A preguiça do samba

Correspondência

27.04.11

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Oi, ami­go

aca­bo de ler a série de poe­mas sobre o cor­po. Ainda bem que tenho um pou­co de tem­po (tem­po…) de silên­cio em mim depois da sua poe­sia e antes da pró­xi­ma ses­são. Conheço todos eles, dos res­pec­ti­vos livros. Mas o impac­to de ler todos segui­dos é gran­de. Além des­se, de que não me lem­bra­va. “Cinquenta e tan­tos anos”: “Escrevo por­que escre­vo”… etc. Não, seus poe­mas não são de um con­tem­pla­ti­vo. Mas são de alguém que tem tem­po livre, sim (mes­mo que no meio da casa em movi­men­to), e acho que você só enten­de­ria do que eu estou falan­do se tives­se a vida de “car­te­la pre­en­chi­da” que eu tenho. E não pen­se que eu con­si­de­re isso uma van­ta­gem. Tenho tira­do féri­as sozi­nha, em luga­res ermos que você sabe quais são (não vou usar o blog para fazer pro­pa­gan­da, meu sonho é que con­ti­nu­em pelo menos um pou­co ermos) e per­ce­bo a dife­ren­ça. Nesse verão escre­vi, escre­vi, escre­vi, por neces­si­da­de. Porque o tem­po livre abre espa­ço para a voz inter­na. Mas na vida que levo em São Paulo, a pul­sa­ção é outra. Já te con­tei que escre­vo qua­se tudo — poe­mas, car­tas, arti­gos de jor­nal — na cabe­ça, em movi­men­to, e depois pas­so para o papel. Mas a pul­sa­ção da cida­de, e a minha den­tro dela, me pro­vo­ca outra escri­ta. As crô­ni­cas do Estadão por exem­plo, no ano pas­sa­do, eu escre­via men­tal­men­te, em movi­men­to, e só depois, ao digi­tar, cor­ri­gia e dava a for­ma final. O tem­po da poe­sia, tem­po inter­no, mes­mo, como você diz e sabe, é outro. Tenho qua­se ver­go­nha de con­tar a alguém como você, das vezes em que tenho o impul­so de escre­ver algo fora do pro­fis­si­o­nal (arti­gos, con­fe­rên­ci­as e tal) e, de tão can­sa­da, pen­so: depois, depois. Claro que, quan­do che­ga o tal depois, o momen­to já não é o mes­mo que eu supu­nha e nem me lem­bro mais o que moti­vou meu impul­so supos­ta­men­te poe­ti­zan­te ou poe­ti­za­dor. Fico tris­te e resig­na­da com a situ­a­ção. Gostaria de saber o que você acha des­sa resig­na­ção.

Só pra me con­so­lar, te con­to que este ano o ciclo de con­fe­rên­ci­as orga­ni­za­do pelo Adauto (Novaes) é sobre a pre­gui­ça, e eu deci­di sair com­ple­ta­men­te da psi­ca­ná­li­se e falar sobre “A pre­gui­ça no sam­ba”. Se te inte­res­sar — não o ciclo todo, mas o que vou falar lá -, te con­to um pou­co. Não conhe­ço um sam­ba que inclua a pala­vra pre­gui­ça pro­pri­a­men­te. O clás­si­co “Samba e amor”, do Chico, por exem­plo, fala de mui­to sono de manhã, mas não men­ci­o­na a pre­gui­ça que é o tema óbvio dele. A pre­gui­ça, ou seja, o aves­so da dis­po­si­ção para o tra­ba­lho, vai aí como con­di­ção de se fazer sam­ba (e amor…) noi­te aden­tro enquan­to a cida­de alar­de do lado de fora. Como se isso não fos­se tra­ba­lho! Na tra­di­ção do sam­ba, que vem lá do final­zi­nho do sécu­lo XIX e come­ço do XX, a pre­gui­ça se cha­ma orgia, boe­mia, malan­dra­gem, vadi­a­gem. “Eu digo e serei capaz/ de não resistir/ nem é bom falar/ se a orgia se aca­bar” (Ismael Silva). “A malan­dra­gem eu não pos­so deixar/ juro por Deus, e por nos­sa senhora/ que é mais fácil ela me aban­do­nar, meu Deus do céu, que mal­di­ta hora” (Sinhô).

Fui ler o comen­tá­rio de nos­so que­ri­do Antonio Candido sobre as Memórias de um sar­gen­to de milí­ci­as, que tem como pro­ta­go­nis­ta a figu­ra do malan­dro, cer­ca­do da gen­te miú­da que, excluí­da do par­co uni­ver­so do tra­ba­lho for­mal no Rio oito­cen­tis­ta (e escra­va­gis­ta), vivem na “vira­ção”. Li o Nabuco, para enten­der quan­to a escra­vi­dão des­mo­ra­li­zou o tra­ba­lho livre, não só entre os negros liber­tos, já explo­ra­dos à exaus­tão, mas tam­bém entre os bran­cos pobres. “Branco não car­re­ga paco­te”, dizia à meni­na Helena Morley uma das tias pedan­tes, na Diamantina pós-escra­vi­dão. O tra­ba­lho pesa­do con­ti­nu­ou a pesar nos ombros dos negros, os mes­mos que trou­xe­ram o sam­ba, os mes­mos que, quan­do podi­am esco­lher, fugi­am da labu­ta para a orgia. Porque “nin­guém enten­de como é que dói” a tal labu­ta daque­les que têm que “tra­ba­lhar em Madureira, via­jar na Cantareira e morar em Niterói” (Gordurinha).

Eu, que não sou pre­gui­ço­sa mas sou apres­sa­da (e às vezes con­si­de­ro a pres­sa uma espé­cie dis­far­ça­da de pre­gui­ça, pois faço as coi­sas cor­ren­do só pra ver se me livro logo delas…só que quan­to mais depres­sa eu tra­ba­lho, mais tra­ba­lho me apa­re­ce), que­ro fazer um elo­gio sin­ce­ro do ócio cri­a­ti­vo e de sua expres­são no sam­ba, esse gêne­ro indis­so­ciá­vel do cal­dei­rão de mitos que é o seu, o nos­so, Rio de Janeiro. Quando vou ao Rio, prin­ci­pal­men­te ao cami­nhar pelas regiões que os cari­o­cas do Leblon cha­mam de “Rio ruim”, res­pi­ro um pou­co do que res­tou do ar que res­pi­ra­ram Cartola, Donga, Sinhô, Ismael Silva, Nelson Cavaquinho, Wilson Batista. Sem con­tar, é cla­ro, Noel Rosa, “Sinhô de pele mais clara/ em qual Sinhô encarnara/ a alma sono­ra do sam­ba”. (Silvio Caldas)

E só pra não me sen­tir tão resig­na­da com a fal­ta de tem­po para a poe­sia, te man­do duas das que você mes­mo cha­mou de “suí­te do Rio” — está ven­do?, no Rio, onde fico fla­nêur como Baudelaire, ain­da me acon­te­ce de cri­ar um poe­ma ou outro. Aí vão, com um bei­jo, Rita.

Ponte aérea                                                                                 Guanabara 

A cida­de só não rói o que é de pedra                                   A tar­de reco­lhe os res­tos
o res­to é uma infla­ma­ção                                                         do dia que não enxer­ga
 pre­sas no fun­do da rede
tre­pa pelas escar­pas                                                                   tími­das las­cas de pra­ta
con­ta­mi­na cur­sos d’água:                                                        inú­teis para o repas­to
febre de qua­ren­ta graus.

Do outro lado o oce­a­no                                                              pas­sa a vida fei­to cega
bicho bom                                                                                        ao esplen­dor dos con­tras­tes
não se can­sa de lam­ber as bor­das da feri­da.                   tudo sobra tudo exce­de
 tudo fin­da antes do pra­zo.

 

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