A figura caleidoscópica de Alexandre Eulalio

Literatura

21.06.12

 

Talvez pudés­se­mos defi­nir Alexandre Eulalio com as pala­vras com que ele des­cre­veu Jorge Luis Borges: “ecu­mê­ni­co, eru­di­tís­si­mo, into­xi­ca­do por uma cul­tu­ra vivi­da até a exaus­tão”. Era um escri­tor e crí­ti­co for­ma­do nos parâ­me­tros de uma outra épo­ca, quan­do o exer­cí­cio da liber­da­de era pos­sí­vel no tra­ba­lho aca­dê­mi­co. Dificilmente pode­ría­mos hoje defi­nir um livro nos­so, como ele defi­niu seu belo livro sobre Blaise Cendrars, repu­bli­ca­do de for­ma notá­vel pelo Carlos Augusto Calil: repor­ta­gem, crô­ni­ca, ensaio, álbum, sele­ta, regis­to de gra­va­ções, livro de figu­ras, rotei­ro de fil­me, docu­men­tá­rio…

Outra coi­sa hoje impos­sí­vel seria não publi­car. Alexandre não publi­ca­va, não fazia ques­tão dis­so. (Um dos volu­mes orga­ni­za­dos por Carlos Augusto Calil e Maria Eugênia Boaventura se inti­tu­la sig­ni­fi­ca­ti­va­men­te O livro invo­lun­tá­rio). Nem mes­mo publi­cou o extra­or­di­ná­rio e pre­mi­a­do ensaio sobre o ensaio lite­rá­rio no Brasil. O pseudô­ni­mo esco­lhi­do por ele quan­do con­cor­reu ao prê­mio foi capan­guei­ro, esse homem que ia per­cor­ren­do as lavras, em bus­ca do melhor dia­man­te ou pepi­ta de ouro, para guar­dar em sua bol­sa, a capan­ga. É inte­res­san­te lem­brar que Augusto Monterroso, o geni­al gua­te­mal­te­co, inti­tu­lou sua auto­bi­o­gra­fia de Los bus­ca­do­res de oro. Ele e Alexandre sabi­am do que esta­vam falan­do. (Estou aqui seguin­do a obses­são rela­ci­o­nal de nos­so ami­go. O pro­ble­ma é que na bus­ca do ouro vem o cas­ca­lho que tal­vez seja pre­ci­so atra­ves­sar, ava­li­ar, pesar. Pode ser que des­sa com­pre­en­são adve­nha o des­ve­lo ana­lí­ti­co de Alexandre por obras meno­res, a que pode­mos acres­cen­tar a lição apren­di­da com Brito Broca.)

Ao mes­mo tem­po, nos­so crí­ti­co é capaz de pai­néis ilu­mi­na­do­res como encon­tra­mos no pri­mei­ro ensaio, “O sécu­lo XIX: tra­di­ção e rup­tu­ra”. Síntese de arte e cul­tu­ra bra­si­lei­ra (1816–1910), em que ele exa­mi­na de per­to e ava­lia as trans­for­ma­ções no Brasil, prin­ci­pal­men­te na esfe­ra do apren­di­za­do das artes plás­ti­cas, com a vin­da da cor­te por­tu­gue­sa. “As pecu­li­a­ri­da­des his­tó­ri­cas e soci­ais do país, extre­ma­men­te com­ple­xas” — diz ele — “nes­ses 100 anos de tran­si­ção ace­le­ra­da (…). Região peri­fé­ri­ca dos cen­tros emis­so­res de padrões esté­ti­cos, ime­mo­ri­al­men­te sus­ten­ta­da pelo regi­me escra­vis­ta, em bre­ves anos pas­sa o Brasil de mero empó­rio colo­ni­al a sede pro­vi­só­rio de um defa­sa­do impé­rio mer­can­ti­lis­ta”.

Compreendendo Alexandre Eulalio aten­to à lição dos moder­nis­tas, Mário e Oswald, Calil suge­re tam­bém que ao afir­mar que era pre­ci­so olhar a pin­tu­ra ruim, Alexandre esbo­ça um ges­to para­le­lo ao de Paulo Emílio, que man­da­va os alu­nos aos cine­mas da Boca do Lixo para uma com­pre­en­são do Brasil, dis­tan­te de uma crí­ti­ca bem pen­san­te e supos­ta­men­te aris­to­crá­ti­ca com­pon­do o que ele cha­ma­va de “aris­to­cra­cia do nada” (Cinema: tra­je­tó­ria do sub­de­sen­vol­vi­men­to).

Enfim, acho que todos nós reu­ni­dos aqui con­cor­da­mos que a publi­ca­ção de um novo livro de Alexandre seja um acon­te­ci­men­to. Porque todos os ensai­os pare­cem iné­di­tos, pois qua­se sem­pre são iné­di­tos em livros. Mas jun­tos, segun­do o agru­pa­men­to, eles se ilu­mi­nam mutu­a­men­te, ganham tona­li­da­des outras.

É o que acon­te­ce com este Tempo reen­con­tra­do: os três ensai­os cen­trais for­mam um eixo que dão o tom e movi­men­tam coe­ren­te­men­te os outros sete. Calil expli­ca na intro­du­ção (“Conversa com o pas­sa­do”) que esse núcleo “repre­sen­ta o pon­to de infle­xão de uma tra­je­tó­ria inte­lec­tu­al que, par­tin­do da ver­ten­te lite­rá­ria, logo mani­fes­tou voca­ção pela aber­tu­ra às outras artes- pin­tu­ra, arqui­te­tu­ra, músi­ca, tea­tro, cine­ma — e, sobre­tu­do, pela repre­sen­ta­ção visu­al em con­tex­to, situ­a­da num deter­mi­na­do tem­po his­tó­ri­co”. Nesse tex­to, toda a linha do per­cur­so de Alexandre Eulalio é per­cor­ri­da: a com­bi­na­tó­ria ana­lí­ti­ca de aná­li­se esti­lís­ti­ca, mor­fo­lo­gia do tex­to escri­to ou visu­al, a refe­rên­cia his­tó­ri­ca, a obses­são rela­ci­o­nal, a eru­di­ção ico­no­grá­fi­ca.

Convido tam­bém os pre­sen­tes a lerem aten­ta­men­te as pala­vras de Antonio Candido na ore­lha do volu­me, pois são mui­to escla­re­ce­do­ras. Ele inter­pre­ta com finu­ra a inser­ção da ati­vi­da­de inte­lec­tu­al de Alexandre Eulalio em sua obses­são pelo Brasil e o arro­jo de com­bi­nar o rigor com a fan­ta­sia. Basta recor­dar a tra­ma teci­da com a mai­or ousa­dia e talen­to entre o livro de Machado (Esaú e Jacó), cujos per­so­na­gens vão ao bai­le da Ilha Fiscal, e a lei­tu­ra de Alexandre supon­do — acho que com toda a pro­ba­bi­li­da­de — que Aurélio de Figueiredo, pin­tor mas tam­bém poe­ta e fic­ci­o­nis­ta, tenha lido o livro, dese­jan­do “con­so­li­dar os nexos nar­ra­ti­vos e o com­ple­xo enca­de­ar da ação atra­vés dos espa­ços pic­tó­ri­cos que dispôs e defi­niu na ordem ide­al que o espec­ta­dor deve­ria seguir”.

Candido tam­bém obser­va o des­ve­lo ana­lí­ti­co de Alexandre por obras de valor desi­gual. O que é sur­pre­en­den­te é que tal nive­la­men­to seja tam­bém reve­la­dor. E cita Saintsbury, crí­ti­co do sécu­lo XIX: “Há escri­to­res meno­res que nos dão, com mai­or segu­ran­ça do que os gran­des, a cha­ve de uma lite­ra­tu­ra”.

Mas o que ver­da­dei­ra­men­te acho é que, melhor que nin­guém, Alexandre Eulalio cum­pre o con­vi­te que Antonio Candido nos fez no pre­fá­cio da Formação da lite­ra­tu­ra bra­si­lei­ra. Comentando o aca­nha­men­to de nos­sa lite­ra­tu­ra na épo­ca, mes­mo assim nos ani­ma a lê-la; e cita Guerra e paz, no momen­to em que Tolstoi fala nos ombros e bra­ços de Helena, sobre os quais se esten­dia o poli­men­to que havi­am dei­xa­do milha­res de olhos fas­ci­na­dos por sua bele­za. E fina­li­za — pode­ria ser o Alexandre — afir­man­do que a lei­tu­ra pro­duz efei­to pare­ci­do em rela­ção às obras que ani­ma.

Desejo ter­mi­nar essas pala­vras com um tre­cho do Zuca Sardan, em “Alexandre Eulalio, ou, o Coelho Branco” . Vocês pode­rão lê-lo intei­ro — vale a pena — em Novos Estudos Cebrap nº 42: “Alexandre era um bizan­ti­no em Veneza. Uma fines­se mais rara, uma inte­li­gên­cia mais labi­rín­ti­ca que a do pró­prio Doge. E de uma tão dis­far­ça­da modés­tia, que era esta invi­sí­vel (…). Tinha um pou­co do Borges dis­far­ça­do no Coelho Branco de Alice, e um pou­co do Coelho Branco dis­far­ça­do em Jorge Luis Borges. E tinha mui­to do Borges. E mui­to mais do Coelho Branco. E mui­to do Alexandre dis­far­ça­do no pró­prio Alexandre. (…) Mas não con­se­guia enga­nar os ami­gos. Ou, pelo menos, nem todos. Tanto que dei­xou uma legião de ami­gos. Mas todos mui­to sele­ci­o­na­dos, uma espé­cie de tro­pa de Brancaleone de poe­tas, rei­to­res, con­des­sas ita­li­a­nas, inte­lec­tu­ais em segun­do grau, alqui­mis­tas em quin­ta essên­cia, livrei­ros, pro­fes­so­res… Alexandre era — e é — uma figu­ra calei­dos­có­pi­ca”.

* Vilma Arêas é pro­fes­so­ra de lite­ra­tu­ra bra­si­lei­ra na Unicamp. O tex­to aci­ma foi lido duran­te o lan­ça­men­to do livro de ensai­os de Alexandre Eulalio, Tempo reen­con­tra­do, orga­ni­za­do por Carlos Augusto Calil.

* Na ima­gem que ilus­tra a o home do post: foto do even­to de lan­ça­men­to de Tempo reen­con­tra­do. Foto que ilus­tra o post: deta­lhe do qua­dro “O últi­mo bai­le da monar­quia”, de Francisco Aurélio de Figueiredo, capa do livro Tempo reen­con­tra­do.

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