A odisseia urbana de Karim Aïnouz

No cinema

26.04.13

"O abismo prateado", de Karim Aïnouz

O abis­mo pra­te­a­do, novo fil­me de Karim Aïnouz, come­ça com as ima­gens sôfre­gas, frag­men­ta­das, de um nada­dor soli­tá­rio num mar notur­no. O homem, a vas­ti­dão da natu­re­za. Em segui­da, esse per­so­na­gem sai da água, está na praia, logo cami­nha trô­pe­go e ain­da semi­nu pelas ruas movi­men­ta­das de uma gran­de cida­de. É Copacabana, Rio de Janeiro.

Esse trân­si­to do líqui­do ao con­cre­to, da natu­re­za à cul­tu­ra, da soli­dão ao con­ví­vio urba­no, do atem­po­ral ao his­tó­ri­co, é um momen­to for­te do cine­ma recen­te, e con­fir­ma o vigor sutil — se é pos­sí­vel o para­do­xo — do dire­tor de Madame Satã e O céu de Suely.

http://www.youtube.com/watch?v=nHPLfci-mEY

Há cine­as­tas do con­tar e cine­as­tas do mos­trar. Os pri­mei­ros são os que se pre­o­cu­pam pri­o­ri­ta­ri­a­men­te com o enre­do, com a his­tó­ria a ser nar­ra­da. O fil­me é só um meio de expor ou ilus­trar essa his­tó­ria pre­e­xis­ten­te. Os segun­dos apos­tam tudo, ou qua­se, na for­ça das ima­gens para reve­lar e/ou cri­ar um mun­do que não exis­tia pre­vi­a­men­te ao momen­to da fil­ma­gem.

Exemplos do pri­mei­ro time: Woody Allen, Ettore Scola, Jorge Furtado. Do segun­do: Orson Welles, Stanley Kubrick, Rogério Sganzerla. Karim Aïnouz se filia, evi­den­te­men­te, ao segun­do gru­po, ain­da que seu cine­ma per­ma­ne­ça den­tro dos mar­cos da fic­ção rea­lis­ta.

Melhor que a enco­men­da

Dentro da obra em pro­gres­so de Karim, O abis­mo pra­te­a­do ocu­pa um lugar pecu­li­ar. Primeiro, por ser um fil­me de enco­men­da do pro­du­tor. Segundo, por ser ins­pi­ra­do numa can­ção — “Olhos nos olhos”, de Chico Buarque. Manter a mar­ca pes­so­al e a liber­da­de de cri­a­ção tra­ba­lhan­do sob essas duas cons­tri­ções foi o desa­fio enfren­ta­do com brio pelo dire­tor. O abis­mo é um fil­me poten­te e belo, ain­da que irre­gu­lar.

Seu entre­cho cabe numa úni­ca linha: 24 horas na vida de uma mulher que aca­ba de ser aban­do­na­da pelo mari­do. É o que bas­ta para o cine­as­ta cri­ar uma sin­fo­nia (em geral dis­so­nan­te) de sen­sa­ções e atmos­fe­ras, cobrin­do um arco que vai da deso­ri­en­ta­ção ao apa­zi­gua­men­to, pas­san­do pelo deses­pe­ro, pela ansi­e­da­de, pelo pâni­co, pelo vazio…

"O abismo prateado", de Karim Aïnouz

A pri­mei­ra ter­ça par­te do fil­me, a meu ver, é a mais feliz, ao cen­trar seu foco no cor­po dos per­so­na­gens: pri­mei­ro no do mari­do, Djalma (Otto Jr., o homem que sai do mar), em segui­da nos dois jun­tos na cama, por fim no da soli­tá­ria Violeta (Alessandra Negrini). Ao saber-se aban­do­na­da, ela entra em cho­que com o mun­do à sua vol­ta, seja em seu con­sul­tó­rio de den­tis­ta, sobre sua bici­cle­ta entre car­ros hos­tis ou num baru­lhen­to pré­dio em cons­tru­ção. Um mun­do em que tudo é ares­ta, qui­na, ruí­do, des­vão, ame­a­ça.

Penélope às aves­sas

No auge des­sa deri­va urba­na, des­sa desa­ven­ça da pro­ta­go­nis­ta com o ambi­en­te, há uma cena curi­o­sa, em que ela sai do can­tei­ro de obras e entra num mata­gal vizi­nho, numa espé­cie de fuga ani­mal sem moti­vo apa­ren­te — senão o de rea­li­zar em sen­ti­do con­trá­rio o trân­si­to do iní­cio do fil­me, entre a natu­re­za e a cida­de.

Aïnouz con­se­gue, de res­to, trans­for­mar uma his­tó­ria de para­li­sia afe­ti­va num dra­ma de des­lo­ca­men­to, bem ao seu gos­to. Além de colo­car em cena per­so­na­gens des­gar­ra­dos — como o pai e a filha que Violeta encon­tra na praia, já per­to do final -, ele tra­ça o péri­plo da pro­ta­go­nis­ta por uma suces­são de luga­res de pas­sa­gem: pré­dio em cons­tru­ção, táxi, hotel, boa­te, aero­por­to. É des­sa dia­lé­ti­ca entre o movi­men­to e a fixi­dez — já que no fun­do a per­so­na­gem não sai do mes­mo lugar — que o fil­me extrai sua for­ça e sua ori­gi­na­li­da­de. Violeta é uma Penélope às aves­sas, que em vez de espe­rar o retor­no do homem rea­li­za, ela pró­pria, a sua odis­seia.

Laranja mecâ­ni­ca

Não pode pas­sar bati­do o relan­ça­men­to, em cópia nova, de uma obra-pri­ma abso­lu­ta, Laranja mecâ­ni­ca, de Stanley Kubrick, que estreia hoje no CineSesc, em São Paulo. Uma opor­tu­ni­da­de úni­ca de ver ou rever num dos melho­res cine­mas da cida­de uma obra que mar­cou épo­ca não só pelo tema — a vio­lên­cia sis­te­má­ti­ca do Estado ver­sus a vio­lên­cia anár­qui­ca do indi­ví­duo -, mas sobre­tu­do pelo cará­ter visi­o­ná­rio de suas ima­gens e sons. Mais do que a tris­te atu­a­li­da­de de seu assun­to, é a bele­za ter­rí­vel de sua poé­ti­ca audi­o­vi­su­al que man­tém esse fil­me mais vivo do que nun­ca. Aqui, como ape­ri­ti­vo, o trai­ler ori­gi­nal:

http://www.youtube.com/watch?v=G7fO3bzPeBQ

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