O cineasta David Lynch

O cineasta David Lynch

A doçura do irracional

Televisão

10.07.17

O lan­ça­men­to da nova série Twin Peaks (2017), de David Lynch, ins­pi­rou a pro­gra­ma­ção de dois fil­mes do autor no cine­ma do IMS Rio, em cópi­as espe­ci­ais tra­zi­das da França: Eraserhead, seu pri­mei­ro lon­ga, que aca­ba de ser dis­po­ni­bi­li­za­do para dis­tri­bui­ção após res­tau­ro em 4K, e Twin Peaks: Os últi­mos dias de Laura Palmer. Os fil­mes serão exi­bi­dos nos dias 15, 22 e 23.

David Lynch come­çou a car­rei­ra artís­ti­ca como pin­tor. No docu­men­tá­rio David Lynch: A vida de um artis­ta (2016), ele diz que enve­re­dou para o cine­ma atraí­do pelas pos­si­bi­li­da­des de uma “tela com movi­men­to e som”. Em um arti­go de 7 de maio de 1990 da New York Magazine, há uma cita­ção de Lynch sobre sua série de tele­vi­são Twin Peaks (1990–1991), exi­bi­da pela ABC: “Se você pode falar sobre o assun­to, você não está usan­do o cine­ma.” Até então o dire­tor era conhe­ci­do por fil­mes como Eraserhead (1978), O Homem Elefante (1980), Duna (1984) e Veludo azul (1986), e a série foi um caso raro de suces­so de audi­ên­cia que man­ti­nha todas as carac­te­rís­ti­cas “cult” que mar­ca­vam os fil­mes, todas as idi­os­sin­cra­si­as de Lynch, ain­da que dosa­das pelo copro­du­tor Mark Frost.

Na série ori­gi­nal, o cor­po de Laura Palmer, ado­ra­da ado­les­cen­te de dezes­se­te anos, apa­re­ce envol­to em plás­ti­co pró­xi­mo à ser­ra­lhe­ria da cida­de­zi­nha, per­to da divi­sa com o Canadá. Antes mes­mo que o xeri­fe local pos­sa come­çar a inves­ti­ga­ção, sur­ge outra víti­ma de tor­tu­ra e estu­pro, e o agen­te espe­ci­al Dale Cooper, do FBI, entra em cena para assu­mir o coman­do. A pre­mis­sa pare­ce bas­tan­te sim­ples e até fami­li­ar, mas, na com­pa­nhia do agen­te Cooper, come­ça­mos a des­ven­dar outras pos­si­bi­li­da­des, outros pla­nos de exis­tên­cia e cri­a­tu­ras que pare­cem huma­nas, mas não são.

Ainda na New York Magazine, Mark Frost expli­ca como a emis­so­ra foi con­ven­ci­da a ban­car a série: “Dissemos que faría­mos uma nove­la som­bria e mis­te­ri­o­sa de duas horas a res­pei­to de um assas­si­na­to, pas­sa­da em uma cida­de fic­tí­cia do noro­es­te dos Estados Unidos, com gran­de elen­co, de van­guar­da. E des­de cedo, logo depois de entre­gar­mos o pilo­to, eles dis­se­ram que havía­mos entre­ga­do exa­ta­men­te o pro­me­ti­do. (…) Basicamente, dis­se­ram ‘rapa­zes, façam a série, esta­mos ansi­o­sos para ver como vai ficar.’”

Na déca­da de 1990, Frost atu­a­va como o rea­lity check de Lynch. “Temos de agra­dar um públi­co mai­or,” dizia Lynch. “Ele deu uma poli­da e me tor­nou mais apre­sen­tá­vel”. Vinte e seis anos depois, com o retor­no de Twin Peaks, exi­bi­da no Brasil pela Netflix, para o bem e para o mal não há mais a pre­o­cu­pa­ção em agra­dar um “públi­co mai­or”.

Muito da nos­tal­gia com rela­ção a Twin Peaks pode se resu­mir ao sen­ti­men­ta­lis­mo de um con­jun­to de caco­e­tes da série ori­gi­nal, envol­ven­do peda­ços de tor­ta, donuts, um café deli­ci­o­so e moças boni­tas capa­zes de dar um nó em has­tes de cere­ja usan­do ape­nas a lín­gua. É como se apai­xo­nar pelo visu­al pecu­li­ar dos fil­mes de Wes Anderson sem com­pre­en­der que, para além da pecu­li­a­ri­da­de, exis­tem temas mais den­sos sen­do abor­da­dos.

Além do esti­lo e do sen­so de humor carac­te­rís­ti­cos de Lynch,  Twin Peaks con­ta a his­tó­ria de uma ado­les­cen­te, qua­se um sím­bo­lo local de pure­za, que foi estu­pra­da e assas­si­na­da, nar­ra sua con­vi­vên­cia com o mal na apa­ren­te segu­ran­ça de sua pró­pria casa e de sua cida­de paca­ta, rode­a­da de ami­gos. A vol­ta da série, com o sub­tí­tu­lo The return, é um tes­te para os nos­tál­gi­cos. Os dois pri­mei­ros epi­só­di­os são puro Lynch, sem fil­tros, des­pre­o­cu­pa­do com a estru­tu­ra nove­les­ca ou poli­ci­a­les­ca que deram for­ma ao pilo­to.

Lynch, que tam­bém par­ti­ci­pa da tri­lha sono­ra, da mixa­gem do som e da edi­ção da nova série, decla­rou que o retor­no deve ser enca­ra­do como um fil­me de dezoi­to horas (a ser lan­ça­do ao lon­go de três ou qua­tro meses). Com isso em vis­ta, é pos­sí­vel enten­der por que ele pare­ce “per­der” tan­to tem­po em cenas apa­ren­te­men­te des­ne­ces­sá­ri­as, que não tra­zem infor­ma­ções novas ou rele­van­tes. Às vezes é como assis­tir um fil­me de dura­ção nor­mal em câme­ra len­tís­si­ma. Além da dura­ção de cada cena indi­vi­du­al, há uma lon­ga demo­ra para que qual­quer tra­ma seja leva­da adi­an­te, isso quan­do é leva­da adi­an­te.

Há uma cena logo no pri­mei­ro epi­só­dio, por exem­plo, em que o Dr. Jacoby, inter­pre­ta­do por Russ Tamblyn, rece­be cai­xas enor­mes con­ten­do vári­as pás. Só des­co­bri­mos para o que elas ser­vem no quin­to epi­só­dio, mais ou menos qua­tro horas depois. E nem é algo tão impor­tan­te, é ape­nas curi­o­so. Isso não é uma recla­ma­ção, mas um avi­so. Seja assis­tin­do aos pou­cos ou como um fil­me de dezoi­to horas, há bas­tan­te coi­sas para assi­mi­lar. Temos um dos dire­to­res mais ino­va­do­res do nos­so tem­po tra­ba­lhan­do sem qual­quer amar­ra, e com todo o apoio, para expan­dir um uni­ver­so rico e com­ple­xo. Cabe, de nos­sa par­te, um ajus­te de expec­ta­ti­vas, ou no míni­mo uma cer­ta aber­tu­ra ao que ele tem a nos ofe­re­cer.

A Mulher do Tronco (Catherine Coulson) na série de 2017

No pri­mei­ro epi­só­dio, Hawk (Michael Horse) rece­be um tele­fo­ne­ma de Margaret Lanterman, a sau­do­sa “mulher do tron­co”, mui­to frá­gil e sem os cabe­los (a atriz Catherine Coulson mor­reu de cân­cer em 2015), com uma “men­sa­gem do tron­co” em rela­ção ao agen­te Cooper. Hawk não ques­ti­o­na o teor da men­sa­gem, nin­guém na dele­ga­cia ques­ti­o­na os pode­res sobre­na­tu­rais do tron­co, ape­nas Chad (John Pirruccello), um per­so­na­gem novo e baba­ca, faz um comen­tá­rio mali­ci­o­so para em segui­da ser enxo­ta­do da sala pelo xeri­fe Frank Truman (Robert Forster). A cena é impor­tan­te para mos­trar que, em Twin Peaks, é essen­ci­al estar aber­to às pos­si­bi­li­da­des e não se pre­o­cu­par com os deta­lhes. Se o tron­co dis­se, está fala­do. E é bom ficar aten­to e aber­to à men­sa­gem.

Isabella Rossellini, atriz de Veludo azul, afir­mou que Lynch é “aben­ço­a­do”, pois “a mai­o­ria das pes­so­as tem pen­sa­men­tos estra­nhos, mas raci­o­na­li­za esses pen­sa­men­tos. Como David não tra­duz as ima­gens logi­ca­men­te, elas per­ma­ne­cem puras, emo­ci­o­nais. Sempre que eu lhe per­gun­to de onde ele tira suas idei­as, res­pon­de que é como pes­car. Ele nun­ca sabe o que vai pegar”.

Não sei por que as pes­so­as espe­ram que a arte faça algum sen­ti­do. Elas acei­tam o fato de que a vida não faz sen­ti­do,” dizia Lynch déca­das atrás. Há sen­ti­do em Twin Peaks, mas é mui­to mais emo­ci­o­nal do que raci­o­nal, uma sen­sa­ção em vez de uma solu­ção lógi­ca e con­cre­ta. No sex­to epi­só­dio, apri­si­o­na­do no cor­po de Dougie, o agen­te Cooper (Kyle MacLachlan, cuja atu­a­ção lem­bra Peter Sellers em Muito além do jar­dim) entre­ga deze­nas de papéis rabis­ca­dos ao che­fe, repe­te as últi­mas pala­vras ditas como se fos­se um papa­gaio e, sem que­rer, pede a ele, e a nós mes­mos, que make sen­se [lite­ral­men­te, “faça sen­ti­do”] daqui­lo, ou seja, que se vire para enten­der. Seu che­fe obser­va os rabis­cos com mais cui­da­do e, final­men­te, agra­de­ce, “você me deu mui­to o que pen­sar”. Ao desa­ce­le­rar o pas­so e rom­per com as expec­ta­ti­vas dos nos­tál­gi­cos, Lynch quer nos dar algo para pen­sar e que nós mes­mos cri­e­mos o sen­ti­do, mes­mo que não exis­ta um.

Tanto a série ori­gi­nal quan­to o fil­me Twin Peaks – Os últi­mos dias de Laura Palmer (1992) e a nova tem­po­ra­da depen­dem de uma lógi­ca emo­ci­o­nal e não con­cre­ta. Em vez de ten­tar des­ven­dar onde cada peça se encai­xa, é melhor sim­ples­men­te se ren­der aos mis­té­ri­os, se dei­xar levar pelas sen­sa­ções de cada epi­só­dio e ten­tar com­pre­en­der o que se pas­sa de for­ma mais intui­ti­va e menos raci­o­nal.

A mai­o­ria dos epi­só­di­os são dedi­ca­dos a alguém do elen­co que mor­reu. Muitos ato­res mor­re­ram des­de as fil­ma­gens, ou apa­re­cem ape­nas em flash­backs. Catherine Coulson, Frank Silva, Miguel Ferrer, Don S. Davis, Warren Frost… A che­ga­da da ida­de, a fra­gi­li­da­de, a con­vi­vên­cia com a doen­ça e a mor­te são temas sutis, mas pre­sen­tes, como na dis­cre­ta con­ver­sa de tele­fo­ne de Frank com seu irmão Harry Truman. Também não há esfor­ço algum da câme­ra ou da ilu­mi­na­ção em escon­der linhas de expres­são, inclu­si­ve de atri­zes como Naomi Watts. Retratar os ato­res de tal for­ma não é uma expo­si­ção cru­el da pas­sa­gem do tem­po, mas um ges­to de doçu­ra.

É impos­sí­vel não com­pa­rar o oita­vo epi­só­dio com 2001: Uma odis­seia no espa­ço, de Stanley Kubrick. Só que, em vez de vol­tar no tem­po parar con­tar a his­tó­ria do avan­ço tec­no­ló­gi­co da huma­ni­da­de, Lynch vol­ta no tem­po para falar de seu retro­ces­so, ou do nas­ci­men­to de Bob, a enti­da­de malig­na que habi­ta nos­sos cora­ções des­de a explo­são da bom­ba atô­mi­ca (não à toa, há um enor­me qua­dro retra­tan­do a explo­são da bom­ba atô­mi­ca atrás da mesa de Gordon Cole, per­so­na­gem inter­pre­ta­do pelo pró­prio David Lynch). Não exis­te nada igual na tele­vi­são. Novamente, as demais tra­mas são sus­pen­sas e a mai­or par­te do epi­só­dio é um flash­back psi­co­dé­li­co, isso sem falar da apre­sen­ta­ção da ban­da Nine Inch Nails, qua­se um deta­lhe em com­pa­ra­ção com o res­to.

Com a série ain­da em anda­men­to, e após um epi­só­dio tão sur­pre­en­den­te, é difí­cil ima­gi­nar o que há pela fren­te.

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