A estrada para a América

No cinema

13.07.12

A crí­ti­ca mais fre­quen­te que tenho ouvi­do a Na estra­da é a de que a ver­são de Walter Salles para o clás­si­co beat de Jack Kerouac é dema­si­a­do cle­an, ele­gan­te e, no limi­te, fria. Talvez seja essa a per­cep­ção dos lei­to­res faná­ti­cos do livro ou daque­les que tive­ram sua vida mar­ca­da por ele. Não é o meu caso.

Nunca mer­gu­lhei de fato na cul­tu­ra beat, nem fui impreg­na­do por ela — e peço licen­ça para usar a pri­mei­ra pes­soa por­que se tra­ta aqui de um livro e de um fil­me cuja apre­en­são tem mui­to a ver com a dimen­são sub­je­ti­va, com as tais vivên­ci­as pes­so­ais. É pre­ci­so lem­brar que os livros de Kerouac, Burroughs, Ginsberg e com­pa­nhia che­ga­ram ao Brasil com pelo menos duas déca­das de atra­so. Refiro-me à tra­du­ção das prin­ci­pais obras, pois pou­cos foram os bra­si­lei­ros que leram os ori­gi­nais na épo­ca (fim dos anos 50). Foi uma onda que já che­gou aqui arre­fe­ci­da, fil­tra­da e, em cer­ta medi­da, res­sig­ni­fi­ca­da pelo que veio de entre­meio, dos anos 60 aos 80.

A América pelas bor­das

Foi por­tan­to des­sa pers­pec­ti­va — a de alguém que con­tem­pla o uni­ver­so beat a uma cer­ta dis­tân­cia — que fui ver Na estra­da. E gos­tei mui­to. Mais do que como um inven­tá­rio de trans­gres­sões — que, ao que pare­ce, era o que mui­tos espe­ra­vam -, rece­bi o fil­me como uma ten­ta­ti­va de pene­trar na América a par­tir das suas bor­das (os negros, os lati­nos, os gays, os lou­cos, os desa­jus­ta­dos de toda ordem). A bus­ca de um outro American way of life, cen­tra­do não na famí­lia tra­di­ci­o­nal, no con­su­mo e no medo do “outro” (seja este o comu­nis­ta, o estran­gei­ro ou o extra­ter­res­tre), mas sim no movi­men­to con­tí­nuo, na des­co­ber­ta de novas for­mas de per­cep­ção, na cons­tru­ção de novos laços de afe­to.

Desse pon­to de vis­ta, o fil­me tem tudo a ver com a sen­si­bi­li­da­de de Walter Salles, cuja fil­mo­gra­fia, de Central do Brasil a Diários de moto­ci­cle­ta, é mar­ca­da pelo des­lo­ca­men­to e pela bus­ca. Sua pátria é a estra­da, sua figu­ra de esti­lo mais mar­can­te é o tra­vel­ling para a fren­te.

Criticou-se uma supos­ta assep­sia da ima­gem, cer­ta timi­dez ou pudi­cí­cia nas cenas de sexo. Uma ami­ga que­ri­da suge­riu, brin­can­do, que o fil­me deve­ria ter sido fei­to por Cláudio Assis. Aceitando a brin­ca­dei­ra e seguin­do na espe­cu­la­ção, pen­so que uma ver­são de Assis tal­vez ganhas­se inten­si­da­de e calor no lado “podrei­ra” da his­tó­ria. Mas por cer­to have­ria uma per­da em mui­tos outros aspec­tos. Pois a sen­si­bi­li­da­de lite­rá­ria e huma­na de Kerouac não foi for­ma­da ape­nas por Céline, mas tam­bém por Proust, como o fil­me subli­nha visu­al­men­te a todo momen­to. Havia fúria naque­le jor­ro vital, mas tam­bém suti­le­za e refi­na­men­to.

Há que lem­brar ain­da que Na estra­da foi pro­du­zi­do por Francis Coppola, e tal­vez um tan­to do fil­tro cle­an venha daí. Deu-se algo aná­lo­go, com resul­ta­dos menos satis­fa­tó­ri­os, quan­do ele pro­du­ziu o pri­mei­ro fil­me ame­ri­ca­no de Wim Wenders, Hammett: o uni­ver­so duro e sujo do escri­tor noir ganhou uma aura cool, manei­ris­ta, a um pas­so da esté­ti­ca publi­ci­tá­ria. O trai­ler de Hammett não me dei­xa men­tir:

Em comum entre os dois fil­mes, a cons­ci­ên­cia de que se está lidan­do com uma rea­li­da­de “em segun­do grau”, medi­a­da por déca­das de lei­tu­ras e inter­pre­ta­ções. São, ambos, retra­tos de mito­lo­gi­as. No caso, de mito­lo­gi­as cen­trais da América moder­na.

Pulsação musi­cal

Walter Salles, a meu ver, dri­bla a con­ten­to o ris­co de res­va­lar para o manei­ris­mo e o exces­so de este­ti­za­ção. Prova dis­so são as mag­ní­fi­cas cenas musi­cais. Servindo-se de sua expe­ri­ên­cia como docu­men­ta­ris­ta, o dire­tor con­fe­re às apre­sen­ta­ções de jazz e blu­es um calor e uma pul­sa­ção que me pare­cem mais inten­sos e menos arti­fi­ci­ais do que os do belo Cotton Club, do pró­prio Coppola. A sequên­cia de Salt pea­nuts, o clás­si­co bebop de Dizzy Gillespie, é espe­ci­al­men­te con­ta­gi­an­te. Para o lei­tor que gos­ta de jazz, aqui vai, de brin­de, uma apre­sen­ta­ção da músi­ca por seu autor, em 1947:

http://www.youtube.com/watch?v=kOmA8LOw258

Não dei­xa de ser sig­ni­fi­ca­ti­vo, aliás, que o últi­mo encon­tro, no fil­me, de Sal Paradise (Sam Riley) com Dean Moriarty (Neal Cassady) acon­te­ça quan­do o pri­mei­ro, ele­gan­te­men­te ves­ti­do, pre­pa­ra-se para ir a um show de Duke Ellington. Momentaneamente abur­gue­sa­do, Paradise tro­cou os infer­ni­nhos esfu­ma­ça­dos pelas salas de con­cer­to, e as dis­so­nân­ci­as trans­gres­si­vas do bebop de Charlie Parker pelo som mais clás­si­co de uma big band da era do swing. Sutilezas, enfim.

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