A máquina de Gonçalo M. Tavares

Literatura

11.04.12

Por que é que a gen­te tem essa mania de que­rer conhe­cer pes­so­al­men­te ído­los, influên­ci­as, ins­pi­ra­ções? Não bas­ta a lei­tu­ra, o que dizem nos livros? O que se tira des­ses encon­tros? Há quem ache que o ris­co é só se tirar mes­mo a aura. É o caso do crí­ti­co inglês George Steiner. Na edi­ção de outu­bro de 2011 da Revista Ler, que pro­mo­veu o seu encon­tro com Lobo Antunes, ele diz temer esses momen­tos, as frus­tra­ções pos­sí­veis. Descobrir que o gigan­tes­co escri­tor não é gran­de pes­soa. É como se nos­so con­ta­to com auto­res fos­se que nem rela­ci­o­na­men­tos vir­tu­ais: lê o melhor do cara, o que buri­lou, edi­tou (e foi edi­ta­do) e nos seduz. Mas pro­po­mos um encon­tro. E aí? E se, ao vivo, per­ce­ber­mos que as idei­as, o humor pre­ci­so e a sen­si­bi­li­da­de vie­ram numa mala? Ou pior: se ele não tiver nada a acres­cen­tar? Olha, até hoje me acho um cara de sor­te: resol­vi gos­tar de auto­res que, encon­tra­dos ao vivo, como Luis Fernando Verissimo ou Amílcar Bettega, vale­ram a pena. O escri­tor não dimi­nuiu o livro. Nem o livro dimi­nuiu o autor.

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Tudo isso por­que, há um ano, deci­di estu­dar em Portugal. Então me ins­cre­vi em dois pro­ces­sos sele­ti­vos da Universidade Nova de Lisboa (Pós-gra­du­a­ção em Artes da Escrita e Mestrado em Estudos Portugueses). Se apro­va­do, não sabia qual fazer. Mas, depois de ins­cri­to, envi­ei um e-mail para o coor­de­na­dor da Pós, para escla­re­cer dúvi­das. Na res­pos­ta, qua­se no fim, qua­se um P.S., ele me dis­se “refor­ço de peso no cur­so. Gonçalo M. Tavares dará aulas na Pós”. Ganha um pas­tel de nata quem adi­vi­nhar o cur­so que eu esco­lhi.

Buenas, se encon­trar o escri­tor para um papo, um café, já é ris­co de, além de gague­jar e pas­sar ver­go­nha, des­co­brir que o sujei­to só é o cara no papel, diz aí: e estu­dar com ele? Me per­gun­to o que, de fato, gen­te como eu espe­ra da cadei­ra Arte do Romance com Gonçalo M. Tavares? Aprender a arte de cri­ar Jerusalém, Aprender a Rezar na Era da Técnica, Uma Viagem a Índia? Se a expec­ta­ti­va é essa (na pri­mei­ra aula, pelos olhos de alguns cole­gas, pare­cia ser por aí mes­mo), má notí­cia: se depen­der de mim e das aulas, não sur­gi­rá um Gonçalo M. Tavares bra­si­lei­ro. O que, na ver­da­de, é óti­ma notí­cia. É que vejo no Gonçalo um autor que pas­sa ao lar­go de gêne­ros. Foge ou bem dá bola para mol­des e regras. E por isso, à medi­da que a pri­mei­ra aula se avi­zi­nha­va, eu fica­va reti­cen­te: que dia­cho vai ser a arte do roman­ce? Se o Gonçalo vier com mace­tes e tru­ques, rapaz, cai o Muro de Berlim. Não é ele. E, além do mais, se tives­se mode­lo para escre­ver como ele, se todos pudes­sem, que gra­ça teria escre­ver des­sa manei­ra?

Mas a aula não é nada dis­so. Aí alguém per­gun­ta: e o que é que ela é então? É (um pou­co) assus­ta­do­ra. Não pela pre­sen­ça do mito, que não raros por­tu­gue­ses (per­dão, fili­a­dos ao PLA — Partido do Lobo Antunes) dizem ser o pró­xi­mo Nobel por­tu­ga. O mito some com cin­co minu­tos e um sujei­to que nun­ca sobe sobre seus mais de 30 livros e tro­cen­tos prê­mi­os para se mos­trar mai­or do que qual­quer dos alu­nos que ocu­pam todos os luga­res da sala. É assus­ta­do­ra por cau­sa de: 1) humil­da­de e; 2) coe­rên­cia.

1) Humildade: não é pin­tar o autor bon­zi­nho, que diz “ah, que é isso” ao ganhar prê­mio ou nem sabe como isso ocor­reu. Não, ele sabe mui­to bem. Trabalho e lei­tu­ra. E tem uma pro­va viva dis­so na aula: a seben­ta (não, seben­ta não é uma cole­ga de quem não gos­to; é como falam apos­ti­la por aqui). Pois a seben­ta do Gonçalo, xero­ca­da de seus pró­pri­os livros (além de obje­to para cole­ção) é um tapa na cara, sacu­di­da no cére­bro. Trechos de auto­res e mais auto­res (e mais auto­res, e artis­tas) que, bas­ta ler o seu livro Biblioteca, não devem ser 10% do arse­nal de lei­tu­ra dele. Assustadora a minha igno­rân­cia. O Gonçalo se faz com­pro­va­ção do cli­chê de pales­tra: todo escri­tor deve ser lei­tor. Mas deta­lhe: por ser fru­to das lei­tu­ras dele, a seben­ta (eu me acos­tu­mei, você se acos­tu­ma) é far­ta­men­te ilus­tra­da com subli­nha­dos, esque­mas, ano­ta­ções, do punho do pro­fes­sor. Numa aula ele já comen­tou que “Leitura não é eu rece­ber, é eu agir. Ler arma­do, pegar num obje­to (agar­rou a cane­ta como se fos­se faca) reme­te à ação (…) não vou des­can­sar a ler, vou agir”. A seben­ta é pro­va des­sa afir­ma­ção. E da humil­da­de do Gonçalo que se entre­ga a todos os tex­tos (de Nietzsche a Asterix) sem arro­gân­cia, que­ren­do pen­sar e dia­lo­gar com o que lê sem­pre arma­do de cane­ta. E desar­ma­do de idei­as fei­tas. É como diz em A Perna Esquerda de Paris Seguida de Roland Barthes e Robert Musil, “poder de ser influ­en­ci­a­do: sou tão for­te que tenho diver­sas influên­ci­as. A for­ça para ser fra­co o sufi­ci­en­te para rece­ber a for­ça dos outros”. E esse mate­ri­al ain­da é amos­tra-grá­tis do tra­ba­lho dele: ano­ta­ções, insights, tre­chos mar­ca­dos, como, por exem­plo, a repro­du­ção do pro­je­to My Favorite Books, de Olga Patiukova. É impos­sí­vel ver sem se lem­brar da gave­ta de vazio do senhor Juaroz.

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Não há como não pen­sar nos livros do Gonçalo. Não só ao ler a seben­ta, mas nas aulas. E aqui já falo de 2) Coerência: é que o Gonçalo apa­ren­ta ser 100% coe­ren­te com o Gonçalo. Ele é os seus livros ou os seus livros são ele numa sim­bi­o­se espan­to­sa. E não é dizer que sua obra é auto­bi­o­grá­fi­ca. Longe dis­so. Talvez, auto­fi­lo­só­fi­ca. Parece que ele pra­ti­ca o tem­po todo uma espé­cie de escri­ta oral, falan­do-escre­ven­do fra­ses que encai­xam per­fei­ta­men­te na sua bibli­o­gra­fia. Quando se pôs a comen­tar que a dis­po­si­ção segu­ra de máqui­nas em fábri­cas para evi­tar aci­den­tes e garan­tir efi­ci­ên­cia é mar­ca do raci­o­na­lis­mo, me sen­ti len­do a Máquina de Joseph Walser. Ou na hora em que con­cluiu que “mau livro é o livro como um bolo de arroz”, ter­mi­na-se de comer e não há mais nada para pen­sar, ima­gi­nei uma 8ª con­fe­rên­cia do Senhor Eliot. É como ter aula com o Gonçalo, o senhor Valéry, senhor Henri, Bloom (ou seu nar­ra­dor). Se há quem tenha difi­cul­da­de de andar e falar ao mes­mo tem­po, Gonçalo pare­ce ter difi­cul­da­de de cami­nhar, sen­tar, parar, res­pi­rar e não pen­sar ao mes­mo tem­po. Mas é quan­do ele diz “estou a pen­sar com vocês” e per­ce­bo que está mes­mo, que a refle­xão sobre uma escri­ta posi­ti­va e uma nega­ti­va é uma ideia que está aper­fei­ço­an­do ali, naque­le ago­ra, aí che­go a cogi­tar o absur­do de, indi­re­ta­men­te, estar cola­bo­ran­do num futu­ro livro do pro­fes­sor. Essa escri­ta oral, escre­ver idei­as mais que pen­sar, faz crer que daqui um ano vou ler num senhor Kafka ou Borges a fra­se “o ?sim’ é o fim do diá­lo­go” que já li/ouvi na aula. E antes que isso pare­ça vai­da­de­zi­nha bea­tle­ma­nía­ca ou elo­gio român­ti­co do ser-escri­tor-essên­cia, não. É que o semes­tre ain­da não aca­bou, mas pare­ce que esse agir do Gonçalo, exten­são da sua escri­ta, pode dizer mais do que qual­quer dica que venha a dar sobre escre­ver, com­po­si­ção, for­ma. Ao pare­cer que escre­ve mes­mo ao dar aula, dar boa noi­te, demons­tra uma ideia de máxi­mo apro­vei­ta­men­to e pro­fun­di­da­de de cada ges­to. O mes­mo que ele ambi­ci­o­na na escri­ta. Que nada seja capri­cho, de gra­ça. E se ele acre­di­ta que livros são máqui­nas de pen­sar, e acre­di­ta mes­mo (vide seben­ta), pare­ce natu­ral que bus­que que cada pala­vra seja uma engre­na­gem des­sa máqui­na. E não exis­te máqui­na com engre­na­gem a mais, a menos, ou com engre­na­gens deco­ra­ti­vas. Tudo tem fun­ção. Significado. Pois o Gonçalo, nes­se seu viver-escre­ven­do, pare­ce dizer que que acre­di­ta que assim deve ser a arte do roman­ce, da poe­sia, da vida. E que ele bus­ca isso o tem­po todo.

* Reginaldo Pujol Filho é autor de Quero ser Reginaldo Pujol Filho (Não Editora, 2010) e orga­ni­za­dor da cole­tâ­nea Desacordo orto­grá­fi­co, que reú­ne auto­res de diver­sos paí­ses lusó­fo­nos. Está cur­san­do a pós-gra­du­a­ção em Artes da Escrita em Lisboa.

* Imagens que ilus­tram esse post:  tre­chos da “seben­ta” de Gonçalo M. Tavares.

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