A escritora que podia ter sido

Literatura

03.12.15

Considero-me além de qual­quer expec­ta­ti­va”, cos­tu­ma­va dizer Maura Lopes Cançado. A ree­di­ção de seus dois úni­cos livros – os diá­ri­os de Hospício é Deus (1965) e a cole­tâ­nea de con­tos O sofre­dor do ver (1968), que esta­vam fora de catá­lo­go há déca­das – abre a dis­cus­são sobre até que pon­to a escri­to­ra e seus admi­ra­do­res tinham razão em exis­tir (e insis­tir) na ausên­cia de rea­li­da­de.

A autora e sua primeira obra

As duas obras foram bem rece­bi­das na épo­ca do lan­ça­men­to. Maura Lopes Cançado, que se dizia “a mai­or escri­to­ra da lín­gua por­tu­gue­sa” e des­fru­ta­va o pres­tí­gio de seus pares no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, viveu seu gran­de momen­to de expo­si­ção. O auge de uma pro­mes­sa. No entan­to, quan­do ela mor­reu, em dezem­bro de 1993, pou­co mais de uma dúzia de pes­so­as com­pa­re­ceu ao enter­ro. Os livros pas­sa­ram anos esque­ci­dos, até que o cul­to ao redor da escri­to­ra reco­me­çou a se erguer, sobre­tu­do nas uni­ver­si­da­des, que fize­ram de Maura uma pon­te de estu­dos sobre “as escri­tas de si”. Algumas de suas fra­ses, as mais poé­ti­cas e sel­va­gens – “Chego à con­clu­são de que o mal é uma dimen­são da minha natu­re­za”, “Sou um anjo com voca­ção para demô­nio”, “Existo des­me­su­ra­da­men­te, como jane­la aber­ta para o sol” –, pipo­ca­ram em sites lite­rá­ri­os e redes soci­ais. Os dois volu­mes que assi­na­ra podi­am ser comer­ci­a­li­za­dos a pre­ços astronô­mi­cos nos sebos vir­tu­ais: R$ 450,00 um exem­plar da pri­mei­ra edi­ção de Hospício é Deus pela José Alvaro Editor (mas o fre­te é grá­tis). Além de aca­bar com essa far­ra, a recen­te e bela cai­xa da edi­to­ra Autêntica (ao pre­ço de R$ 74,00) é óti­ma opor­tu­ni­da­de para se pôr alguns pin­gos nos is.

Hospício é Deus e O sofre­dor do ver estão for­te­men­te mar­ca­dos pela expe­ri­ên­cia da escri­to­ra como paci­en­te de hos­pí­ci­os de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Mais: é qua­se impos­sí­vel dis­so­ci­ar a obra da vida da auto­ra.

Era uma mulher mui­to boni­ta. Nasceu em 27 de janei­ro de 1929, na cida­de minei­ra de São Gonçalo do Abaeté. De saú­de frá­gil, a mãe, Dona Santa, fez a pro­mes­sa de, até os sete anos, só ves­tir a meni­na de azul e bran­co, cores de Nossa Senhora. Maura mor­ria de inve­ja do cha­péu ver­me­lho da irmã mais nova, Selva. Dizia às ami­gui­nhas que era filha de rus­sos e que um seu tio nas­ce­ra na China. Aos 14 anos quis estu­dar ale­mão para ser espiã nazis­ta. O pai, um rico fazen­dei­ro dos tem­pos da lei do revól­ver e dos jagun­ços rose­a­nos, não per­mi­tia que se lhe cor­tas­sem os cabe­lo. Era a filha pre­di­le­ta e mima­da.

A escri­to­ra des­cre­veu a infân­cia como “supe­ran­gus­ti­a­da”: tinha pesa­de­los, medo pâni­co de mor­rer, ata­ques de epi­lep­sia, e, segun­do rela­tou no Hospício é Deus, foi abu­sa­da sexu­al­men­te três vezes por empre­ga­dos da famí­lia. Casou jovem e vir­gem, logo engra­vi­dou e deu ao bebê o nome de Cesarion, o mes­mo do filho de Cleópatra e Júlio César.  Mais tar­de Maura admi­tiu que, duran­te o cur­to tem­po de matrimô­nio, pen­sa­va sexu­al­men­te em outro homem, o coro­nel Praxedes, seu sogro, “mara­vi­lho­so, alto, impo­nen­te e impor­tan­te”.

Em abril de 1949 entrou por von­ta­de pró­pria na Casa de Saúde Santa Maria, em Belo Horizonte – a pri­mei­ra de uma série de inter­na­ções ao lon­go da vida. Separada do mari­do, leva­va vida boê­mia (“era baca­na ter aman­te”), fre­quen­ta­va a noi­te e bebia bas­tan­te, tor­ran­do o dinhei­ro que ganha­ra de heran­ça. Resolveu morar no Rio, e, antes do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, parou nas pági­nas de polí­cia, devi­do a bri­gas com um empre­sá­rio que a sus­ten­ta­va. Tentou o sui­cí­dio em 1955. Três anos depois já fazia par­te do time do “SDJB”, o cader­no cul­tu­ral de mai­or influên­cia na épo­ca, tra­ba­lhan­do ao lado de Reynaldo Jardim, Mário Faustino, Ferreira Gullar, Assis Brasil, Carlos Heitor Cony, José Carlos Oliveira. Seu con­to “No Quadrado de Joana”, sobre uma paci­en­te catatô­ni­ca, saiu na capa do suple­men­to – e fez furor.

Hospício é Deus (um títu­lo espe­ta­cu­lar, con­ve­nha­mos) é o rela­to sobre uma de suas inter­na­ções no Hospital Gustavo Riedel, no Engenho de Dentro, entre o fim de 1959 e o come­ço de 1960. Exercício tera­pêu­ti­co, a pri­mei­ra seção é um rápi­do apa­nha­do bio­grá­fi­co, da infân­cia em Minas até a che­ga­da ao Rio. Em segui­da, assu­me a for­ma de diá­ri­os, com entra­das mar­ca­das por datas, nas quais a auto­ra mos­tra habi­li­da­de para nar­rar, cos­tu­ran­do as malu­qui­ces do sana­tó­rio e as denún­ci­as de abu­so, com um pode­ro­so “acer­vo exis­ten­ci­al”, para usar a expres­são do crí­ti­co Assis Brasil.

Gênero da inti­mi­da­de lite­rá­ria – pou­co pra­ti­ca­do no Brasil, com raras exce­ções – escre­ve-se um diá­rio para dar tes­te­mu­nho de uma épo­ca, para con­fes­sar o incon­fes­sá­vel, para cali­brar a voca­ção de escri­tor, para expe­ri­men­tar ousa­di­as, para reco­brar a saú­de ou para con­ju­rar fan­tas­mas (as duas últi­mas prá­ti­cas são as de Maura). Por mais que pare­ça fic­ção – e mui­tos for­çam a bar­ra para que seja –, o que lemos em Hospício é Deus se inse­re na tra­di­ção de tra­tar trans­tor­nos men­tais com a escri­ta. Um rela­to clí­ni­co de gran­de for­ça, mas rela­to clí­ni­co. Nesse aspec­to, o livro se asse­me­lha aos de Rodrigo de Souza Leão, mor­to em 2009, autor de Me rou­ba­ram uns dias con­ta­dos.

Também se escre­ve um diá­rio ínti­mo – pen­se em Kafka, Musil, Pavese, Barthes e no con­tem­po­râ­neo Ricardo Piglia – para ensai­ar esque­mas e pro­ble­mas lite­rá­ri­os, refle­xões, teses crí­ti­cas ou filo­só­fi­cas, dia­gra­mas, cita­ções, fofo­cas, todo o labo­ra­tó­rio de um escri­tor. Maura ape­nas epi­gra­fa Sartre, Nietzsche, Faulkner e cita algu­mas lei­tu­ras, entre as quais Joyce e Proust (con­fes­sa que não con­se­gue lê-lo). De pas­sa­gem, refe­re-se a Clarice Lispector, com quem vol­ta e meia é com­pa­ra­da pelo cará­ter intros­pec­ti­vo da pro­sa.   

Por fim, a auto­ra nega o gêne­ro a que se dedi­ca: “Não é, abso­lu­ta­men­te, um diá­rio ínti­mo. Mas tão ape­nas o diá­rio de uma hos­pi­ci­a­da, sem sen­tir-se com direi­to a escre­ver as enor­mi­da­des que pen­sa, suas bele­zas, suas ver­da­des. Seria ver­da­dei­ra­men­te escan­da­lo­so meu diá­rio ínti­mo”.

A cole­tâ­nea de con­tos O sofre­dor do ver evi­den­cia a Maura escri­to­ra ain­da em for­ma­ção. (Não à toa, ela pro­cu­rou Carlos Heitor Cony para que ele lhe ensi­nas­se a escre­ver um roman­ce. Cony fugiu da raia mas, ao menos, lhe deu de pre­sen­te uma Olivetti 22 por­tá­til.)  A segun­da par­te do livro, sobre­tu­do os con­tos “São Gonçalo do Abaeté”, “Pavana”, “A meni­na que via o ven­to” e aque­le que dá títu­lo à cole­tâ­nea, evi­ta a expe­ri­ên­cia nos hos­pí­ci­os e se apro­xi­ma da ver­da­dei­ra fic­ção. “O sofre­dor do ver” é a escri­to­ra que podia ter sido e não foi.

O roman­ce que pre­ten­dia fazer não saiu. Ligou-se em zen-budis­mo, caba­la, alqui­mia, dou­tri­nas secre­tas e para­nor­mais. Foi morar no Solar da Fossa e namo­rou o com­po­si­tor Luís Reis, o Cabeleira, par­cei­ro de Haroldo Barbosa no sam­ba “Devagar com a lou­ça”. Enquanto isso, os sur­tos psi­có­ti­cos pros­se­gui­am de manei­ra cada vez mais peri­go­sa. As inter­na­ções, com direi­to a ele­tro­cho­ques e reclu­são em quar­tos-for­tes, cami­nha­vam na mes­ma bati­da. Sua defi­ni­ção de hos­pí­cio era “uma cida­de tris­te de uni­for­mes azuis e jale­cos bran­cos”, por coin­ci­dên­cia as cores com que a ves­ti­am na infân­cia.

Em 1972 Maura matou por estran­gu­la­men­to uma paci­en­te da Clínica de Saúde Doutor Eiras, em Botafogo. Diante do exa­me de sani­da­de, a Justiça a con­si­de­rou inim­pu­tá­vel. Numa maté­ria de O Globo, de 1978, a repór­ter Margarida Autran a encon­trou irre­gu­lar­men­te deti­da no Hospital Penal da Penitenciária Lemos de Brito, viven­do num cubí­cu­lo imun­do e infes­ta­do de per­ce­ve­jos. Estava qua­se cega, des­nu­tri­da, os den­tes exi­gin­do cui­da­dos: “Estou ten­sa como as cor­das de um vio­li­no. Se rela­xar, eu mor­ro”.

Maura Lopes Cançado foi víti­ma – tal­vez uma das pri­mei­ras – do estra­nho ambi­en­te cul­tu­ral em que a lite­ra­tu­ra em si vale menos do que atra­en­tes e inten­sos acon­te­ci­men­tos lite­rá­ri­os. É onde esta­mos hoje: não impor­tam os livros de Karl Ove Knausgard e sim a vida de Karl Ove Knausgard minu­ci­o­sa­men­te con­ta­da.

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