A egípcia de cabelo roxo — Daniela Thomas posa para Steinberg

Artes

26.05.11

A pri­mei­ra vez que eu vi seu ros­to foi quan­do ele abriu a por­ta do apar­ta­men­to no Upper East Side. Era um ros­to infer­nal­men­te comum: um velho judeu, care­ca, de bigo­de. Havia pas­sa­do por mui­tos deles no cami­nho até a sua casa. Como na pia­da do minei­ro, sobre os ele­fan­tes voa­do­res: “o ninho deis deve ser aqui por per­to?”, pen­sei. Demorei para entrar, desa­pon­ta­da com a ausên­cia de fogos de arti­fí­cio, tri­lha sono­ra e outros efei­tos espe­ci­ais. Steinberg roda­ra a maça­ne­ta e abri­ra a por­ta sozi­nho. Um ges­to banal, um ros­to banal. Chegava ao fim — sem nenhu­ma pom­pa — uma lon­ga e inter­mi­ná­vel sema­na des­de que havía­mos com­bi­na­do de visi­tá-lo. Chegavam ao fim qua­se 25 anos da minha vida e pelo menos 20 de devo­ção àque­la cri­a­tu­ra abso­lu­ta­men­te comum que abri­ra a por­ta.

Entre as mui­tas idi­os­sin­cra­si­as de Steinberg, uma das mais notá­veis era a de não mos­trar o ros­to em fotos. Na mais famo­sa foto sua, em vez do seu ros­to, ele exi­bia um saco de papel kraft sobre os ombros com um dese­nho: um par de ócu­los, um nariz alon­ga­do, bigo­de e um tra­ço como boca. Acho que era nada menos do que esse saco de papel que eu espe­ra­va encon­trar por trás da por­ta. Mas não: todo o mis­té­rio se esvaiu de uma só vez. Era pre­ci­so rebo­bi­nar a fita e pre­pa­rar-se para uma nova equa­ção: con­ver­sa de salão com um anjo caí­do.

Difícil.

Entramos. Câmera len­ta. Como dar con­ta de tudo: todos os móveis e qua­dros, sua voz, seu sota­que, cada fio de cabe­lo — os que res­ta­ram e os que fal­ta­vam. Lembro-me que as pare­des eram ama­re­las, ama­re­lo cla­ro, de onde sal­ta­vam aos olhos as mol­du­ras bran­cas e os móveis de madei­ra escu­ra, como em todos os fil­mes do Woody Allen: o ver­ná­cu­lo com­ple­to do apar­ta­men­to do inte­lec­tu­al nova-ior­qui­no. Não me lem­bro dos qua­dros nas pare­des. O que eram? Steinbergs? Sei que rapi­da­men­te per­di o inte­res­se na con­ver­sa. Tive von­ta­de de sair dali e vol­tar a fan­ta­si­ar sobre o homem por trás da cabe­ça de pape­lão. Não tinha gra­ça algu­ma aque­la figu­ra, que se esfor­ça­va em mos­trar inte­res­se por esse casal de ami­gos de uma sua ami­ga ita­li­a­na. Eu con­ta­va os minu­tos, fazia-me de sur­da. Nossa ami­ga Jerelle, a edi­to­ra de arte da Op-Ed page do New York Times — que havia pega­do caro­na conos­co na visi­ta -, fala­va demais, ria alto demais, tudo me pare­cia desa­gra­dá­vel, incon­ve­ni­en­te. De repen­te, inter­rom­pen­do um lon­go caso de Jerelle, Steinberg vira o ros­to na minha dire­ção e per­gun­ta: você pode­ria posar para mim?

Meu ros­to incen­di­ou-se, ins­tan­ta­ne­a­men­te. Mas cla­ro. Quando? Agora? “Semana que vem, quin­ta-fei­ra, à tar­de.” Combinado. Ele falou algo sobre meu cabe­lo, na épo­ca mui­to negro, com­pri­do e liso. Algo sobre eu ser egíp­cia, pare­cer egíp­cia. Não ouvi nem vi mais nada. Queria dor­mir até a quin­ta-fei­ra seguin­te.

Os dese­nhos de Steinberg estão gra­va­dos a fogo no meu cére­bro. São a pai­sa­gem da minha infân­cia, como Caetano, Gil, Beatles e Gal são o som da minha infân­cia. Seus livros esta­vam em todo lugar da minha casa, até do lado da pri­va­da, me obri­gan­do a ficar mui­to mais horas do que neces­sá­rio sen­ta­da ali, coto­ve­los esma­gan­do as pági­nas. Não tinha nada escri­to nes­ses livros. Quando mui­to, as pala­vras eram coi­sas, pai­sa­gens. Eu VIAJAVA nos seus dese­nhos, por horas. Seguia com os olhos o per­cur­so das linhas, suas espi­rais ascen­den­tes, ria sozi­nha quan­do enten­dia as pia­das, como a do qua­dra­do todo fer­ra­do que se ima­gi­na­va pita­gó­ri­co, todo reti­nho, pobre­zi­nho. Fui à Italia com Steinberg, acom­pa­nhei as volu­tas que a mão de um mila­nês dese­nha­vam no ar. Viajei de ôni­bus por todos os Estados Unidos e pelas infin­dá­veis colu­nas de seus infin­dá­veis pré­di­os públi­cos. Vi seus dese­nhos des­mon­tar e des­mon­tar e remon­tar em labi­rin­tos. Enfim, fui uma sua adep­ta, como já vinha sen­do des­de mui­tos anos meu pai e todos os seus ami­gos — e quem mais vies­se ao estú­dio (cora­ção da minha casa) pro­cu­rar notí­ci­as. Era esse o cara que eu iria visi­tar, sozi­nha, na quin­ta-fei­ra seguin­te, para virar um dese­nho seu.

Chegou quin­ta-fei­ra. Estava mui­to frio. Usei meu casa­co mais quen­te. Toquei a cam­pai­nha e o velho care­ca e bigo­du­do do Upper East Side abriu a por­ta, como da últi­ma vez. Fomos dire­to à sala de jan­tar, onde a mesa de madei­ra bem escu­ra e mui­to poli­da esta­va pos­ta: alguns cader­nos, lápis de cor, uma régua, bor­ra­cha e lápis de gra­fi­te. Me dei con­ta que seus últi­mos tra­ba­lhos — suas natu­re­zas-mor­tas — eram retra­tos de sua mesa de jan­tar. Fiquei emo­ci­o­na­da. Ele sen­ta­va ali e dese­nha­va seus mode­los ina­ni­ma­dos, com mui­to cui­da­do. Uma tris­te­za me inva­diu: seus últi­mos dese­nhos eram a per­fei­ta tra­du­ção da soli­dão des­se velho em seu apar­ta­men­to ama­re­lo.

Conversamos lon­ga­men­te. Ele me trou­xe uma tor­ta de maçã, que dis­se ter com­pra­do espe­ci­al­men­te para mim. Me dei­xou tão à von­ta­de que, quan­do me dei con­ta, esta­va lhe con­tan­do sobre déjà vus e outras bes­tei­ras de meni­na. Enquanto isso, fez inú­me­ros dese­nhos meus. Eu com imen­sos cabe­los roxos, fio por fio. Fez outro dese­nho. E mais outro. Em algum momen­to me con­fi­den­ci­ou sobre sua imen­sa frus­tra­ção de ser con­si­de­ra­do menos artis­ta que um? De Kooning por exem­plo, seu vizi­nho na casa de praia. “De Kooning, artis­ta de uma idéia só!”, res­mun­gou. “O gênio dos gêni­os! Eu, cada dese­nho uma ideia, um artis­ta menor: um car­tu­nis­ta!” Disse que era tudo uma ques­tão de mate­ri­al: “Se des­de o come­ço eu tives­se esco­lhi­do o óleo! Mas não, esco­lhi nan­quim!” E me mos­trou a pal­ma da sua mão. “Você vê esse pon­to pre­to aqui, bem no meio da minha linha da vida? Quando eu era meni­no uma pena me fin­cou aqui e com o nan­quim tatu­ou para sem­pre o meu des­ti­no!” Eu esta­va em êxta­se. Steinberg me fazen­do con­fi­dên­ci­as!

Estávamos sen­ta­dos mui­to pró­xi­mos. Eu con­se­guia ouvir a sua res­pi­ra­ção, enquan­to ele ris­ca­va, pági­na após pági­na, o meu ros­to em seu cader­no. Comecei a ficar afli­ta. De repen­te me levan­tei, pedi des­cul­pas e fui embo­ra. Não olhei para trás. Nunca mais vi meu cabe­lo lilás. Não sei quan­tos e quais dese­nhos foram fei­tos naque­le cader­no de capa pre­ta.

Não sei expli­car o que se pas­sou na minha cabe­ça nos minu­tos finais em que esti­ve sen­ta­da na mesa de jan­tar de Saul Steinberg, ver­da­dei­ro mito de uma gera­ção de artis­tas e car­tu­nis­tas do Brasil dos anos 60 e 70. Até ali ele havia sido a refe­rên­cia de tudo o que era mais inte­res­san­te, pre­ci­so, pro­fun­do, sagaz que havia nes­se mun­do. Em pou­cas horas, con­tan­do casos, recla­man­do da vida, res­pi­ran­do sono­ra­men­te, Steinberg tor­na­ra-se dema­si­a­do huma­no para mim. E era insu­por­tá­vel.

Eu mes­ma girei a maça­ne­ta da por­ta e a abri. Ele não se levan­tou, nem mes­mo ques­ti­o­nou minha saí­da abrup­ta. Saí, bati a por­ta e nun­ca mais o vi.

Poucos meses atrás, meu mari­do encon­trou a Roberta, cura­do­ra da expo­si­ção sobre Steinberg, e ela lhe dis­se que encon­tra­ra meu nome num cader­no de tele­fo­ne do dese­nhis­ta. Por um momen­to achei que ela tinha vis­to meu nome ao lado do dese­nho de uma moça de lon­gos cabe­los num cader­ni­nho de sket­ches. Pena. Tenho espe­ran­ça de um dia ain­da ver a “egíp­cia de cabe­lo roxo”.

p.s.. A visi­ta a Steinberg acon­te­ceu em algum momen­to do ano de 1984

* Na home do blog, a ima­gem que ilus­tra este post: Saul Steinberg 

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