James McAvoy em Fragmentado

James McAvoy em Fragmentado

A doença da imaginação

No cinema

24.03.17

Split, o títu­lo ori­gi­nal de Fragmentado, tem vári­as tra­du­ções pos­sí­veis, além da ado­ta­da pelos dis­tri­bui­do­res bra­si­lei­ros: cin­di­do, des­pe­da­ça­do, divi­di­do, esfa­ce­la­do… Todas se apli­cam ao esplên­di­do fil­me de M. Night Shyamalan que está che­gan­do aos nos­sos cine­mas.

É, ao mes­mo tem­po, um sus­pen­se ele­tri­zan­te e uma enge­nho­sa espe­cu­la­ção em tor­no do tema da iden­ti­da­de pes­so­al e, prin­ci­pal­men­te, da rela­ção de mão dupla entre real e ima­gi­ná­rio. Seu pro­ta­go­nis­ta, Kevin Crumb (James McAvoy), é um jovem adul­to com o cha­ma­do trans­tor­no dis­so­ci­a­ti­vo de iden­ti­da­de (TDI). Convivem em seu cor­po nada menos que 23 per­so­na­li­da­des, cada uma delas com carac­te­rís­ti­cas psi­co­ló­gi­cas, morais e até fisi­o­ló­gi­cas dife­ren­tes. Sua psi­qui­a­tra, a dou­to­ra Fletcher (Betty Buckley), defen­de a tese de que a ima­gi­na­ção de um por­ta­dor de TDI é uma espé­cie de dom capaz de ampli­ar suas pos­si­bi­li­da­des físi­cas.

Tramas entre­la­ça­das

A par­tir des­sa ideia cen­tral, Shyamalan desen­vol­ve para­le­la­men­te, ou entre­la­ça­da­men­te, duas tra­mas, dois emba­tes. No mais evi­den­te deles, Kevin seques­tra e man­tém em cati­vei­ro três garo­tas ado­les­cen­tes, que ten­tam fugir com os mei­os ao seu alcan­ce. O outro emba­te se dá no inte­ri­or do pró­prio Kevin, entre seus vári­os alter egos, cada um ten­tan­do vir à luz em algum momen­to, eclip­san­do os outros.

A pró­pria ambi­en­ta­ção de gran­de par­te do fil­me num labi­rin­to sub­ter­râ­neo de cômo­dos desar­ran­ja­dos e escu­ros espe­lha de cer­to modo o mun­do inte­ri­or do pro­ta­go­nis­ta. Tudo o que há de mais abs­tra­to se tra­duz em ima­gem e movi­men­to, em jogos de luz e som­bra.

Com um domí­nio admi­rá­vel dos enqua­dra­men­tos, dos movi­men­tos de câme­ra, do rit­mo da mon­ta­gem e da dire­ção de ato­res, o dire­tor extrai o máxi­mo des­sa situ­a­ção em que, assim como as víti­mas e a psi­qui­a­tra de Kevin, nun­ca sabe­mos ao cer­to quem está coman­dan­do seu cor­po. A ten­são é pra­ti­ca­men­te inin­ter­rup­ta.

Das garo­tas seques­tra­das, aque­la que, des­de o iní­cio, esta­be­le­ce um canal de comu­ni­ca­ção com seu algoz, pare­cen­do pres­tes a com­pre­en­dê-lo, é a intro­ver­ti­da Casey (Anya Taylor-Joy), a “esqui­si­ti­nha” da clas­se, que sofreu, ela pró­pria, um gran­de e con­ti­nu­a­do trau­ma na infân­cia.

Longe de ser uma mera e sen­ti­men­tal “soli­da­ri­e­da­de dos humi­lha­dos”, esse esbo­ço de vín­cu­lo suge­re uma idéia mais fecun­da, a da ano­ma­lia como potên­cia, da “doen­ça” como sin­gu­la­ri­da­de. Radicalizando esse raci­o­cí­nio, a pró­pria arte, com tudo aqui­lo que impli­ca de inte­li­gên­cia e sen­si­bi­li­da­de fora dos padrões, seria uma espé­cie de esplen­do­ro­sa aber­ra­ção – como a péro­la que sur­ge de um ver­me ou de um grão de areia, per­tur­ba­ção impre­vis­ta e inde­se­ja­da no cor­po da ostra.

Estranho no ninho

Shyamalan é, ele mes­mo, um cor­po estra­nho no cine­ma indus­tri­al ame­ri­ca­no. Tem uma obra sin­gu­lar, impre­vi­sí­vel, que se inse­re de manei­ra meio tor­ta na Hollywood robo­ti­za­da de nos­sos dias. Depois de ganhar noto­ri­e­da­de com uma peque­na obra-pri­ma, O sex­to sen­ti­do (1999), ele fler­tou com os gran­des estú­di­os, alter­nou êxi­tos e fra­cas­sos, mas sem­pre de modo mui­to pes­so­al e ori­gi­nal, e ago­ra está de vol­ta a um esque­ma de pro­du­ção mais modes­ta nos recur­sos mate­ri­ais e livre na rea­li­za­ção.

Consciente de que não está inven­tan­do a roda, mas ape­nas rede­se­nhan­do-a a seu modo, o dire­tor dia­lo­ga cri­ti­ca­men­te com a tra­di­ção do cine­ma ame­ri­ca­no de gêne­ro. No caso de Fragmentado, con­ver­sa, entre outros, com Psicose, de Hitchcock, e Cabo do medo, de Scorsese, para citar dois fil­mes domi­na­dos por vilões cuja pato­lo­gia os tor­na inu­ma­nos, extra-huma­nos ou sobre-huma­nos. E há refe­rên­ci­as à pró­pria fil­mo­gra­fia de Shyamalan, que aliás apa­re­ce numa pon­ta sig­ni­fi­ca­ti­va, como o segu­ran­ça que moni­to­ra a vida de um pré­dio por meio de vári­as câme­ras. O diá­lo­go final, reme­ten­do joco­sa­men­te a Corpo fecha­do (2000), pare­ce uma pis­ca­da de olho ao espec­ta­dor, como se dis­ses­se: no fun­do, o que faze­mos aqui é um gran­de jogo, um faz-de-con­ta sem fim.

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