A literatura da realidade

Literatura

08.10.15

Com o Nobel de Literatura para Svetlana Alexievich, a Academia Sueca con­tem­pla, pela pri­mei­ra vez, o jor­na­lis­mo. No mimi­mi pro­to­co­lar que se suce­de ao anún­cio do prê­mio, a esco­lha de 2015 bate no ner­vo dos defen­so­res da lite­ra­tu­ra como uma das “belas artes”, daque­les que sem­pre des­pre­zam as esco­lhas como “polí­ti­cas”, prin­ci­pal­men­te quan­do os auto­res não são euro­peus oci­den­tais ou ame­ri­ca­nos. Desta vez o cri­té­rio é polí­ti­co, sim, e num sen­ti­do que vai além de atrair as aten­ções para a con­tur­ba­da Bielo-Rússia natal da escri­to­ra, pois diz res­pei­to tam­bém, ou sobre­tu­do, à sau­dá­vel con­ta­mi­na­ção da fabu­la­ção pela repor­ta­gem, sua eter­na pri­ma pobre, em tem­pos de depre­ci­a­ção do jor­na­lis­mo. Alexievich não é cola­bo­ra­do­ra even­tu­al da impren­sa, é jor­na­lis­ta em tem­po inte­gral e exer­ce a pro­fis­são como seus melho­res expo­en­tes, unin­do a prá­ti­ca a uma refle­xão sobre sua for­ma.

Não li Svetlana Alexievich, tra­du­zi­da em 19 paí­ses e, ao que sai­ba, com um úni­co livro em por­tu­guês, O fim do homem sovié­ti­co – Um tem­po de desen­can­to, lan­ça­do em junho des­te ano, em Portugal, pela Porto Editora. Mas a jul­gar por suas pró­pri­as pala­vras, far­tas em seu óti­mo site, esta­mos dian­te de uma escri­to­ra bem pou­co orto­do­xa: “hoje, quan­do o homem e o mun­do tor­nam-se tão mul­ti­fa­ce­ta­dos e diver­si­fi­ca­dos, o papel do docu­men­to na arte tor­na-se cada vez mais inte­res­san­te, na mes­ma medi­da em que a arte como tal mui­tas vezes se mos­tra impo­ten­te. (…) Depois de vin­te anos tra­ba­lhan­do com mate­ri­al docu­men­tá­rio e ten­do escri­to cin­co livros base­a­dos nele, decla­ro que a arte falhou em enten­der mui­tas coi­sas sobre as pes­so­as.”

A maté­ria-pri­ma de seus prin­ci­pais livros são depoi­men­tos de pes­so­as que vive­ram, de for­mas dife­ren­tes, dife­ren­tes aspec­tos do fim do impé­rio sovié­ti­co. No pri­mei­ro, O ros­to pou­co femi­ni­no da guer­ra (apro­xi­ma­do a par­tir da ver­são em inglês), ela ouviu algu­mas das mais de um milhão de mulhe­res que luta­ram na Segunda Guerra Mundial. O con­fli­to, des­ta vez vis­to pelas cri­an­ças, é o tema do segun­do, As últi­mas tes­te­mu­nhas: o livro de his­tó­ri­as bem pou­co infan­tis. Zinky boys: vozes sovié­ti­cas da guer­ra do Afeganistão con­ti­nua o gran­de pai­nel his­tó­ri­co com­pos­to ain­da por Vozes de Chernobyl e por O fim do homem sovié­ti­co, este cen­tra­do em depoi­men­tos de pes­so­as comuns, afe­ta­das coti­di­a­na­men­te pelas gran­des mudan­ças his­tó­ri­cas da região.

Para cada livro, ela diz tra­ba­lhar entre três e qua­tro anos. Cada um deles envol­ve ain­da entre­vis­tas de pelo menos 500 pes­so­as de gera­ções e pro­ce­dên­ci­as dife­ren­tes. É a par­tir des­sa imer­são nas vozes de quem vive a História no deta­lhe que bus­ca um gêne­ro, neces­sa­ri­a­men­te híbri­do, que já defi­niu como “roman­ce cole­ti­vo”, “roman­ce-ora­tó­rio” ou “coro épi­co”, sem­pre ins­pi­ra­da por Ales Adamovich, autor bie­lo-rus­so que, segun­do ela, explo­rou de for­ma pio­nei­ra esta poli­fo­nia resul­tan­te de uma aten­ta escu­ta de “pes­so­as reais”. “Busco um méto­do lite­rá­rio que per­mi­te che­gar o mais per­to pos­sí­vel da vida real. Realidade sem­pre me atraiu como um imã, ela me tor­tu­ra e hip­no­ti­za, que­ro cap­tu­rá-la no papel”, escre­ve ela.

Ainda que des­me­su­ra­da, de tona­li­da­de épi­ca, a ambi­ção de Svetlana Alexievich não des­toa, em essên­cia,  da uto­pia de seus cole­gas do cha­ma­do new jour­na­lism, que bus­ca­vam atra­vés de pro­ce­di­men­tos lite­rá­ri­os enri­que­cer em huma­ni­da­de e refle­xão o mero regis­tro obje­ti­vo. Também não é dife­ren­te do que se vê hoje no cha­ma­do jor­na­lis­mo nar­ra­ti­vo, que nos EUA e na América Latina bus­ca alter­na­ti­vas à sen­sa­bo­ria do regis­tro rápi­do e ras­tei­ro dos fatos, do divór­cio entre opi­nião e rea­li­da­de, do cará­ter rela­to­ri­al de boa par­te do que se lê em jor­nais e revis­tas.

Em entre­vis­ta à Associated Press duran­te a tem­po­ra­da de espe­cu­la­ções sobre o prê­mio, Maria Schottenius, crí­ti­ca lite­rá­ria do jor­nal sue­co Dagens Nyheter, lem­brou que o fler­te da Academia com um jor­na­lis­mo que se pode­ria cha­mar “ lite­rá­rio” não vem de hoje. Segundo ela, o polê­mi­co Ryszard Kapuscinski, autor de livros como “Ébano” e “O impe­ra­dor” e acu­sa­do de inven­tar his­tó­ri­as, che­gou a ser seri­a­men­te cogi­ta­do para 2007, jus­ta­men­te o ano em que mor­reu. Outro nome já lem­bra­do pelo Nobel seria, ain­da segun­do ela, do holan­dês Ian Buruma.

As reper­cus­sões polí­ti­cas do Nobel de Literatura de 2015 tal­vez não este­jam na geo­po­lí­ti­ca. Mas na afir­ma­ção de que o jor­na­lis­mo, quan­do fei­to de for­ma séria, empe­nha­da e, por que não?, obses­si­va, con­ti­nua a ser um ins­tru­men­to fun­da­men­tal de lei­tu­ra crí­ti­ca do mun­do. Por mais que par­te sig­ni­fi­ca­ti­va da impren­sa insis­ta em mos­trar o con­trá­rio.

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