra­si­lei­ra no sécu­lo XX. Se ain­da é cedo para qui­tar a heran­ça musi­cal dos mil e nove­cen­tos ou, ain­da, se é neces­sá­rio qui­tar tal heran­ça em nome de um pro­pó­si­to ain­da obs­cu­ro, é o que vere­mos.

* Mariano Marovatto é can­tor, com­po­si­tor e escri­tor. Apresenta e escre­ve o pro­gra­ma Segue o Som na TV Brasil. Seu site pes­so­al é www.marovatto.org

, , , , , , , , , , , , , , ,