A Nise da Silveira que eu conheci

Artes

13.07.12

 

Já se dis­se que o lugar-comum tem lá seu valor, e por isso fico mui­to ten­ta­da a come­çar este post com o bati­dís­si­mo “é com gran­de emo­ção que…”. Não come­ço, mas che­go per­to: foi com espe­ci­al entu­si­as­mo que no iní­cio des­te 2012 rece­bi de Heloisa Espada, coor­de­na­do­ra de artes visu­ais do IMS, a notí­cia de que a ins­ti­tui­ção expo­ria obras de Raphael Domingues e Emygdio de Barros, os dois artis­tas que a admi­rá­vel psi­qui­a­tra Nise da Silveira des­co­briu nos ate­li­ês por ela fun­da­dos no Hospital Pedro II, no Rio de Janeiro.

Enquanto escre­vo, aqui no segun­do andar, a expo­si­ção Raphael e Emygdio, dois moder­nos no Engenho de Dentro, que rece­be cura­do­ria de Rodrigo Naves e Heloisa Espada, está sen­do mon­ta­da no tér­reo. Alguns degraus abai­xo, na dire­ção do jar­dim, a Pequena Galeria apre­sen­ta­rá Nise da Silveira: cami­nhos de uma psi­qui­a­tra rebel­de, que tem Luiz Carlos Mello como cura­dor.

Conheci Nise da Silveira em 1988, quan­do come­cei a fre­quen­tar o Grupo de Estudos C.G.Jung, que ela coor­de­na­va sen­ta­da à cabe­cei­ra de uma mesa retan­gu­lar rode­a­da de ban­cos tos­cos, onde os gatos Mestre Onça e Cléo cir­cu­la­vam com a gen­ti­le­za pró­pria de anfi­triões.

O des­po­ja­men­to da vida coti­di­a­na da Doutora, como a cha­má­va­mos, con­tras­ta­va com a gran­de­za de seus ges­tos e com o requin­te de seu méto­do de tra­ba­lho que, como se sabe, teve no estu­do das ima­gens pro­du­zi­das pelos cli­en­tes (ela não usa­va o ter­mo doen­te, esqui­zo­frê­ni­co, ou mes­mo paci­en­te), o las­tro para suas teses. Ela cons­ta­tou que os remé­di­os ape­nas encur­tam o perío­do de per­ma­nên­cia do doen­te no hos­pi­tal, mas não dimi­nu­em a frequên­cia de inter­na­ções. Pregou, com vee­mên­cia que o obje­ti­vo do tra­ta­men­to psi­quiá­tri­co não podia mais con­ti­nu­ar sen­do a tran­si­tó­ria remo­ção de sin­to­mas.

Ao che­fe que lhe man­dou aper­tar o botão para desen­ca­de­ar o ele­tro­cho­que no  paci­en­te psi­quiá­tri­co, olhou o médi­co com seus “buga­lhos enor­mes”, como cha­mou Graciliano Ramos aos seus olhos, e dis­se com fir­me­za: “Não aper­to”.

Em vez do recur­so que jul­ga­va vio­len­to e, na sua opi­nião, avil­ta­va a dig­ni­da­de do paci­en­te, con­se­guiu par­cos recur­sos e fun­dou, no mes­mo Hospital Pedro II, onde tra­ba­lha­va, ate­li­ês de dese­nho, pin­tu­ra e mode­la­gem. Passou a se dedi­car ao estu­do das ima­gens como for­ma não-agres­si­va de tra­ta­men­to. Pinçava, na pro­du­ção dos cli­en­tes, ele­men­tos que indi­cas­sem o pro­ces­so em evo­lu­ção no incons­ci­en­te. Para espan­to seu, viu sur­gi­rem, nos ate­li­ês, dese­nhos, pin­tu­ras e escul­tu­ras de ine­gá­vel qua­li­da­de artís­ti­ca. Ignorou os que lhe atri­buíam inte­res­se em des­co­brir talen­tos novos. Como foi difí­cil fazer enten­der — e duvi­da­va ter con­se­gui­do — que,  embo­ra os cli­en­tes jamais fos­sem indu­zi­dos a fazer qual­quer tipo de dese­nho, nada os impe­dia de trans­for­mar suas vivên­ci­as inter­nas, mui­tas vezes ater­ra­do­ras, em ima­gens plas­ti­ca­men­te belas.

De acor­do com sua teo­ria, a ima­gem encer­ra valor duplo: em pri­mei­ro lugar, dá ao pes­qui­sa­dor ele­men­tos para com­pre­en­der, ou pelo menos ten­tar com­pre­en­der, os pro­ces­sos inter­nos que se desen­vol­vem na psi­que cin­di­da: “É atra­vés des­sas mani­fes­ta­ções expres­si­vas que nos é dado pene­trar no mun­do inte­ri­or dos psi­có­ti­cos”,  afir­ma. Em segun­do lugar, repre­sen­ta, para o seu autor, um meio de des­po­ten­ci­a­li­zar a for­ça des­trui­do­ra do incons­ci­en­te.

No Grupo C. G Jung, que fre­quen­tei assi­du­a­men­te às quar­tas-fei­ras, nin­guém esca­pa­va à agu­de­za do olhar da Doutora, por isso não tar­dou que ela me cha­mas­se para aju­dá-la na revi­são de seus tex­tos ou fazer  peque­nas tra­du­ções. Durante o perío­do em que atu­ei como sua cola­bo­ra­do­ra, sem ganhar um cen­ta­vo mas rece­ben­do uma for­tu­na, vivi num “cati­vei­ro feliz”, expres­são que usou o escri­tor argen­ti­no Alberto Manguel na sua deli­ci­o­sa A his­tó­ria da lei­tu­ra, refe­rin­do-se ao perío­do em que lia em voz alta para Jorge Luis Borges, cego. Foi com ela que apren­di a con­ci­li­ar dever e pra­zer.

No cati­vei­ro de Nise da Silveira, as tré­guas con­sis­ti­am em des­con­tra­ção de minu­tos para, em segui­da, retor­nar­mos natu­ral­men­te ao estu­do, ao silên­cio. Daí a mais uma hora, nova brin­ca­dei­ra, novo inter­va­lo, e o espon­tâ­neo retor­no ao livro. Era uma dis­ci­pli­na rigo­ro­sa e natu­ral a um só tem­po. E ela sabia como com­pen­sar os sacri­fí­ci­os:  deu-me de pre­sen­te na pás­coa daque­le mes­mo ano de 1988 o La poé­ti­que de l’espace, de Gaston Bachelard, lei­tu­ra que me abriu um mun­do. Daí par­ti por minha con­ta para outras des­co­ber­tas, tam­bém com Bachelard: a bele­za da imper­fei­ção em O direi­to de sonhar, no capí­tu­lo em que, comen­tan­do as obser­va­ções de Jacques Brosse sobre o pês­se­go, o autor lem­bra que a per­fei­ção des­sa fru­ta vem jus­ta­men­te das suas irre­gu­la­ri­da­des: “a bola do pês­se­go não é jamais uma esfe­ra”.

Assim, entre Bachelard e mui­tos outros auto­res, além de Jung, sem­pre Jung, pas­sa­mos, eu e a minha que­ri­da Doutora, incon­tá­veis tar­des em onze anos, de 1988 até a sua mor­te, em 1999. Está cla­ro que, duran­te os nos­sos encon­tros, eu não dei­xa­va de lhe fazer con­fi­dên­ci­as, con­tar um sonho e pres­tar aten­ção ao comen­tá­rio que ela gene­ro­sa­men­te fazia. Foi a par­tir de uma das suas inter­pre­ta­ções de um sonho meu que a minha vida mudou. Mas isso é outra his­tó­ria.

Das lem­bran­ças tão caras de nos­sa con­vi­vên­cia, rela­to aqui uma que já con­tei em livro e que com­pro­va a lar­gue­za de espí­ri­to des­sa mulher extra­or­di­ná­ria:

Encerrávamos o tra­ba­lho no seu apar­ta­men­to-bibli­o­te­ca, no quin­to andar de um pré­dio modes­to da rua Marquês de Abrantes, por vol­ta das sete da noi­te. Em segui­da, eu a acom­pa­nha­va até o quar­to andar, o apar­ta­men­to-resi­dên­cia, e ali me des­pe­dia. Muitas vezes, porém, ela insis­tia em que eu ficas­se para o jan­tar, refei­ção leve que, de modo geral, cons­ta­va de uma sopa de arroz inte­gral com legu­mes.

Certa noi­te em que acei­tei o con­vi­te, sen­ta­mo-nos à mesa para aguar­dar que a empre­ga­da nos ser­vis­se. Mas a moça tinha ciú­mes da dona da casa. Eu não esca­pa­va à hos­ti­li­da­de da empre­ga­da e, ape­sar dis­so, lá esta­va, à espe­ra do jan­tar. Para a minha anfi­triã, vi che­gar a sopa quen­ti­nha, o chei­ro anun­ci­an­do o sabor. Para mim, uma xíca­ra de café com lei­te frio e um pão­zi­nho, tam­bém frio, ligei­ra­men­te aman­tei­ga­do. O café  devia ser o que sobra­ra do almo­ço, era tur­vo e não tinha o aro­ma tão conhe­ci­do. A xíca­ra esta­va fria.

A Doutora olhou aten­ta­men­te para a refei­ção que me tinha sido des­ti­na­da e, sem levan­tar o tom de voz, mas mui­to pau­sa­da e sere­na­men­te, dis­se:

- Pode levar a minha sopa. Quero o mes­mo que a Elvia.

Falou com tal fir­me­za e supe­ri­or dig­ni­da­de que me dei­xou impe­di­da de con­tes­tar sua ordem, ain­da que eu me sen­tis­se no dever de lhe lem­brar a reco­men­da­ção médi­ca para a ali­men­ta­ção ade­qua­da aos seus 89 anos de ida­de, na oca­sião. Constrangia-me aque­la soli­da­ri­e­da­de tor­ren­ci­al; não me jul­ga­va mere­ce­do­ra. A empre­ga­da, por moti­vos dife­ren­tes dos meus, não se sen­tiu menos inti­mi­da­da. Limitou-se a reti­rar o pra­to e tra­zer, con­for­me a ordem, mais um café com lei­te frio e um pão­zi­nho magro de man­tei­ga.

A con­tun­dên­cia da ati­tu­de da Doutora me des­nor­te­ou. Eu já não sabia se me pre­o­cu­pa­va com sua saú­de, se me enver­go­nha­va dian­te da nobre­za de sua renún­cia, ou se tudo — ima­gi­na­va — não pas­sa­va de uma gran­de brin­ca­dei­ra.  Misto de emo­ção, estra­nha­men­to, per­ple­xi­da­de.

Partilhamos nos­sa refei­ção em silên­cio. Não tro­ca­mos uma pala­vra. Antes de dei­xá-la, uni­mos demo­ra­da­men­te nos­sas faces, tam­bém em silên­cio, e, ao me des­pren­der do abra­ço, per­ce­bi que um sor­ri­so leve­men­te irô­ni­co se pro­lon­ga­va no can­to de seu olho.

Minha dívi­da para com ela é imen­sa. Irrestrita é a minha admi­ra­ção, e não é menor o pri­vi­lé­gio de rece­bê-la no lugar onde tra­ba­lho.

Nise da Silveira man­te­ve cla­ra sua pro­pos­ta ao lon­go da vida: reco­nhe­cer a com­ple­xi­da­de das con­di­ções psí­qui­cas que se afas­tam das ditas nor­mais e pro­ce­der à inves­ti­ga­ção des­ses “dife­ren­tes esta­dos do ser” como cha­mou Antonin Artaud ao pro­ces­so de desin­te­gra­ção da psi­que. O méto­do de pes­qui­sa? O da tera­pêu­ti­ca ocu­pa­ci­o­nal, da qual ela nun­ca se afas­ta­ria e que lhe per­mi­tiu estu­dos de casos hoje clás­si­cos da psi­qui­a­tria, como os de Raphael e Emygdio, cujas obras rece­bem novas luzes na expo­si­ção que se inau­gu­ra no dia 14 de julho.

* Na ima­gem que ilus­tra o post: a psi­qui­a­tra Nise da Silveira e o artis­ta Raphael Domingues.

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