A justiça de Ian McEwan

Literatura

12.11.14

Já ia escre­ven­do que Ian McEwan é que nem Woody Allen, sem­pre pare­ci­do com ele mes­mo e sem­pre valen­do a pena. A com­pa­ra­ção é injus­ta, admi­to, já que, até pela lon­ge­vi­da­de e a obra pro­lí­fi­ca, o cine­as­ta é mui­to, mas mui­to mais irre­gu­lar. Mas o para­le­lo só me veio à cabe­ça por­que em The Children Act sen­ti pela pri­mei­ra vez um (leve) chei­ro de fór­mu­la. O roman­ce, que sai­rá no Brasil como A bala­da de Adam Henry (ima­gi­nem um roman­ce cha­ma­do Estatuto da cri­an­ça e do ado­les­cen­te ou algo pare­ci­do), é o 15o títu­lo de fic­ção de uma car­rei­ra ini­ci­a­da há qua­se 40 anos, em 1975, com Primeiro amor, últi­mos sacra­men­tos. E com­bi­na expli­ci­ta­men­te cená­ri­os, situ­a­ções e estra­té­gi­as nar­ra­ti­vas fami­li­a­res aos lei­to­res de McEwan – e hoje eles são legião em todo o mun­do.

O autor inglês em 2011, no Salon du Livre em Paris (Fonte: WikiCommons).

Fiona Maye, a pro­ta­go­nis­ta, é uma impor­tan­te juí­za da Corte Suprema espe­ci­a­li­za­da em dis­pu­tas fami­li­a­res. É pro­fis­si­o­nal con­cei­tu­a­dís­si­ma, como o são Henry Perowne, o neu­ro­ci­rur­gião de Sábado (2005), e Michael Beard, o cien­tis­ta ven­ce­dor do Nobel de Solar (2010). Como eles, faz par­te de uma upper class lon­dri­na prós­pe­ra e inte­lec­tu­a­li­za­da, todos eles envol­vi­dos em mai­or ou menor grau com o noti­ciá­rio – sobre­tu­do nas ques­tões que extra­po­lam o estri­ta­men­te local. A ação de A bala­da de Adam Henry tem con­tra­pon­tos dis­cre­tos na con­fla­gra­ção da Síria, assim como o Iraque e as polí­ti­cas públi­cas sobre o aque­ci­men­to glo­bal aju­dam a com­por os dois outros per­so­na­gens, o seu modo de estar no mun­do.

Os dile­mas morais, a tra­gi­ci­da­de das esco­lhas que a vida impõe, são um impor­tan­te leit­mo­tiv na mun­do de McEwan. É assim na ter­rí­vel cena de aber­tu­ra de Amor sem fim (roman­ce de 1997 em que um balão des­go­ver­na­do se sol­ta a des­pei­to do esfor­ço de per­so­na­gens sobre os quais pas­sa a pai­rar a cul­pa de ter afrou­xa­do pri­mei­ro a cor­da), no vir­tu­o­so final de Na praia (2007) e, é cla­ro, no sober­bo Reparação (2001), uma espé­cie de sin­fo­nia das res­pon­sa­bi­li­da­des, da razão e emo­ção embo­la­das, do que se vê e se quer ver.  Em A bala­da de Adam Henry, essa dúvi­da essen­ci­al sem­pre pre­sen­te é dida­ti­za­da no coti­di­a­no de uma juí­za, que em últi­ma ins­tân­cia ganha a vida solu­ci­o­nan­do dile­mas inva­ri­a­vel­men­te espi­nho­sos da vida alheia. E Fiona enfren­ta uns bons impas­ses: gême­os xifó­pa­gos devem ser sepa­ra­dos mes­mo saben­do-se de ante­mão que um deles irá mor­rer? Pais amo­ro­sos mas desa­jus­ta­dos têm o direi­to de cri­ar os filhos que amam?

No novo livro, há ain­da a mar­ca incon­fun­dí­vel do Ian McAbro, ape­li­do que ele já fez mais por mere­cer, como no hor­ror explí­ci­to de Cães negros (1992), O jar­dim de cimen­to (1978) ou Ao Deus-dará (titu­lo bizar­ro para The Confort of Strangers, de 1981). Gosto mais do ter­ror insi­di­o­so, que che­ga sem­pre do mes­mo jei­to: des­cre­ve-se uma situ­a­ção de tran­qui­li­da­de, não raro de con­for­to mate­ri­al, que vai aos pou­cos se ten­si­o­nan­do, se cris­pan­do na len­ta mate­ri­a­li­za­ção do que pode ser um sus­to, um dra­ma ou mes­mo uma tra­gé­dia — ou os três alter­na­da­men­te. Tenho para mim que a efi­cá­cia des­sas nar­ra­ti­vas está menos na incrí­vel habi­li­da­de téc­ni­ca de McEwan, sem­pre impres­si­o­nan­te, do que na filo­so­fia de vida que tra­duz, da rei­te­ra­da lem­bran­ça, incô­mo­da, de que vive­mos em pre­ca­ri­e­da­de per­ma­nen­te, sem­pre por um triz, sem­pre a um pas­so do des­con­tro­le e da ani­qui­la­ção moral ou mes­mo físi­ca.

Partindo des­te prin­cí­pio, a noi­te de domin­go de Fiona segue len­ta e melan­có­li­ca como são as noi­tes de domin­go no Rio de Janeiro ou em Londres, da mes­ma for­ma como seguia nor­mal, atri­bu­la­do, o sába­do de Henry Perowne no roman­ce de 2005. Tapetes caros, móveis de design, gra­vu­ras, uís­que, musi­ca clás­si­ca. Aos 59 anos, sem filhos, ela estu­da um pro­ces­so quan­do Jack, mes­ma ida­de e seu mari­do há 30, rei­vin­di­ca a chan­ce de ter mais uma pai­xão na vida, levar adi­an­te um affair incer­to com uma jovem — há quan­to tem­po não tran­sam?, per­gun­ta ele. Este é, no entan­to, ape­nas o pri­mei­ro “toque McAbro” do autor. A con­tra­pro­va de que a paz é uma qui­me­ra e a exis­tên­cia, um tor­men­to, vem do pro­ces­so de Adam Henry, um ado­les­cen­te de 17 anos que ago­ni­za de leu­ce­mia e, pres­si­o­na­do pelos pais, deci­de entre­gar-se à mor­te, já que, como Testemunha de Jeová, não pode acei­tar a trans­fu­são de san­gue.

A juris­pru­dên­cia, os peri­tos, os pais de Henry e a assis­ten­te soci­al encar­re­ga­da do caso não são, para Fiona, sufi­ci­en­tes. Ela pre­ci­sa tomar uma deci­são rápi­da – a doen­ça avan­ça — e deci­de ir ao hos­pi­tal para ouvir o pró­prio inte­res­sa­do, pro­cu­ran­do assim emba­sar a sen­ten­ça que per­mi­te ou não tra­tar alguém con­tra sua von­ta­de. Numa cena memo­rá­vel, a juí­za e o rapaz falam sobre a vida, a músi­ca e a poe­sia. A par­tir des­se encon­tro ela emba­sa a deci­são que, lite­ral­men­te, muda os rumos da his­tó­ria: do paci­en­te, é cla­ro, e dela, per­so­na­gem admi­rá­vel na ten­são per­ma­nen­te entre a con­vul­são emo­ci­o­nal que vive no casa­men­to e o equi­lí­brio, real, com que con­duz o pro­ces­so. Dizer mais do que isso, aqui, é spoi­ler mes­mo, pois a pre­ci­são de McEwan como nar­ra­dor não dei­xa gor­du­ra em exa­tas 200 pági­nas na edi­ção que sai­rá pela Companhia das Letras este mês.

Assim como Fiona, que ao lon­go do roman­ce se equi­li­bra pre­ca­ri­a­men­te entre a aus­te­ri­da­de pro­fis­si­o­nal e a desor­dem sen­ti­men­tal, a nar­ra­ti­va cami­nha no fio da nava­lha entre a ele­gân­cia clás­si­ca do autor e um dis­cre­to fler­te com o cli­chê. Mas os abas­ta­dos senho­res de meia-ida­de com pro­ble­mas sen­ti­men­tais, o uso osten­si­vo de refe­rên­ci­as da músi­ca eru­di­ta e os arrou­bos sen­ti­men­tais não che­gam a matar o que há de pro­fun­da­men­te McEwan nes­te Ian McEwan.

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