A desconstrução na e da política

Colunistas

17.09.14

Nos 30 anos que sepa­ram a publi­ca­ção de Gramatologia (1967), na França, do lan­ça­men­to do fil­me Desconstruindo Harry (1997), nos EUA, a pala­vra des­cons­tru­ção – ter­mo filo­só­fi­co pelo qual o pen­sa­dor Jacques Derrida se nota­bi­li­zou – pas­sou por um amplo pro­ces­so de popu­la­ri­za­ção. Os qua­se 20 anos que nos afas­tam do sar­cas­mo de Desconstruindo Harry – títu­lo que mar­ca o ápi­ce da pre­sen­ça de Derrida nos depar­ta­men­tos de teo­ria lite­rá­ria e estu­dos cul­tu­rais, que pas­sou a fre­quen­tar como pro­fes­sor visi­tan­te a par­tir dos anos 1980 – desem­bo­cam no ridí­cu­lo do momen­to polí­ti­co bra­si­lei­ro, com o uso do ter­mo vul­ga­ri­za­do nos dis­cur­sos dos mar­que­tei­ros das cam­pa­nhas pre­si­den­ci­ais, por vezes tam­bém repro­du­zi­do no noti­ciá­rio dito espe­ci­a­li­za­do em polí­ti­ca.

O filósofo franco-argelino Jacques Derrida.

Derrida mor­reu há uma déca­da, aos 74 anos, e dedi­cou sua car­rei­ra filo­só­fi­ca a expli­car que des­cons­truir não é sinô­ni­mo de des­truir. Em par­te, a con­fu­são vem de lei­tu­ras mal inten­ci­o­na­das, diri­gi­das a uma des­qua­li­fi­ca­ção do seu pen­sa­men­to; em outra medi­da, o fato da des­cons­tru­ção ter sido ins­pi­ra­da na Detruktion do ale­mão Martin Heidegger, cuja tra­du­ção lite­ral para o fran­cês faria sino­ní­mia com des­trui­ção, aju­dou a pro­du­zir a pos­si­bi­li­da­de do que seria o uso vul­gar do ter­mo.

Seu obje­ti­vo era pen­sar a des­cons­tru­ção como “aqui­lo que che­ga” ou “o que acon­te­ce no mun­do”, con­sequên­cia do reco­nhe­ci­men­to de que dis­cur­sos são cons­tru­ções que cons­tro­em inclu­si­ve aqui­lo que esta­be­le­cem como seu fun­da­men­to. Ou, como na sin­té­ti­ca expli­ca­ção do filó­so­fo Michael Nass: “A des­cons­tru­ção é o que acon­te­ce, está em fun­ci­o­na­men­to, tem uma vida pró­pria, por assim dizer, no dis­cur­so, cor­pos, ins­ti­tui­ções e esta­dos”. Sendo da ordem do acon­te­ci­men­to, a des­cons­tru­ção per­de a pos­si­bi­li­da­de de ser uma for­ma de ope­rar, fica des­ti­tuí­da de ser apli­ca­da sobre algu­ma coi­sa, mes­mo que seja sobre um can­di­da­to. Para des­gos­to de Derrida, mui­tas vezes o enten­di­men­to vul­gar do ter­mo des­cons­tru­ção se cris­ta­li­zou como sinô­ni­mo de des­mon­tar ou de um mero des­fa­zer.

Desde as elei­ções pre­si­den­ci­ais de 1989 sabe-se que toda can­di­da­tu­ra vito­ri­o­sa à pre­si­dên­cia da República tem sido uma cons­tru­ção cujas bases são o mar­ke­ting polí­ti­co e sua capa­ci­da­de de esta­be­le­cer, por altos inves­ti­men­tos em pes­qui­sas de opi­nião, o dis­cur­so que a opi­nião públi­ca quer ouvir; ali­a­do às for­ças polí­ti­cas con­ser­va­do­ras que con­tro­la­ri­am os votos nos gro­tões; além de acor­dos com lide­ran­ças reli­gi­o­sas de onde viri­am expres­si­vo per­cen­tu­al de elei­to­res que defi­nem seu voto a par­tir da fé, como bem mos­tram as aná­li­ses do pro­fes­sor Cesar Romero Jacob (PUC-Rio).

O ridí­cu­lo do uso vul­gar do ter­mo des­cons­tru­ção na polí­ti­ca bra­si­lei­ra tem um com­po­nen­te extra: a pro­pri­e­da­de com que se pode­ria usá-lo em sua for­ma der­ri­di­a­na para pen­sar que, des­de as mani­fes­ta­ções de rua eclo­di­ram, em julho de 2013, o que tem acon­te­ci­do é a des­cons­tru­ção da polí­ti­ca, des­cons­tru­ção como aqui­lo que irrom­pe e evi­den­cia as cons­tru­ções dis­cur­si­vas que ao lon­go de três déca­das sus­ten­ta­ram a ideia de que o for­ta­le­ci­men­to da demo­cra­cia bra­si­lei­ra pas­sa­va neces­sa­ri­a­men­te por acor­dos com for­ças con­ser­va­do­ras capa­zes de evi­tar o pior – a par­ti­ci­pa­ção popu­lar –  e que a demo­cra­cia repre­sen­ta­ti­va, com todas as suas exi­gên­ci­as de for­ma­ção de bases ali­a­das no Congresso, é a úni­ca opção de orga­ni­za­ção soci­al capaz de pro­du­zir esta­bi­li­da­de econô­mi­ca, eman­ci­pa­ção polí­ti­ca e jus­ti­ça soci­al. Não é por aca­so que a eco­no­mia anco­ra todos os dis­cur­sos em nome da demo­cra­cia, como pres­su­pos­to e pro­mes­sa de um dia alcan­çar eman­ci­pa­ção polí­ti­ca e jus­ti­ça soci­al.

Se de fato fos­se pos­sí­vel pre­ten­der tra­du­zir a voz das ruas – pre­ten­são desau­to­ri­za­da pelas ruas, na medi­da em que os pro­tes­tos tam­bém esta­vam diri­gi­dos a toda pre­ten­são de repre­sen­ta­ção –, a pala­vra des­cons­tru­ção, seja como decom­po­si­ção das estru­tu­ras tra­di­ci­o­nais da polí­ti­ca bra­si­lei­ra, seja como aqui­lo que acon­te­ce com as ins­ti­tui­ções, pode­ria estar estam­pa­da nos car­ta­zes dos mani­fes­tan­tes, o que pro­va­vel­men­te expli­ca sua opor­tu­nis­ta apro­pri­a­ção pelo mar­ke­ting polí­ti­co (ple­o­nas­mo?).

A demo­cra­cia repre­sen­ta­ti­va, como diz o filó­so­fo Jacques Rancière em seu novo livro, Ódio à demo­cra­cia, não é uma mera con­sequên­cia do cres­ci­men­to popu­la­ci­o­nal nem resul­ta­do para um pro­ble­ma demo­grá­fi­co. É uma estru­tu­ra oli­gár­qui­ca cri­a­da para que pou­cos se man­te­nham no poder repre­sen­tan­do todos. Se é legí­ti­mo inter­pre­tar a cri­se polí­ti­ca de 2013 como mais um refle­xo de uma lon­ga cri­se da repre­sen­ta­ção – de um obje­to a um sujei­to, de um con­cei­to a uma rea­li­da­de – que atra­ves­sou todo o sécu­lo XX, então tam­bém pas­sa a ser legí­ti­mo pen­sar que a des­cons­tru­ção da e na polí­ti­ca está acon­te­cen­do como eclo­são con­tra um dis­cur­so domi­nan­te acer­ca da demo­cra­cia repre­sen­ta­ti­va, cujos limi­tes estão expos­tos no mun­do. Por onde as mani­fes­ta­ções de rua pas­sa­ram, aba­la­ram essa per­cep­ção.

No Brasil – cujas estru­tu­ras oli­gár­qui­cas ope­ram his­to­ri­ca­men­te para se man­ter no poder – não seria dife­ren­te, sobre­tu­do con­si­de­ran­do a tra­di­ci­o­nal liga­ção entre coro­ne­lis­mos rurais, polí­ti­cos e econô­mi­cos que coman­dam o país des­de o pri­mei­ro Cabral. A des­cons­tru­ção na e da polí­ti­ca pode­ria dei­xar de ser um ges­to ridí­cu­lo ou deses­pe­ra­do que pre­ten­de apon­tar as falhas de esta ou aque­la can­di­da­tu­ra para ser a pos­si­bi­li­da­de de per­ce­ber que toda repre­sen­ta­ção pode ser ques­ti­o­na­da por­que está em des­cons­tru­ção – aqui sim, no sen­ti­do der­ri­di­a­no – a pró­pria ideia de que um can­di­da­to pode vir a repre­sen­tar a mul­ti­pli­ci­da­de de ansei­os de soci­e­da­des com­ple­xas e desi­guais, como é a bra­si­lei­ra.

A par­tir do iní­cio de outu­bro, os 10 anos da mor­te de Derrida serão obje­to de mui­tas home­na­gens. Na França, onde se for­mou; nos EUA, onde se nota­bi­li­zou; em Portugal, onde tem sido sis­te­ma­ti­ca­men­te tra­du­zi­do pela filó­so­fa Fernanda Bernardo; na Argentina, onde um encon­tro lati­no-ame­ri­ca­no pre­ten­de dis­cu­tir a impor­tân­cia de um autor que abriu cami­nhos aos estu­dos pós-colo­ni­ais; no Brasil, onde vem sido lido sis­te­ma­ti­ca­men­te des­de 1974, pri­mei­ro no Departamento de Letras, a par­tir de 2002, no Departamento de Filosofia da PUC-Rio. O pri­mei­ro tur­no da elei­ção acon­te­ce dia 5 de outu­bro, ape­nas qua­tro dias antes da data de sua mor­te, cuja últi­ma con­fe­rên­cia foi pro­fe­ri­da no Brasil e teve como tema o pro­ble­ma da memó­ria e do per­dão. Seja pela memó­ria recen­te dos movi­men­tos de rua do ano pas­sa­do, seja pelas lem­bran­ças tan­tas vezes recal­ca­das da vio­lên­cia da dita­du­ra mili­tar, o melhor que se pode espe­rar das urnas é que a des­cons­tru­ção acon­te­ça. 

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