A família monstro de Pablo Trapero

No cinema

11.12.15

Há quem diga que, depois reve­lar um talen­to vigo­ro­so e ori­gi­nal em fil­mes como Mundo gruaEl bona­e­ren­se Nascido e cri­a­do, o argen­ti­no Pablo Trapero enve­re­dou por um cer­to sen­sa­ci­o­na­lis­mo, explo­ran­do temas de impac­to capa­zes de agra­dar o cir­cui­to inter­na­ci­o­nal dos fes­ti­vais de cine­ma: as mães pre­si­diá­ri­as em Leonera, os acha­ca­do­res de víti­mas de aci­den­tes em Abutres, as vio­len­tas fave­las por­te­nhas em Elefante bran­co etc.

Cena do filme O clã

O clã, que ganhou o prê­mio de dire­ção este ano em Veneza, tal­vez sir­va para refor­çar essa tese. Mas há outras manei­ras de enca­rar a tra­je­tó­ria de Trapero. Uma delas seria a de ver sua fil­mo­gra­fia como um work in pro­gress sobre a vio­lên­cia que per­meia as vári­as cama­das e ins­tân­ci­as da soci­e­da­de argen­ti­na. O méto­do de abor­da­gem é, em todos os casos, um cer­to rea­lis­mo bru­tal.

Em O clã, base­a­do numa esca­bro­sa his­tó­ria real, arti­cu­lam-se três esfe­ras: a famí­lia, o Estado e o cri­me. No perío­do con­fu­so que se seguiu à res­tau­ra­ção da demo­cra­cia na Argentina em 1983, Arquímedes Puccio (o exce­len­te Guillermo Francella), ex-mem­bro dos ser­vi­ços de repres­são da dita­du­ra mili­tar, usa o know-how adqui­ri­do na “guer­ra suja” con­tra os opo­si­to­res para seques­trar fami­li­a­res de ricos empre­sá­ri­os e exi­gir gran­des somas de res­ga­te.

Horror em famí­lia

O que tor­na sin­gu­lar essa situ­a­ção é que as ações de Puccio con­tam com a par­ti­ci­pa­ção dos filhos – em espe­ci­al de Alex (Peter Lanzani), astro naci­o­nal do rúg­bi – e que o cati­vei­ro dos seques­tra­dos é no sótão da pró­pria casa da famí­lia, o que leva a uma sobre­po­si­ção incô­mo­da entre a vio­lên­cia mais abje­ta e um coti­di­a­no domés­ti­co tri­vi­al.

Trapero, com seu bru­ta­lis­mo habi­tu­al, enfa­ti­za esse con­tras­te até as rai­as do humor negro. O recur­so ao rock dos Kinks, do Creedence Clearwater Revival e da ban­da argen­ti­na Vírus como tri­lha sono­ra dos seques­tros faz lem­brar um pro­ce­di­men­to seme­lhan­te de Martin Scorsese em Os bons com­pa­nhei­ros. Mas a com­pa­ra­ção tal­vez não seja apro­pri­a­da: no fil­me de Scorsese a músi­ca de Eric Clapton e dos Rolling Stones subli­nha uma espi­ral cres­cen­te de lou­cu­ra e sel­va­ge­ria. Em O clã o rock pare­ce entrar de modo meio arti­fi­ci­al, sem inte­gra­ção orgâ­ni­ca com a atmos­fe­ra emo­ci­o­nal das cenas.

Isso não anu­la a efi­cá­cia e a con­tun­dên­cia do rela­to. Manipulando habil­men­te o rit­mo e as elip­ses, inter­pon­do ima­gens docu­men­tais (noti­ciá­rio tele­vi­si­vo, dis­cur­sos do gene­ral Galtieri e de Raúl Alfonsín) às cenas fic­ci­o­nais, emba­ra­lhan­do os tem­pos nar­ra­ti­vos, Trapero nos dá um fil­me envol­ven­te, ele­tri­zan­te. À figu­ra sinis­tra, impas­sí­vel e mono­lí­ti­ca do patri­ar­ca Arquímedes, con­tra­põe o impul­si­vo, volá­til, impre­vi­sí­vel Alex. É entre esses dois polos que se desen­vol­ve o movi­men­to pen­du­lar do dra­ma.

Mostrar ou não mos­trar

Para o bem ou para o mal, o cine­ma de Trapero é extre­ma­men­te sen­so­ri­al, con­cre­to, físi­co. A cena mais espe­ta­cu­lar do fil­me – uma ines­pe­ra­da e radi­cal ten­ta­ti­va de sui­cí­dio, fil­ma­da numa ina­cre­di­tá­vel toma­da sem cor­tes apa­ren­tes – sus­ci­ta um ques­ti­o­na­men­to que se pode esten­der a todo o cine­ma de Trapero. É neces­sá­rio mos­trar tudo? É con­ve­ni­en­te mos­trar tudo? O que se ganha e o que se per­de com isso?

O cine­as­ta argen­ti­no, a par de uma ener­gia e uma com­pe­tên­cia ine­gá­veis, tal­vez peque pelo que o crí­ti­co Inácio Araujo, refe­rin­do-se anos atrás a uma cer­ta ten­dên­cia do cine­ma con­tem­po­râ­neo, defi­niu como “hiper­tro­fia expo­si­ti­va”, que teria como con­tra­pon­to uma “atro­fia sim­bó­li­ca”. Se tudo se mos­tra, o que res­ta para a ima­gi­na­ção, para a inte­li­gên­cia, para a par­ti­ci­pa­ção ati­va do espec­ta­dor?

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