A deliciosa despedida de Resnais

No cinema

21.07.14

Alain Resnais (1922–2014) sem­pre foi vis­to como “cine­as­ta do tem­po e da memó­ria”, repu­ta­ção cons­truí­da em obras-pri­mas como Hiroshima, meu amorO ano pas­sa­do em MarienbadMuriel e Providence. Com o pas­sar do tem­po, Resnais pas­sou a ser reco­nhe­ci­do tam­bém como um tre­men­do construtor/inventor de espa­ços.

Assim como emba­ra­lhou as fron­tei­ras entre pas­sa­do, pre­sen­te e futu­ro, o cine­ma de Resnais der­ru­bou pare­des, sub­ver­teu dis­tân­ci­as, cri­ou ambi­en­tes maleá­veis e vir­tu­ais, coman­da­dos pela ima­gi­na­ção e pelo dese­jo.

É esse sor­ti­lé­gio que se des­ta­ca em seu últi­mo fil­me, Amar, beber e can­tar, base­a­do em peça do dra­ma­tur­go lon­dri­no Alan Ayckborn, o mes­mo de Smoking/ No smo­king (1993) e Medos pri­va­dos em luga­res públi­cos (2006), outros êxi­tos da fase final do cine­as­ta.

Em Amar, beber e can­tar, que che­ga esta sema­na aos cine­mas bra­si­lei­ros, acom­pa­nha­mos um gru­po de ato­res semi­a­ma­do­res de meia-ida­de que estão se pre­pa­ran­do para ence­nar uma peça quan­do ficam saben­do que outro velho ami­go deles está com um cân­cer ter­mi­nal. Tudo pas­sa a girar em tor­no des­se per­so­na­gem ausen­te, George. Fala-se dele o tem­po todo, as mulhe­res do gru­po pas­sam a rodeá-lo de cui­da­dos, inqui­e­tan­do seus mari­dos, mas ele mes­mo nun­ca apa­re­ce, a exem­plo da sem­pre cita­da dire­to­ra da peça, uma cer­ta Peggy.

Fora do qua­dro

A essa estra­té­gia da peça, de ocul­tar per­so­na­gens cen­trais, dos quais depen­de a ação dos que estão em cena, cor­res­pon­de uma ope­ra­ção aná­lo­ga da mise-en-scè­ne de Resnais, que con­sis­te em dei­xar fora do qua­dro boa par­te dos acon­te­ci­men­tos.

Um caso evi­den­te é o da fes­ta de 16 anos da filha de um dos casais. Ouvimos os ruí­dos da mon­ta­gem do pal­co, a che­ga­da dos equi­pa­men­tos, depois a músi­ca, o bur­bu­ri­nho, mas não vemos abso­lu­ta­men­te nada. O dono da casa, Jack (Michel Villermoz), gri­ta com os ope­rá­ri­os, cha­ma a filha, mas nun­ca temos o con­tra­cam­po que mos­tra­ria com quem ele está falan­do. A fes­ta se pas­sa na nos­sa cabe­ça.

A pró­pria cons­tru­ção do cená­rio é osten­si­va­men­te tea­tral: as pare­des são gran­des fai­xas ver­ti­cais de pano colo­ri­do, como as que ficam no fun­do de um pal­co; dois ou três arbus­tos suge­rem um bos­que. As úni­cas loca­ções “reais” são os pla­nos de estra­da que ser­vem de liga­ção entre as cenas, quan­do há mudan­ça de ambi­en­te.

Cinema e tea­tro

Há nes­sa ati­tu­de uma ousa­dia e um fres­cor admi­rá­veis para um cine­as­ta nona­ge­ná­rio. Sua des­pre­o­cu­pa­ção com o natu­ra­lis­mo e a veros­si­mi­lhan­ça che­ga às rai­as da des­fa­ça­tez, numa épo­ca em que o cine­ma pare­ce ter per­di­do a capa­ci­da­de de inven­tar e sonhar. É como se Resnais lan­ças­se mão da liber­da­de de ima­gi­na­ção do tea­tro sem con­tu­do se dei­xar coi­bir por suas limi­ta­ções e con­ven­ções, poten­ci­a­li­zan­do os dois mei­os de expres­são (tea­tro e cine­ma), fazen­do com que se enri­que­çam reci­pro­ca­men­te.

Resnais, que tra­ba­lha aqui com alguns de seus ato­res habi­tu­ais (Sabine Azéma, André Dussolier, Michel Vollermoz), não atin­ge em Amar, beber e can­tar, a meu ver, a mes­ma for­ma esplen­do­ro­sa de seu lon­ga ante­ri­or, Vocês ain­da não viram nada (2012), tal­vez a obra-pri­ma de sua últi­ma fase. Mas pou­cos dire­to­res terão se des­pe­di­do do cine­ma e da vida com um fil­me tão leve, deli­ci­o­so, encan­ta­dor.

,