A lição contra a lição de moral

No cinema

12.06.15

Se fil­mes do les­te euro­peu são raros nos nos­sos cine­mas, uma pro­du­ção búl­ga­ra é qua­se uma ano­ma­lia. É o caso de A lição, de Kristina Grozeva e Peter Valchanov, que che­gou como quem não quer nada e tem gran­des chan­ces de arre­ba­tar as almas sen­sí­veis que por­ven­tu­ra ain­da exis­tam nas nos­sas pla­tei­as.

Premiado em fes­ti­vais inter­na­ci­o­nais (Varsóvia, San Sebastián, Tóquio), A lição é, de cer­to modo, um pri­mo-irmão do recen­te Dois dias, uma noi­te. Assim como no fil­me dos irmãos Dardenne, tra­ta-se aqui da odis­seia miú­da de uma mulher acos­sa­da pelo aper­to mate­ri­al, que se tor­na em algum momen­to tam­bém uma pro­va­ção moral. Em ambos, acom­pa­nha­mos qua­se pas­so a pas­so a cami­nha­da da pro­ta­go­nis­ta em sua luta pela sobre­vi­vên­cia num mun­do hos­til ou indi­fe­ren­te.

Narrativa aus­te­ra

Para além do tema, uma for­ma natu­ra­lis­ta e aus­te­ra de nar­rar, her­dei­ra do neor­re­a­lis­mo, apro­xi­ma os dois fil­mes, ain­da que A lição tal­vez care­ça do rigor e do bri­lho dos Dardenne. Voltaremos ao assun­to.

Cena do filme A lição

Aqui, a (anti) heroí­na é Nadezhda (Margita Gosheva), pro­fes­so­ra gina­si­al de inglês numa cida­de do inte­ri­or da Bulgária. Tudo come­ça quan­do a car­tei­ra de uma alu­na é fur­ta­da por um cole­ga na sala de aula e Nadezhda ten­ta des­co­brir o autor do deli­to e usar o epi­só­dio para dar aos estu­dan­tes uma lição de moral. Vem daí a iro­nia não mui­to sutil do títu­lo, pois quem aca­ba­rá apren­den­do uma dolo­ro­sa lição será a pró­pria pro­fes­so­ra.

Endividada, ame­a­ça­da de per­der a casa por fal­ta de paga­men­to da pres­ta­ção, ela não pode con­tar com o mari­do bêba­do e deso­cu­pa­do, e não quer recor­rer ao pai, abas­ta­do e bon-vivant. Diante da insen­si­bi­li­da­de kaf­ki­a­na do Estado e do capi­tal, ela aca­ba nas mãos de um agi­o­ta ines­cru­pu­lo­so (Stefan Denolyubov).

É aqui que entra, tal­vez, a dife­ren­ça essen­ci­al entre a abor­da­gem dos dire­to­res búl­ga­ros e a dos irmãos bel­gas. Vestígios de mani­queís­mo per­pas­sam a sóli­da estru­tu­ra nar­ra­ti­va de A lição, jogan­do o espec­ta­dor con­tra o agi­o­ta mal­va­do, o pai devas­so, a madras­ta frí­vo­la. Se em Dois dias, uma noi­te a ênfa­se é na eco­no­mia polí­ti­ca que impin­ge aos indi­ví­du­os os dile­mas morais, aqui o acen­to pare­ce colo­ca­do na cons­ti­tui­ção moral de cada um.

Elogio da imper­fei­ção

Mas isso não dimi­nui a potên­cia do fil­me, uma vez que o impor­tan­te é a trans­for­ma­ção que se ope­ra no espí­ri­to e na ati­tu­de da pro­ta­go­nis­ta. À par­te isso, A lição con­ta com ins­pi­ra­das solu­ções dra­má­ti­cas e visu­ais, como a da velha van que o mari­do de Nadezhda quer ven­der e que emper­ra na cal­ça­da bem em fren­te ao por­tão da casa, obri­gan­do todos a uma paté­ti­ca ginás­ti­ca para entrar ou sair.

Igualmente admi­rá­veis são as elip­ses e os suben­ten­di­dos, como por exem­plo na sequên­cia em que a pro­fes­so­ra vai à dele­ga­cia pres­tar quei­xa con­tra a chan­ta­gem do agi­o­ta e sai de lá sem dizer uma pala­vra.

O mun­do retra­ta­do em A lição é opa­co e cru­el, mas não des­pro­vi­do de humor, nem de afe­to, nem mes­mo de uma obs­cu­ra e retor­ci­da bele­za. Para per­ce­bê-la, tal­vez seja neces­sá­rio des­po­jar-se, como Nadezhda, da rigi­dez moral e acei­tar a imper­fei­ção dos seres e da vida.

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