A mesma água que mata a sede é a que afoga

Colunistas

22.10.14

É fácil pas­sar da esquer­da à direi­ta, achan­do-se ori­gi­nal e gaban­do-se de inde­pen­dên­cia de pen­sa­men­to, quan­do no fun­do esse movi­men­to não é mais do que eco, ren­di­ção à igno­rân­cia e à bru­ta­li­da­de ambi­en­te; quan­do essa pas­sa­gem faz par­te de um con­cer­to cole­ti­vo, de um acor­do com o seu tem­po, quan­do o mun­do intei­ro ten­de para o mes­mo lado. Difícil é pen­sar sem cla­que. E sem cor­res­pon­dên­cia. É aí que está a pos­si­bi­li­da­de de um pen­sa­men­to inde­pen­den­te de ver­da­de, nes­se escân­da­lo sem defen­so­res de pri­mei­ra hora, nes­sa irrup­ção sem segui­do­res (à esquer­da e à direi­ta), nes­sa cora­gem que é ao mes­mo tem­po ante­vi­são e sui­cí­dio, ato de lou­cu­ra e ges­to artís­ti­co. São raros os casos de pen­sa­do­res des­se cali­bre. Pasolini era um deles.

O cineasta, poeta e escritor Pier Paolo Pasolini

Na tar­de de 1 de novem­bro de 1975, um sába­do, pou­cas horas antes de ser bru­tal­men­te assas­si­na­do, Pasolini con­ce­deu sua últi­ma entre­vis­ta, publi­ca­da uma sema­na depois, no “La Stampa”, e mais tar­de ree­di­ta­da em livro, com o títu­lo: “Estamos todos em peri­go”. Eu não sabia (ou não me lem­bra­va) da exis­tên­cia des­sa entre­vis­ta até depa­rar com a tra­du­ção fran­ce­sa – “L’Ultima Intervista di Pasolini”, ed. Allia, 2014 –, na sema­na pas­sa­da, na vitri­ne de uma livra­ria de Bruxelas.

Alguns dias antes da entre­vis­ta, duran­te um deba­te, Pasolini defen­de­ra a ideia de uma “lín­gua vul­gar” con­tra a uni­for­mi­za­ção pro­mo­vi­da pela tele­vi­são e por um sis­te­ma edu­ca­ci­o­nal a ser­vi­ço do hedo­nis­mo con­su­mis­ta. Para ele, o sis­te­ma edu­ca­ci­o­nal e a tele­vi­são eram dois ins­tru­men­tos do mes­mo poder que faz todo mun­do dese­jar as mes­mas coi­sas, da mes­ma manei­ra. Era uma guer­ra anti­ga. E Pasolini recor­ria a um supos­to “arcaís­mo”, que na ver­da­de tinha a ver ape­nas com a arte e a vida do pre­sen­te, com uma rela­ção sen­su­al com a ter­ra e com a natu­re­za, com uma rela­ção vital com o mun­do, para liber­tar a lín­gua e a cul­tu­ra des­se pro­ces­so cole­ti­vo de nor­ma­li­za­ção. Ele opu­nha o dia­le­to à esco­la e o dese­jo ao con­su­mis­mo. É cla­ro que sua pres­ci­ên­cia em ter­mos de hedo­nis­mo con­su­mis­ta não podia ante­ver nem de lon­ge o que esta­va por vir.

Não há nada mais fácil do que exal­tar o bem e exe­crar o mal quan­do isso ape­nas ecoa o que todo mun­do pen­sa. A teo­ria da cons­pi­ra­ção, por exem­plo, tão fér­til em mei­os como a inter­net, resol­ve todas as con­tra­di­ções ao dar um sen­ti­do mani­queís­ta (de um lado os bons, de outro os maus) a situ­a­ções nas quais os papéis são móveis. A inte­li­gên­cia do pen­sa­men­to polí­ti­co, ao con­trá­rio, não está em iden­ti­fi­car o fas­cis­mo onde se espe­ra encon­trá-lo, mas onde ele se mani­fes­ta, nos opor­tu­nis­mos e nas impos­tu­ras do bem, por exem­plo, sob dife­ren­tes dis­far­ces.

Você já viu essas mari­o­ne­tes que tan­to pro­vo­cam o riso das cri­an­ças, por­que têm o cor­po vira­do para um lado e a cabe­ça para o outro?  (…) É como eu vejo essa tru­pe de inte­lec­tu­ais, soció­lo­gos, espe­ci­a­lis­tas e jor­na­lis­tas imbuí­dos das melho­res inten­ções: as coi­sas acon­te­cem de um lado e a cabe­ça deles está vira­da para o outro. Não estou dizen­do que o fas­cis­mo não exis­te. Estou dizen­do: parem de me falar do mar, por­que esta­mos na mon­ta­nha.”

Contra o polí­ti­co que se apre­sen­ta como alter­na­ti­va à velha polí­ti­ca e que, na sua vora­ci­da­de pelo poder, aca­ba fazen­do o mes­mo tipo de ali­an­ça que antes ele con­de­na­va, Pasolini é sim­ples e dire­to: “Tenho nos­tal­gia da gen­te pobre e ver­da­dei­ra que luta­va para der­ru­bar o patrão sem por isso se tor­nar patrão”.

É essa ambi­gui­da­de do poder, do “homem de bem” que pode ser tam­bém assas­si­no den­tro da lei, que a polí­ti­ca escan­da­lo­sa de Pasolini reve­la e denun­cia. Porque a mes­ma água que mata a sede é a que afo­ga: “É como quan­do cho­ve numa cida­de e os bura­cos de esgo­to estão entu­pi­dos. A água sobe, é uma água ino­cen­te, uma água de chu­va, ela não tem nem a fúria do mar nem a mal­da­de da cor­ren­te­za de um rio. (…) É a mes­ma água da chu­va cele­bra­da por tan­tas poe­si­as sin­ge­las. Mas ela sobe e te afo­ga”.

No final da entre­vis­ta, Pasolini diz a fra­se que aca­ba­ria lhe ser­vin­do de títu­lo: “Estamos todos em peri­go”. É a dei­xa para o jor­na­lis­ta repli­car com a últi­ma per­gun­ta, que fica­rá sem res­pos­ta: “E como é que você pre­ten­de evi­tar o peri­go e o ris­co?”.

Já é tar­de, Pasolini pede para reler as ano­ta­ções do jor­na­lis­ta. Compromete-se a pre­ci­sar alguns pon­tos e res­pon­der à últi­ma per­gun­ta, com cal­ma, até o dia seguin­te. Diz que é mais fácil por escri­to. Horas depois, ele será encon­tra­do mor­to, com o ros­to des­fi­gu­ra­do, numa praia per­to de Roma.

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