A Hollywood de Cronenberg, entre a cartografia e o bestiário

No cinema

10.04.15

Não que­ro mudar para Hollywood, não que­ro que meus filhos cres­çam lá. O sis­te­ma de valo­res em Hollywood é mui­to estra­nho”, decla­rou David Cronenberg numa entre­vis­ta de 1999. Mapas para as estre­las, de cer­to modo, é a demons­tra­ção cabal des­sa decla­ra­ção.

Cronenberg, como se sabe, sem­pre se inte­res­sou pela ano­ma­lia, pela dis­fun­ção, pela doen­ça, não tan­to “como metá­fo­ra”, mas como fato essen­ci­al da vida con­tem­po­râ­nea. Mapas para as estre­las trans­fe­re essa sua pre­o­cu­pa­ção – para não dizer fas­cí­nio – ao cora­ção da indús­tria do cine­ma. A Hollywood que sur­ge nes­se retra­to cru­el é um con­cen­tra­do de dis­túr­bi­os (físi­cos, psí­qui­cos, morais) que inte­ra­gem uns sobre os outros numa espi­ral qua­se apo­ca­líp­ti­ca.

A nar­ra­ti­va entre­la­ça habil­men­te as his­tó­ri­as de per­so­na­gens de vári­as gera­ções, de um mima­do, ego­cên­tri­co e dro­ga­do ator mirim (Evan Bird) a uma atriz de meia-ida­de (Julianne Moore), igual­men­te dro­ga­da, que ain­da espe­ra pela opor­tu­ni­da­de de bri­lhar no “papel da sua vida”. Entre um e outra, um tera­peu­ta de cele­bri­da­des (John Cusack) que mis­tu­ra psi­co­dra­ma, auto­a­ju­da e uma vaga filo­so­fia ori­en­tal, um moto­ris­ta de limu­si­ne (Robert Pattinson) com aspi­ra­ções a ator e rotei­ris­ta e mais uma vari­a­da fau­na de star­lets, agen­tes, tie­tes, assis­ten­tes, tra­fi­can­tes etc.

A crô­ni­ca de Hollywood, des­de os tem­pos do cine­ma mudo, é reple­ta de his­tó­ri­as esca­bro­sas de inces­to, assas­si­na­to, sui­cí­dio, exces­so de álco­ol e dro­gas, esqui­si­ti­ces de toda espé­cie. Alguns des­ses epi­só­di­os reais aca­ba­ram nas telas: o assas­si­na­to do aman­te mafi­o­so de Lana Turner pela filha ado­les­cen­te des­ta foi apro­vei­ta­do por Woody Allen na tra­ma de Setembro, a rela­ção tirâ­ni­ca de Joan Crawford com a filha virou a série Mamãezinha que­ri­da etc.

Reality show per­ma­nen­te

Uma des­sas lava­ções de rou­pa suja foi fei­ta por Carrie Fisher, a prin­ce­sa Leia de Guerra nas estre­las, no livro Postcards from the edge, que nar­ra em for­ma de fic­ção sua des­ci­da ao infer­no das dro­gas e a difí­cil con­vi­vên­cia com a mãe domi­na­do­ra, a atriz Debbie Reynolds. O livro foi trans­for­ma­do por Mike Nichols no fil­me Lembranças de Hollywood, com rotei­ro da pró­pria auto­ra.

Pois bem: em Mapas para as estre­las uma irre­co­nhe­cí­vel Carrie Fisher faz o papel de si mes­ma. É um toque per­tur­ba­dor de Cronenberg, que a todo momen­to mis­tu­ra no fil­me refe­rên­ci­as a per­so­na­gens e his­tó­ri­as reais (de Drew Barrymoore, Robert Downey Jr. etc), bor­ran­do a fron­tei­ra entre fic­ção e crô­ni­ca soci­al, entre noti­cia e fofo­ca. O efei­to geral é o de um imen­so e inces­san­te rea­lity show.

Cena de Mapas para as estrelas

Em alguns aspec­tos (o nar­ci­sis­mo e o cul­to à cele­bri­da­de ele­va­dos a um pata­mar insa­no) o fil­me dia­lo­ga com Bling ring (2013), de Sofia Coppola. Em outros (os delí­ri­os da aspi­ra­ção ao estre­la­to), com Cidade dos sonhos (2001), de David Lynch. Mas há ecos de vári­os fil­mes do pró­prio Cronenberg, como Crash (o ero­tis­mo per­ver­so da defor­ma­ção físi­ca) e Cosmópolis (a inver­são da posi­ção de Pattinson, de con­du­zi­do a con­du­tor de limu­si­ne).

O que impe­de Mapas para as estre­las de ser um mero bes­tiá­rio des­cri­ti­vo, um inven­tá­rio de bizar­ri­ces, é o fato de per­mi­tir que cada per­so­na­gem impor­tan­te se defron­te (lite­ral­men­te) com seus fan­tas­mas pes­so­ais. Sua bús­so­la é uma con­sis­ten­te cons­tru­ção dra­má­ti­ca, que gira em tor­no do tema do inces­to e do jogo entre fogo e água, usan­do como intri­gan­te leit­mo­tiv os ver­sos do poe­ma Liberdade, de Paul Éluard.

O mapa tra­ça­do por essa impla­cá­vel car­to­gra­fia não apon­ta para as estre­las, não con­fi­gu­ra uma cons­te­la­ção, mas um pla­ne­ta que saiu do eixo, que gira em fal­so, que erra no espa­ço sabe-se lá para onde.

Noites bran­cas

Num regis­tro intei­ra­men­te dife­ren­te, mais modes­to, sem dei­xar de ser inte­res­san­te, aca­ba de entrar em car­taz Noites bran­cas no píer, do cine­as­ta cor­so Paul Vecchiali, que trans­fe­re para o sul da França, nos dias de hoje, a tra­ma do con­to Noites bran­cas, de Dostoiévski, que já havia sido leva­do às telas, entre outros, por Luchino Visconti (em 1957) e Robert Bresson (em 1971).

Aqui, o per­so­na­gem mas­cu­li­no, que no con­to é o nar­ra­dor sem nome, cha­ma-se Fédor (Pascal Cervo), em evi­den­te refe­rên­cia ao escri­tor rus­so. Certa noi­te, num píer deser­to, ele encon­tra Natasha (Astrid Adverbe) que lhe fala do homem por quem se apai­xo­nou e que pro­me­teu vol­tar para ela. Ao lon­go de qua­tro noi­tes, Fédor e Natasha se reen­con­tram no mes­mo local, desen­vol­ven­do uma rela­ção ambí­gua, entre a ami­za­de e o amor, cujo desen­la­ce não cabe ante­ci­par aqui, mas que é seme­lhan­te ao do con­to.

Narrativa míni­ma

Vecchiali como que radi­ca­li­za o enre­do já escas­so do con­to, fei­to mais de alu­sões e pos­si­bi­li­da­des do que de even­tos con­cre­tos, e cons­trói uma nar­ra­ti­va des­po­ja­da, con­cen­tra­da num cená­rio míni­mo, em que tudo depen­de dos diá­lo­gos entre­cor­ta­dos, da escas­sa luz e do jogo cêni­co entre os ato­res. A vas­ta escu­ri­dão que os rodeia é fun­da­men­tal para a atmos­fe­ra des­se dra­ma de amor em potên­cia, seme­lhan­te ao da nove­la A fera na sel­va, de Henry James.

Na trans­po­si­ção da his­tó­ria para nos­sa épo­ca, o dire­tor apro­vei­tou sagaz­men­te as pos­si­bi­li­da­des do tele­fo­ne celu­lar e do iPod para ampli­ar o alcan­ce da ence­na­ção. Um fil­me curi­o­so, que com­pro­va a pos­si­bi­li­da­de de apos­tar na ima­gi­na­ção com um míni­mo de recur­sos. Algo a ter em men­te quan­do se obser­vam os orça­men­tos absur­dos de cer­tos fil­mes bra­si­lei­ros con­tem­po­râ­ne­os.

 

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