A minha vida foi mais forte que eu

Literatura

26.03.12

Ainda que seja pos­sí­vel deter­mi­nar sua data e local de nas­ci­men­to (24 de setem­bro de 1943, Pisa) e, a par­tir de hoje, tam­bém sua data e local de mor­te (25 de mar­ço de 2012, Lisboa), a impres­são que fica é que a obra de Antonio Tabucchi — por sua den­si­da­de e com­ple­xi­da­de — lhe per­mi­te extra­po­lar essas mar­cas cro­no­ló­gi­cas, dei­xan­do-o em algum lugar entre o físi­co e o meta­fí­si­co, o sonho e a rea­li­da­de.

Foi um escri­tor euro­peu de for­ma­ção clás­si­ca, como boa par­te dos inte­lec­tu­ais ita­li­a­nos de sua gera­ção, mas que dire­ci­o­nou esse pre­pa­ro a uma escri­tu­ra pro­fun­da­men­te moder­na — uma fic­ção que inves­te na dúvi­da, na incom­ple­tu­de e no enig­ma. Suas mais pre­sen­tes fili­a­ções dão uma medi­da de sua ambi­ção: Luigi Pirandello e Fernando Pessoa — foi Tabucchi quem pri­mei­ro tra­du­ziu Pessoa na Itália, orga­ni­zan­do a publi­ca­ção de suas obras, além de tam­bém ter tra­du­zi­do ao ita­li­a­no o poe­ta bra­si­lei­ro Carlos Drummond de Andrade.

Pessoa e Pirandello dão a Tabucchi o ins­tru­men­tal para for­jar, em sua fic­ção, uma visão de mun­do que con­den­sa docu­men­to, fábu­la, ima­gem e memó­ria, em uma con­ver­gên­cia de diver­sos regis­tros dis­cur­si­vos. A lite­ra­tu­ra de Tabucchi tem uma con­fi­gu­ra­ção de fron­tei­ra: nun­ca em um lugar espe­cí­fi­co, ou com­pro­me­ti­da com uma lín­gua deter­mi­na­da — tran­si­tou entre o ita­li­a­no, o fran­cês e o por­tu­guês (Requiem, lan­ça­do na déca­da de 1990, foi escri­to dire­ta­men­te na lín­gua de Pessoa).

Tabucchi esta­va inte­res­sa­do nos pon­tos de pas­sa­gem — luga­res em que toda cer­te­za e segu­ran­ça sobre quem se é caem por ter­ra (“Me inte­res­sa ser sem­pre outro”, ele escre­veu — ou, na ver­são de Enrique Vila-Matas, seu ami­go, “Me cha­mo Tabucchi, como todo mun­do”). Por isso suas his­tó­ri­as sobre o mar, sobre as ilhas dos Açores, sobre a soli­dão das balei­as, sobre os delí­ri­os dos poe­tas e de obs­cu­ros pin­to­res medi­e­vais. Seu desa­fio esta­va na per­so­ni­fi­ca­ção mági­ca das vozes alhei­as — Tabucchi que­ria ser Pessoa, que­ria ser Pirandello, ser sem­pre outro para conhe­cer a si mes­mo. Por isso escre­veu O senhor Pirandello é cha­ma­do ao tele­fo­ne (um monó­lo­go tea­tral publi­ca­do em fins da déca­da de 1980) e Os três últi­mos dias de Fernando Pessoa (uma nove­la que res­sus­ci­ta Pessoa para acom­pa­nhar, numa espé­cie de alu­ci­na­ção, a visi­ta dos heterô­ni­mos ao seu lei­to de mor­te).

Um dos capí­tu­los do livro sobre a mor­te de Pessoa cha­ma-se “A minha vida foi mais for­te do que eu” — e Tabucchi tomou essa fra­se como uma sor­te de mis­são: con­ju­rar a sobre­vi­vên­cia de Pessoa (e de tan­tos “outros”), fazer o pas­sa­do con­ti­nu­ar pas­san­do, num flu­xo inter­mi­ná­vel.

A fic­ção de Tabucchi pare­ce uma espé­cie de des­do­bra­men­to tei­mo­so da his­tó­ria que con­ta­va sobre seu des­co­bri­men­to de Fernando Pessoa: na déca­da de 1960, em Paris, com­pra uma edi­ção fran­ce­sa de “Tabacaria”. É nes­te poe­ma que Álvaro de Campos afir­ma: “Não sou nada/Nunca serei nada/Não pos­so que­rer ser nada/À par­te isso, tenho em mim todos os sonhos do mun­do”. Tabucchi, que ago­ra está mor­to, dedi­cou sua ener­gia cri­a­ti­va de escri­tor ao ofí­cio de rece­ber em si as vozes e os sonhos dos escri­to­res do pas­sa­do — ser, enfim, um cru­za­men­to de vozes do além, con­ten­do em si, de for­ma por­tá­til, uma his­tó­ria mui­to par­ti­cu­lar da lite­ra­tu­ra. Por con­ta dis­so, escre­veu Sonhos de sonhos, um ver­da­dei­ro exer­cí­cio de metemp­si­co­se, no qual inva­de, atra­vés da fic­ção, o incons­ci­en­te de vin­te artis­tas (entre eles Goya, Caravaggio, Freud e Pessoa).

Parte de seu apren­di­za­do, con­tu­do, tam­bém se deu fora das bibli­o­te­cas. Tabucchi cres­ceu no lito­ral da Toscana — e sem­pre fez ques­tão de fri­sar que sua Toscana não foi aque­la dos Medici (a dinas­tia res­pon­sá­vel pela rique­za e mag­ni­fi­cên­cia de Florença, por exem­plo), mas a Toscana anár­qui­ca dos por­tos. Tabucchi con­ta que, na infân­cia e ado­les­cên­cia, cir­cu­la­va por entre os idi­o­mas dos recém-che­ga­dos, apren­den­do des­de cedo a se movi­men­tar entre frag­men­tos de his­tó­ri­as, len­do o mun­do pri­mei­ro nos ros­tos rudes daque­les que che­ga­vam pelo mar (como acon­te­ceu, em Trieste, com Italo Svevo e Giani Stuparich).

Foi des­sa vivên­cia que tirou o mate­ri­al para escre­ver seu pri­mei­ro livro, Piazza d’Italia. “A úni­ca coi­sa que Garibaldo não con­se­guia com­pre­en­der na vida, era a mor­te”, assim é a fra­se que abre o pri­mei­ro capí­tu­lo des­se pri­mei­ro livro, escri­to em 1973 e publi­ca­do em 1975. Gerações da mes­ma famí­lia, em uma mes­ma cida­de da Toscana, pas­san­do por tem­pos polí­ti­cos con­tur­ba­dos — e, no per­cur­so da nar­ra­ção, Tabucchi faz com que rea­li­da­de e sonho, lou­cu­ra e sani­da­de, se mis­tu­rem.

Parte do mol­de de Piazza d’Italia está em Cem anos de soli­dão, de García Márquez, publi­ca­do na Argentina em 1967 e já no ano seguin­te tra­du­zi­do na Itália por Enrico Cicogna — pela edi­to­ra Feltrinelli, que pou­cos anos depois publi­ca­rá tam­bém a estreia de Tabucchi. Uma pro­va de que uma das mais mar­can­tes carac­te­rís­ti­cas de Tabucchi já esta­va lá des­de o iní­cio: o gos­to pelo atra­ves­sa­men­to cons­tan­te de tex­tos, tem­pos e fron­tei­ras, o que cul­mi­na sem­pre em uma fic­ção expe­ri­men­tal, na medi­da em que ensaia novas posi­ções para ima­gens já conhe­ci­das.

Na lite­ra­tu­ra de Tabucchi, fan­ta­sia e sonho estão cos­tu­ra­dos na pró­pria roti­na da vida, pre­sen­tes nos tex­tos do pas­sa­do e nos ges­tos do pre­sen­te. “Como os que invo­cam espí­ri­tos invo­cam espí­ri­tos invoco/A mim mes­mo e não encon­tro nada”, con­ti­nua o Álvaro de Campos de “Tabacaria”. Nessa lite­ra­tu­ra das fron­tei­ras, não encon­tra­mos nomes pró­pri­os — encon­tra­mos, sim, enge­nho, enig­ma e ami­za­de. A lite­ra­tu­ra como um jogo de espe­lhos, um jogo de armar. “Minhas vidas são mais for­tes que eu”, pode­ria res­pon­der Tabucchi.

* Na ima­gem que ilus­tra esse post: o escri­tor ita­li­a­no Antonio Tabucchi (1943 — 2012)

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