A mediocridade reluzente do Oscar

No cinema

14.02.13

A pri­mei­ra coi­sa a ser dita é que o fato de uma come­di­a­zi­nha roti­nei­ra como O lado bom da vida estar con­cor­ren­do a oito Oscar, entre eles os de fil­me e dire­ção, é sin­to­má­ti­co da per­da de rele­vân­cia cul­tu­ral (não esta­mos falan­do de publi­ci­da­de e comér­cio) des­se supe­res­ti­ma­do prê­mio. Afasto a ten­ta­ção de dizer que é todo o cine­ma ame­ri­ca­no que está em declí­nio quan­do lem­bro que um fil­me infi­ni­ta­men­te melhor, O mes­tre, não foi indi­ca­do nas prin­ci­pais cate­go­ri­as.

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Em vez de ficar lamen­tan­do os pobres cri­té­ri­os da rica Academia, cabe ten­tar enten­der por que o fil­me de David O. Russell tem agra­da­do a tan­ta gen­te. Há nele, antes de tudo, a hábil com­bi­na­ção de duas tra­di­ções: de um lado, o dra­ma de desa­jus­te e ina­de­qua­ção pes­so­al; de outro, a comé­dia de pares român­ti­cos que vivem às tur­ras até per­ce­ber que foram fei­tos um para o outro. Acrescentam-se a essa base pita­das de um pseu­dor­re­a­lis­mo “cien­tí­fi­co” con­tem­po­râ­neo (o diag­nós­ti­co de bipo­la­ri­da­de do pro­ta­go­nis­ta), um mul­ti­cul­tu­ra­lis­mo poli­ti­ca­men­te cor­re­to (um ami­go negro, outro indi­a­no), fór­mu­las nar­ra­ti­vas de teles­sé­ri­es e, por fim, men­sa­gens edi­fi­can­tes de auto­a­ju­da.

Nada have­ria a dizer con­tra essa mis­tu­ra de recei­tas de suces­so, a não ser pelo seguin­te: ao atri­buir a Pat Solitano (Bradley Cooper) um sofri­men­to psí­qui­co dolo­ro­sa­men­te real, a bipo­la­ri­da­de (anti­ga­men­te cha­ma­da de psi­co­se manía­co-depres­si­va), só com mui­ta levi­an­da­de o fil­me pode suge­rir que ele se curou gra­ças ao amor de uma mulher (Jennifer Lawrence) e a slo­gans de pen­sa­men­to posi­ti­vo.

Mistificação peri­go­sa

Não sei como lida com o assun­to o roman­ce de Matthew Quick em que o rotei­ro se base­ou. Estamos dis­cu­tin­do o que apa­re­ce na tela, e o que apa­re­ce na tela é uma gran­de e peri­go­sa mis­ti­fi­ca­ção. Haverá quem diga que, tam­bém nas comé­di­as român­ti­cas de Howard Hawks, Leo McCarey ou Blake Edwards, o amor cura­va lou­cu­ras, doen­ças e mal­di­ções. A dife­ren­ça, porém, é que em tais comé­di­as o pac­to que se esta­be­le­cia com o espec­ta­dor era o da fan­ta­sia des­la­va­da, do faz-de-con­ta puro e sim­ples. Coisas como: Fulano era lou­co por­que tomou uma mar­te­la­da na cabe­ça — e o pro­ble­ma se resol­via com outra mar­te­la­da no mes­mo lugar.

Um esbo­ço des­se tipo de jogo apa­re­ce em O lado bom da vida no trau­ma de Pat com a can­ção Ma che­rie amour, de Stevie Wonder, ouvi­da por ele ao sur­pre­en­der a mulher no chu­vei­ro com outro. Estaria aí um bom mote para o dra­ma cômi­co, mas os rea­li­za­do­res pare­cem não acre­di­tar nele, ou antes, não acre­di­tar que ele bas­te para as pla­tei­as atu­ais. Então tome subs­tra­to “rea­lis­ta”: bipo­la­ri­da­de, inter­na­ção, lítio, sero­quel. Tudo com pre­ci­são “cien­tí­fi­ca”. E mais: o momen­to trau­má­ti­co pre­ci­sa ser revi­si­ta­do de modo cru, com direi­to a espan­ca­men­to, fra­tu­ras, san­gue.

Por que tudo isso? Aparentemente por­que Hollywood não con­fia mais na ima­gi­na­ção de seus espec­ta­do­res, na sua capa­ci­da­de de embar­car na fic­ção saben­do que se tra­ta de fic­ção. Tem que lhes dizer a todo momen­to: isto é cien­tí­fi­co, olhe só os nomes dos remé­di­os, a poso­lo­gia. Veja: um soco assim, nes­te osso, cau­sa uma fra­tu­ra assim e assa­do. Tudo é “base­a­do em fatos reais”, com asses­so­ri­as téc­ni­cas diver­sas.

O pior é que, sobre esse arca­bou­ço “rea­lis­ta”, eri­gem-se as mai­o­res tape­a­ções, a ideia de que tudo se cura com o amor român­ti­co, a recon­ci­li­a­ção da famí­lia, a rei­te­ra­ção de cli­chês edi­fi­can­tes. No final, as opo­si­ções — entre o amor e a famí­lia; entre a ciên­cia e a supers­ti­ção — se reve­lam fal­sas; tudo e todos se con­gra­çam.

Você fala a ver­da­de, e a ver­da­de é o seu dom de ilu­dir”, diz uma can­ção de Caetano Veloso. Mais ou menos o mes­mo vale para esse fal­so rea­lis­mo hollywo­o­di­a­no atu­al, de que O lado bom da vida me pare­ce um legí­ti­mo repre­sen­tan­te.

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