A carta de Moholy-Nagy

Arquitetura

24.03.15

Mesmo quem não é afi­ci­o­na­do por arqui­te­tu­ra vai se emo­ci­o­nar com este fil­me pos­ta­do recen­te­men­te no YouTube: um regis­tro de qua­se meia hora, fei­to por László Moholy-Nagy, dos gran­des mes­tres da arqui­te­tu­ra moder­na reu­ni­dos num cru­zei­ro pelo Mediterrâneo no verão de 1933. 

O fil­me docu­men­ta um dos mais emble­má­ti­cos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (Ciam), rea­li­za­do de 29 de julho a 31 de agos­to – sim, mais de um mês — a bor­do de um navio que sai de Marselha e faz uma via­gem de ida e vol­ta a Atenas. Até onde se sabe, tra­ta-se de um regis­tro audi­o­vi­su­al úni­co des­se perío­do áureo do Ciam. O que já seria moti­vo sufi­ci­en­te para vê-lo. Mas o ex-pro­fes­sor da Bauhaus (então recém-fecha­da por ordem nazis­ta) não se limi­ta ao mero regis­tro das dis­cus­sões arqui­tetô­ni­cas e fla­gra os arqui­te­tos orga­ni­zan­do os pai­néis de pro­je­tos, dor­min­do no deque do navio, cor­ren­do na areia, sen­do recep­ci­o­na­dos com um banho de luz na Acrópole de Atenas. De vez em quan­do a câme­ra des­via para seguir uma gai­vo­ta, as ondas do mar, o giro de um moi­nho.

Um dos tre­chos mais boni­tos é a tra­ves­sia do Canal de Corinto, em que a câme­ra qua­se toca a rocha. E há ain­da o Partenon, o Ereteu, as casas e gen­tes de Egina, Santorini, Sérifo, Ios. O que tor­na o docu­men­to ain­da mais fas­ci­nan­te, em todo caso, é a res­pi­ra­ção que ele con­fe­re à ins­ti­tui­ção mais dou­tri­ná­ria da arqui­te­tu­ra moder­na. Mesmo que o fil­me seja mudo, qua­se pode­mos ouvir Le Corbusier em sua defe­sa apai­xo­na­da da cida­de fun­ci­o­na­lis­ta para um gru­po que se amon­toa como pode para escu­tá-lo. É fácil reco­nhe­cê-lo: ócu­los de aros gros­sos e redon­dos, cabe­los para trás, cami­sa soci­al cla­ra e gra­va­ta estam­pa­da, cigar­ro na boca. Bem mais difí­cil é iden­ti­fi­car as mulhe­res – nem todas arqui­te­tas, supõe-se, até por­que nes­te Ciam tam­bém as espo­sas dos arqui­te­tos foram acei­tas.

Retrato de László Moholy-Nagy

Os Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna foram cri­a­dos em 1928 e exis­ti­ram regu­lar­men­te — com um inter­va­lo duran­te a guer­ra — até final dos anos 1950. Seu obje­ti­vo fun­da­men­tal era reu­nir arqui­te­tos do mun­do todo que com­par­ti­lhas­sem os mes­mos ide­ais e a mes­ma con­fi­an­ça na capa­ci­da­de de reno­va­ção radi­cal da soci­e­da­de por meio da arqui­te­tu­ra. E ao mes­mo tem­po ser­vis­se como um canal de pro­mo­ção e dis­se­mi­na­ção de um con­jun­to de prin­cí­pi­os pro­je­tu­ais e esté­ti­cos vali­da­dos como uni­ver­sais.

A “Carta de Atenas” – docu­men­to-sín­te­se dos prin­cí­pi­os do urba­nis­mo fun­ci­o­na­lis­ta moder­no – é fru­to exa­ta­men­te do con­gres­so de 1933, o quar­to Ciam. Foi a bor­do do “SS Patris II” que um gru­po de cer­ca de cem arqui­te­tos e inte­res­sa­dos em arqui­te­tu­ra, de vári­as naci­o­na­li­da­des dis­tin­tas, defi­niu em linhas gerais os prin­cí­pi­os bási­cos que leva­ri­am à prá­ti­ca – hoje alta­men­te con­de­na­da por sua rigi­dez — da seto­ri­za­ção da cida­de segun­do qua­tro fun­ções bási­cas: habi­tar, tra­ba­lhar, cul­ti­var o cor­po e o espí­ri­to e cir­cu­lar.

A ver­são mais conhe­ci­da da Carta foi publi­ca­da por Le Corbusier dez anos depois, já em ple­na guer­ra. E tor­nou-se, como se sabe, uma das bases de Lucio Costa na con­cep­ção urba­nís­ti­ca de Brasília, já no final da déca­da de 1950.

Ao ver o fil­me de Mohloy-Nagy hoje, não pode­mos dei­xar de levar em con­ta que naque­le navio com repre­sen­tan­tes de 16 paí­ses, falan­do 11 lín­guas dis­tin­tas, não há regis­tro de nenhum arqui­te­to ou repre­sen­tan­te bra­si­lei­ro. Além de Le Corbusier, havia gran­des nomes como Siegfried Giedion, Pierre Chareau, Charlotte Perriand, Josep Luis Sert, Fernand Léger, Christian Zervos. E um só estu­dan­te: o espa­nhol Antonio Bonet, que pou­co mais tar­de se radi­ca­ria na Argentina e no Uruguai, e desen­vol­ve­ria pro­je­tos tam­bém no Brasil. Mas um olhar aten­to tal­vez reco­nhe­ça na pri­mei­ra fila da apre­sen­ta­ção do pre­si­den­te Cornelis van Eesteren um jovem toman­do notas. É Pietro Maria Bardi, que está ali como mem­bro da dele­ga­ção ita­li­a­na e edi­tor da revis­ta “Quadrante”. E ain­da sem Lina, como se vê. 

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