A moça na máquina de escrever

Correspondência

23.05.11

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Meu bem, tam­bém:

como você sabe, a cora­gem ou a bra­vu­ra são qua­li­da­des que eu admi­ro. Admiro tan­to, por­que sin­to fal­ta delas, sufi­ci­en­te­men­te, em mim. O engra­ça­do é que encon­trei em duas ami­gas ínti­mas, como são você e Helô, a bra­vu­ra e a cora­gem onde, mui­tas vezes, pego caro­na ao me lem­brar da ati­tu­de de uma e de outra em fren­te à vida e vou com vocês em punho, cada uma com sua sigla, que em você lem­bra uma arma de fogo, MRK, e nela a de uma bom­ba de gás, HBH! Enquanto a minha lem­bra, ape­nas, um ruí­do fanho­so de alí­vio, AFF.

Parece brin­ca­dei­ra. É e não é. Já que não saio sem vocês nos meus col­dres; nun­ca saio de mim, esque­cen­do-as. A minha vida inte­ri­or pre­ci­sa des­se… ali­men­to, des­ses exem­plos, que me aju­dam até quan­do pen­so como um machis­ta part time que sou: se uma mulher pode, como um homem não pode­rá? Usufruir da pró­pria sen­si­bi­li­da­de é o mai­or bara­to, mas ser gover­na­do por ela, como é o meu caso, é um desas­tre, pre­ci­so de aju­da. E ain­da: bri­gar e impli­car com vocês, quan­do pin­ta, é uma pro­va daque­las, é uma pro­va oral de mate­má­ti­ca pre­ci­san­do de nota, é como ir para uma aca­de­mia e malhar até can­sar, ou ir para um rin­gue e trei­nar à vera, ain­da mais por­que as opo­nen­tes — uma de cada vez, por favor — conhe­cem a fun­do o adver­sá­rio, com mui­tos cal­ca­nha­res de Aquiles, e com uma sen­si­bi­li­da­de à dor, e, por­tan­to, com um “quei­xo de vidro” que não dá para pro­te­ger em nenhum momen­to, satis­fa­to­ri­a­men­te.

A fra­gi­li­da­de expos­ta, quan­do por escri­to, fica exa­ge­ra­da. Afinal, tenho a minha “nava­lha na liga”: o ran­cor que dura anos, com­pa­nhia mal­sã, mas com­pa­nhia, que, às vezes, aca­ba me cor­tan­do mais do que ao outro. Até por­que o que pode ser mais ínti­mo que um ini­mi­go bem plan­ta­do e cul­ti­va­do? Como esque­cê-lo?

Quanto à fobia, você sabe, tive a minha na ida­de que você teve a sua e que durou dois anos. Foi fogo na rou­pa. Tenho a impres­são que nin­guém se cura defi­ni­ti­va­men­te de um tro­ço des­ses. Tenho a impres­são que nin­guém se cura de nada, por assim dizer. Pelo menos eu, defi­ni­ti­va­men­te, não me curo. Vou sen­do remen­da­do, vida afo­ra, até o dia em que o pat­chwork não vai aguen­tar mais, e se ras­ga­rá, sem remé­dio, na últi­ma lava­gem, fican­do impres­tá­vel mes­mo para o uso casei­ro. No máxi­mo, pode­rá ser apo­sen­ta­do, guar­da­do por quem, e por quan­to tem­po?

É o que vivo me per­gun­tan­do nes­ses dias con­ta­dos aqui nes­sa tela, nes­sa jane­la ilu­mi­na­da, ou no escu­ro do quar­to fecha­do. Dias con­ta­dos, sim, não foi à toa que essa expres­são saiu espre­mi­da.

Falando nis­so, em espre­mer e expri­mir, achei bela, bela, a his­tó­ria do seu outro nas­ci­men­to, pois eu con­si­de­ro que come­çar a escre­ver para fora, para publi­ca­ção, é um tipo de nas­ci­men­to, já que a gen­te não sabe que cara vamos ter no que vai sain­do escri­to e escar­ra­do. A ima­gem de apoi­ar a tes­ta na máqui­na e tirar um soni­nho por cer­ca de dez minu­tos para ganhar for­ça e cla­re­za, como se tives­se sen­do ama­men­ta­da por si mes­ma, mere­cia ser pin­ta­da à la Vermeer (não faço por menos): “A moça na máqui­na de escre­ver” é o títu­lo do qua­dro ima­gi­ná­rio! Como com­pre­en­do esse esfor­ço que escre­ver impõe, em qual­quer qua­dra da vida. Se não fos­se assim, como pode­ria ter escri­to, sema­na pas­sa­da, o que segue em bai­xo com a tin­ta ain­da fres­ca e com um bei­jo:

ESCRITO

A mão pas­sa espre­mi­da

por entre as gra­des

[a sen­sa­ção é essa]

e apa­nha a cane­ta

do outro lado, e escre­ve

assim, cons­tran­gi­da

sobre­tu­do, sobre o mun­do

de den­tro, de fora, mas

sem­pre sobra, fal­ta algu­ma coi­sa

quan­do já se lar­gou

a cane­ta para a mão sair

do aper­to, e quan­do se ten­ta

apa­nhá-la de novo para

o acrés­ci­mo, cor­te, repa­ro

ela rolou, lon­ge do meu alcan­ce.

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