A construção de Tim Maia no cinema

No cinema

07.11.14

O cine­ma bra­si­lei­ro tem uma dívi­da insol­ví­vel com a músi­ca popu­lar. Desde os musi­cais car­na­va­les­cos dos anos 1930 estre­la­dos por Carmen Miranda, a rela­ção entre um e outra tem sido no mais das vezes para­si­tá­ria, para não dizer vam­pi­res­ca. A cada “tri­bu­to” pres­ta­do pelo cine­ma aos gran­des nomes da músi­ca, a dívi­da pare­ce aumen­tar, em vez de dimi­nuir.

Tudo isso para dizer que Tim Maia, de Mauro Lima, saiu melhor que a enco­men­da. É um dos pou­cos casos, a meu ver, em que o cine­ma con­se­guiu cap­tar e rever­be­rar a potên­cia da arte de seu per­so­na­gem.

Não se tra­ta pro­pri­a­men­te de uma cine­bi­o­gra­fia, mas de uma lei­tu­ra bas­tan­te con­vin­cen­te e envol­ven­te da vida e da obra de Tim Maia. Tudo é uma ques­tão de recor­te e pers­pec­ti­va: aban­do­nar a pre­ten­são enci­clo­pé­di­ca ou didá­ti­ca, dei­xar coi­sas de fora, optar por uma linha inter­pre­ta­ti­va, cons­truir, em suma, um per­so­na­gem. É isso o que faz Mauro Lima, cons­ci­en­te de que uma vida como a de Tim Maia é ina­bar­cá­vel.

Violência e ter­nu­ra

O arti­fí­cio usa­do para cons­truir esse viés é a nar­ra­ção em off por um per­so­na­gem, o músi­co Fábio (Cauã Reymond), pseudô­ni­mo do para­guaio Juan Senon Rolón, que publi­cou em 2007 o livro Até pare­ce que foi ontem – Meus 30 anos de ami­za­de e tra­ba­lho com Tim Maia, uma das fon­tes de infor­ma­ção do fil­me, ao lado do livro de Nelson Motta O som e a fúria de Tim Maia. Ainda que a nar­ra­ti­va não se resu­ma aos even­tos tes­te­mu­nha­dos por Fábio, o rela­to des­te ser­ve para orga­ni­zá-la, para con­fe­rir-lhe um foco.

O Tim Maia que emer­ge do fil­me, em atu­a­ções notá­veis de Robson Nunes (na juven­tu­de) e Babu Santana (na matu­ri­da­de), é um artis­ta de talen­to trans­bor­dan­te e tem­pe­ra­men­to explo­si­vo, um homem cuja com­pli­ca­da com­bi­na­ção de vio­lên­cia e ter­nu­ra tra­zia a mar­ca da auto­des­trui­ção.

O bom é que nada dis­so é expli­ci­ta­do, e menos ain­da “expli­ca­do” no fil­me. Mauro Lima recu­sa, acer­ta­da­men­te, o psi­co­lo­gis­mo, o soci­o­lo­gis­mo e a peda­go­gia moral. Está tudo na tela – a infân­cia difí­cil, a dis­cri­mi­na­ção soci­al e raci­al, o fler­te com a delinquên­cia, a for­ma­ção musi­cal errá­ti­ca, as rela­ções amo­ro­sas con­tur­ba­das, o mer­gu­lho nas dro­gas pesa­das, o res­sen­ti­men­to, a gló­ria, o fra­cas­so, a dete­ri­o­ra­ção físi­ca –, mas inte­gra­do orga­ni­ca­men­te numa nar­ra­ti­va cine­ma­to­grá­fi­ca efi­caz, com rit­mo, sur­pre­sas e sobre­tu­do humor.

Jovem guar­da e bos­sa nova

A sequên­cia (na ver­da­de, um enca­de­a­men­to de sequên­ci­as) em que Tim, de vol­ta dos EUA, ten­ta falar com seu ami­go de ado­les­cên­cia Roberto Carlos, já então um astro pop, é pri­mo­ro­sa. Vale por um cur­so sobre o show busi­ness num país soci­al e etni­ca­men­te fra­tu­ra­do como o Brasil. Igualmente, a cena em que, leva­dos por Carlos Imperial, os pobre­tões da Tijuca (Tim, Roberto e seus ami­gos do con­jun­to The Sputniks) inva­dem um bar de Ipanema fre­quen­ta­do pelo pes­so­al refi­na­do da bos­sa nova vale por um capí­tu­lo da his­tó­ria da músi­ca popu­lar bra­si­lei­ra.

O Imperial com­pos­to por Luis Lobianco (come­di­an­te do “Porta dos Fundos”) é per­fei­to como cafa­jes­te sedu­tor. Mesmo o Roberto Carlos de George Sauma, que mui­tos acu­sa­ram de cari­ca­to, faz sen­ti­do. Afinal, Roberto Carlos é uma espé­cie de cari­ca­tu­ra de si mes­mo.

A recons­ti­tui­ção de épo­ca, dis­cre­ta­men­te esti­li­za­da, dri­bla com desen­vol­tu­ra as pre­ten­sões à veros­si­mi­lhan­ça deta­lhis­ta que soter­ram tan­tas pro­du­ções bra­si­lei­ras recen­tes. Não esta­mos dian­te de um retra­to natu­ra­lis­ta, engo­ma­di­nho e veraz, dos anos 50 aos 90: esta­mos dian­te de um fil­me de fic­ção.

Elipses e omis­sões

Fãs de Tim Maia tal­vez se res­sin­tam de cer­tas omis­sões: fal­ta, por exem­plo, toda a fase Sullivan-Massadas, Elis Regina não é sequer cita­da, e um ami­go impor­tan­te como Jorge Ben só é men­ci­o­na­do bre­ve­men­te num diá­lo­go. Também a tur­bu­len­ta vida amo­ro­sa do can­tor é con­den­sa­da num úni­co rela­ci­o­na­men­to, com Janaína (Aline Moraes), uma ver­são bas­tan­te modi­fi­ca­da da ver­da­dei­ra mulher de Tim, Geisa. Mas é gra­ças a supres­sões como essas, e a elip­ses pre­ci­sas de tem­po, que o fil­me se man­tém por qua­se duas horas e meia como nar­ra­ti­va vigo­ro­sa, diver­ti­da e vibran­te.

No mais, é “som na cai­xa”: a músi­ca poten­te de Tim Maia, oca­si­o­nal­men­te na voz dos pró­pri­os ato­res que o encar­nam – e que se saem bas­tan­te bem do desa­fio, ain­da que sem che­gar per­to do tim­bre incon­fun­dí­vel do bio­gra­fa­do.

Se há uma fra­se que sin­te­ti­za esse Tim Maia, é uma pro­fe­ri­da por uma garo­ta indig­na­da com as gros­se­ri­as do sujei­to: “O cara tem que can­tar mui­to pra poder ser tão fol­ga­do”. E não é que can­ta­va mes­mo?

The real thing

Em tem­po: quem qui­ser ver o “ver­da­dei­ro” Tim Maia em ação, músi­ca e pen­sa­men­to tem como opção este deli­ci­o­so cur­ta-metra­gem rea­li­za­do por Flávio Tambellini em 1987:

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