A noite da virada e a crise da comédia

No cinema

19.12.14

Existe sal­va­ção para a comé­dia bra­si­lei­ra? Há cami­nhos a tri­lhar que não desem­bo­quem no beco sem saí­da das glo­bo­chan­cha­das imbe­ci­li­zan­tes estre­la­das por Leandro Hassum ou por Ingrid Guimarães? Espero sin­ce­ra­men­te que sim, e é essa espe­ran­ça que me leva ao cine­ma para con­fe­rir todo fil­me que pos­sa sig­ni­fi­car um res­pi­ro no pano­ra­ma um tan­to depri­men­te do humor naci­o­nal.

A ten­ta­ti­va da vez foi com A noi­te da vira­da, lon­ga de estreia de Fábio Mendonça, jovem dire­tor oriun­do da publi­ci­da­de e da ani­ma­ção. É uma comé­dia base­a­da na peça tea­tral Banheiro, de Pedro Vicente, e se pas­sa toda numa fes­ta de réveil­lon numa casa pau­lis­ta­na de clas­se média alta. 

O elen­co, hete­ro­gê­neo ao extre­mo, mis­tu­ra astros como Marcos Palmeira e Luana Piovani a cômi­cos vin­dos da inter­net (Júlia Rabello, Daniel Furlan, Juliano Enrico) e vete­ra­nos como Anselmo Vasconcelos e Tony Tornado. O entre­cho, como seria de espe­rar, envol­ve reve­la­ções, trai­ções, bebe­dei­ras, sedu­ções, mal-enten­di­dos.

Subjetividade do humor

Não espe­re nenhum O con­vi­da­do bem tra­pa­lhão ou Cerimônia de casa­men­to. Blake Edwards e Robert Altman não foram con­vi­da­dos. Mas há boas pia­das, um rit­mo razoá­vel e óti­mas atu­a­ções (sobre­tu­do de Furlan e Enrico, como uma impa­gá­vel dupla de maco­nhei­ros). A des­pei­to de uma dire­ção irre­gu­lar, de cer­ta his­te­ria de tom, de um punha­do de cli­chês (a gor­di­nha enca­lha­da, a nin­fo­ma­nía­ca, o tara­do de meia-ida­de) e de uma ênfa­se em banhei­ros e latri­nas que bei­ra o esca­to­ló­gi­co, é uma comé­dia hones­ta, pro­du­zin­do mais riso que irri­ta­ção. Ao menos para mim – e aqui o uso da pri­mei­ra pes­soa se impõe, pois o humor é algo ine­vi­ta­vel­men­te sub­je­ti­vo.

A gra­ça – em qual­quer sen­ti­do des­sa lin­da pala­vra – é sem­pre inson­dá­vel e fugi­dia. O que faz uma pes­soa rachar de rir dei­xa outra indi­fe­ren­te ou até irri­ta­da. A noi­te da vira­da me pro­por­ci­o­nou mais riso que irri­ta­ção, o que já é mui­to no atu­al con­tex­to.

E aqui vol­ta­mos ao assun­to do iní­cio, a ina­ni­ção da comé­dia bra­si­lei­ra. Mas será que isso é novi­da­de? Talvez não. É ver­da­de que tive­mos as chan­cha­das, o humor popu­lar de Mazzaroppi e dos Trapalhões, as comé­di­as de Hugo Carvana. Mas, se obser­var­mos bem, na mai­or par­te dos casos o êxi­to des­ses fil­mes depen­dia mui­to mais do talen­to dos cômi­cos do que de valo­res pro­pri­a­men­te cine­ma­to­grá­fi­cos. Em outras pala­vras: come­di­an­tes exce­len­tes, comé­di­as nem tan­to.

Nos últi­mos cin­quen­ta anos, con­tam-se nos dedos nos­sas comé­di­as ple­na­men­te bem-suce­di­das do pon­to de vis­ta cine­ma­to­grá­fi­co: Todas as mulhe­res do mun­doMacunaímaVai tra­ba­lhar vaga­bun­doLadrões de cine­ma (peque­na obra-pri­ma pou­co vis­ta de Fernando Coni Campos), Tudo bem

Há, cla­ro, as “comé­di­as auto­rais” de Jorge Furtado (O homem que copi­a­vaMeu tio matou um caraSaneamento bási­co) ou Domingos de Oliveira (AmoresSeparaçõesPrimeiro dia de um ano qual­quer), as fan­ta­si­as cômi­cas de Claudio Torres (RedentorA mulher invi­sí­velO homem do futu­ro), as come­di­nhas român­ti­cas de Sandra Werneck ou Betse de Paula. Mas onde está a gran­de comé­dia bra­si­lei­ra, que con­si­ga fazer rir as mas­sas sem ofen­der a sen­si­bi­li­da­de do crí­ti­co e do ciné­fi­lo?

Graça cine­ma­to­grá­fi­ca

Talvez a limi­ta­ção não seja só bra­si­lei­ra. Observando bem a his­tó­ria da comé­dia mun­di­al, qua­se sem­pre os cômi­cos (de Oscarito a Totó, de Cantinflas a Jerry Lewis, dos irmãos Marx a Ugo Tognazzi, de Massimo Troisi a Renato Aragão) foram mai­o­res que os fil­mes que pro­ta­go­ni­za­ram. São mui­to pou­cos os cine­as­tas que fize­ram da comé­dia uma arte essen­ci­al­men­te cine­ma­to­grá­fi­ca, ou seja, que desen­vol­ve­ram uma mise-en-scè­ne e uma mon­ta­gem cômi­cas, e não ape­nas uma con­ti­nu­a­ção do tea­tro, do cir­co ou do vau­de­vil­le: Ernst Lubitsch, Billy Wilder, Jacques Tati, Blake Edwards, Mario Monicelli…

No cine­ma atu­al, ves­tí­gi­os des­sa gran­de arte podem ser detec­ta­das em fil­mes de Tim Burton, dos irmãos Coen e de pou­cos outros. Para que não soe dema­si­a­do abs­tra­to e arbi­trá­rio, tome­mos um exem­plo qua­se banal. Em Fargo, dos Coen, há uma cena em que um cri­mi­no­so enter­ra na neve, jun­to a uma cer­ca na bei­ra da estra­da, o pro­du­to de um rou­bo ou coi­sa que o valha. Terminado o ser­vi­ço, ele olha para um lado. A cer­ca con­ti­nua, sem­pre igual, a per­der de vis­ta na pla­ní­cie bran­ca. Olha para o outro lado, a mes­ma coi­sa. Nenhum pon­to de refe­rên­cia ao lon­go de quilô­me­tros. Contando assim, não tem a menor gra­ça – e é jus­ta­men­te esse o pon­to. A gra­ça só se rea­li­za no cine­ma, e por seus mei­os espe­cí­fi­cos.

Outro exem­plo, tam­bém dos Coen, é o seguin­te tre­cho de Queime depois de ler, em que o per­so­na­gem de George Clooney é toma­do de para­noia e inter­pre­ta tudo que o cer­ca como uma cons­pi­ra­ção. Claro que há dois bons ato­res em cena. Mas tudo é uma ques­tão de enqua­dra­men­to, de des­lo­ca­men­to do pon­to de vis­ta. Pode-se não gos­tar, mas é humor, e é cine­ma:

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