A estratégia do eclipse

No cinema

11.04.14

Não foi por aca­so que Hoje eu que­ro vol­tar sozi­nho ganhou dois prê­mi­os no Panorama do Festival de Berlim (o da crí­ti­ca inter­na­ci­o­nal e o Teddy, para fil­mes com temá­ti­ca LGBT). Não é por aca­so, tam­pou­co, que tem rece­bi­do elo­gi­os por onde pas­sa.

Por trás da apa­ren­te sin­ge­le­za de seu entre­cho — as rela­ções de amor e ami­za­de entre uma garo­ta e dois rapa­zes de um colé­gio de clas­se média -, o lon­ga de estreia de Daniel Ribeiro enfei­xa uma por­ção de temas recor­ren­tes no cine­ma de nos­so tem­po: a des­co­ber­ta da sexu­a­li­da­de e a defi­ni­ção da sua ori­en­ta­ção, o bullying con­tra o dife­ren­te, a cri­a­ção de novos laços afe­ti­vos e novas famí­li­as.

Por um lado, o do ques­ti­o­na­men­to da padro­ni­za­ção hete­ros­se­xu­al da soci­e­da­de, Hoje eu que­ro vol­tar sozi­nho “con­ver­sa” com fil­mes recen­tes como o per­nam­bu­ca­no Tatuagem, o fran­cês Azul é a cor mais quen­te e o vene­zu­e­la­no Pelo malo (que entra em car­taz por aqui na pró­xi­ma sema­na), por mais que se tra­te de obras intei­ra­men­te dís­pa­res.

Por outro lado, inse­re-se na ver­ten­te dos “fil­mes de ado­les­cên­cia” que tem uma matriz nor­te-ame­ri­ca­na mui­to for­te e que no Brasil gerou recen­te­men­te lon­gas como As melho­res coi­sas do mun­do, de Laís Bodanzky, e Antes que o mun­do aca­be, de Ana Luiza Azevedo.

Tateando pelo mun­do

O pri­mei­ro méri­to do fil­me de Daniel Ribeiro (que é um des­do­bra­men­to de seu cur­ta Hoje eu não que­ro vol­tar sozi­nho) é con­du­zir com leve­za e fres­cor esse com­ple­xo de ques­tões e refe­rên­ci­as, fazen­do sua nar­ra­ti­va girar em tor­no do per­so­na­gem sin­gu­lar Leonardo (Guilherme Lobo), um ado­les­cen­te cego super­pro­te­gi­do pelos pais (Eucir de Souza e Lúcia Romano).

Entre a ami­za­de de outra enjei­ta­da, Giovana (Tess Amorim), e a cres­cen­te atra­ção por um novo ami­go, Gabriel (Fabio Audi), entre o dese­jo de ser acei­to pelos cole­gas e o impul­so de fugir para um inter­câm­bio no exte­ri­or, Leonardo sai tate­an­do pelo mun­do, coli­din­do com suas qui­nas, tro­pe­çan­do em seus bura­cos e degraus — mais ou menos como cada um de nós, só que aqui con­den­sa­do qua­se numa metá­fo­ra de soli­dão e desam­pa­ro, mas tam­bém de ino­cên­cia não cons­pur­ca­da, de potên­cia ple­na de amor.

Ver e ser vis­to

A cir­cuns­tân­cia de ter um pro­ta­go­nis­ta cego — do qual a nar­ra­ti­va qua­se nun­ca se afas­ta — per­mi­te ao jovem dire­tor jogar com a dia­lé­ti­ca essen­ci­al do cine­ma entre o que é vis­to e o que está fora do qua­dro ou obs­truí­do, como sin­te­ti­za lin­da­men­te a cena do eclip­se. Obriga-o a tro­car o usu­al campo/contracampo (pois o “cam­po” da visão de Leonardo ine­xis­te) por outras solu­ções visu­ais, como um recur­so cons­tan­te e efe­ti­vo à câme­ra alta, pre­sen­te des­de a pri­mei­ra ima­gem, e pelo uso sutil dos ruí­dos e da músi­ca.

A sen­sa­ção de vul­ne­ra­bi­li­da­de trans­mi­ti­da pelo per­so­na­gem é acen­tu­a­da pelo fato de saber­mos que ele é vis­to sem ver, como se esti­ves­se nu em um ambi­en­te em que todos estão ves­ti­dos.

Em algu­mas pas­sa­gens o espec­ta­dor é fei­to “cúm­pli­ce” dos que veem sem ser vis­tos (por exem­plo, na fes­ta, com seu cor­te­jo de cru­el­da­des); em outras, com­par­ti­lha com Leonardo a con­di­ção de “ouvin­te ima­gi­na­ti­vo”, como na cena em que Gabriel e a fogo­sa Karina (Isabela Guasco) o con­vi­dam para entrar na pis­ci­na, à noi­te, no acam­pa­men­to. O casal fica no fun­do do qua­dro, na penum­bra e fora de foco, enquan­to nós, assim como Leonardo, ima­gi­na­mos o que se pas­sa a par­tir dos ruí­dos, das risa­das e fra­ses sol­tas dos dois.

Entre as inú­me­ras vir­tu­des do fil­me, uma das mais evi­den­tes é a extra­or­di­ná­ria atu­a­ção de Guilherme Lobo no papel do pro­ta­go­nis­ta cego. Mas todo o elen­co de três gera­ções está exce­len­te.

Chama a aten­ção tam­bém o fato de ser uma obra extre­ma­men­te pau­lis­ta­na (na pro­só­dia dos per­so­na­gens, nas ladei­ras arbo­ri­za­das de um bair­ro de clas­se média, pro­va­vel­men­te da zona oes­te, e até na pre­sen­ça de Selma Egrei, musa dos fil­mes de Walter Hugo Khouri) e ao mes­mo tem­po uni­ver­sal ao extre­mo, sin­to­ni­za­da com as pre­o­cu­pa­ções e inte­res­ses da juven­tu­de mun­do afo­ra.

Diluição de con­fli­tos

Tenho para mim que seria um fil­me ain­da melhor se não fos­se tão “bon­zi­nho”, se as ares­tas não fos­sem apa­ra­das com tan­ta faci­li­da­de, se os con­fli­tos não ten­des­sem tão pron­ta­men­te à con­ci­li­a­ção. É uma fra­gi­li­da­de seme­lhan­te à encon­tra­da em As melho­res coi­sas do mun­do: no fun­do todo mun­do é bom e tudo se ajei­ta — na penúl­ti­ma sequên­cia esbo­ça-se até um novo amor para a soli­tá­ria Giovana.

Talvez essa dilui­ção de ten­sões seja vis­ta como o pre­ço neces­sá­rio a pagar para que os espec­ta­do­res sai­am do cine­ma com um sor­ri­so nos lábi­os. Penso, ao con­trá­rio, que man­ter vivas as ten­sões, ares­tas e con­fli­tos inten­si­fi­ca­ria a for­ça da lin­da cena final, que obvi­a­men­te não vou con­tar aqui.

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