O cineasta Tião

O cineasta Tião

A revolução dos bichos

No cinema

09.06.17

Dezenove fil­mes do Festival Varilux de Cinema Francês estão em car­taz no cine­ma do IMS Rio nes­te mês de junho. Animal polí­ti­co tam­bém faz par­te da pro­gra­ma­ção do mês na Sala José Carlos Avellar.

É tem­po de cine­ma fran­cês nas telas bra­si­lei­ras. O já tra­di­ci­o­nal Festival Varilux exi­be em 55 cida­des dezoi­to pro­du­ções recen­tes e iné­di­tas, além do clás­si­co Duas garo­tas român­ti­cas (1967), de Jacques Demy. Em meio à bem-vin­da inva­são gau­le­sa, um fil­me bra­si­lei­ro dos mais sur­pre­en­den­tes e ori­gi­nais cor­re o ris­co de pas­sar bati­do. Estou falan­do de Animal polí­ti­co, pri­mei­ro lon­ga-metra­gem do cine­as­ta per­nam­bu­ca­no Tião, que já foi pre­mi­a­do em Cannes com os cur­tas Muro (2008) e Sem cora­ção (2014).

Trata-se, lite­ral­men­te, de uma fábu­la, isto é, de uma nar­ra­ti­va fic­ci­o­nal em que ani­mais falam e agem como se fos­sem huma­nos. No caso, um úni­co ani­mal, uma vaca, que se com­por­ta como uma pes­soa comum mis­tu­ra­da a outras pes­so­as comuns no metrô, na aca­de­mia de ginás­ti­ca, no cabe­lei­rei­ro, na fila do pon­to de ôni­bus, em casa com a famí­lia ven­do tele­vi­são.

Humor e estra­nhe­za

O efei­to cômi­co e des­con­cer­tan­te é ime­di­a­to. A mera pre­sen­ça da vaca em ambi­en­tes que não são os seus – mas que todos os outros per­so­na­gens enca­ram com natu­ra­li­da­de – cria um estra­nha­men­to que aca­ba por ilu­mi­nar iro­ni­ca­men­te o com­por­ta­men­to huma­no na soci­e­da­de urba­na con­tem­po­râ­nea. A estra­nhe­za é ain­da mai­or pelo fato de se tra­tar cla­ra­men­te de uma fêmea, com gene­ro­sas tetas de vaca, mas cujos pen­sa­men­tos são expres­sos por uma voz mas­cu­li­na.

A par da comi­ci­da­de, a repe­ti­ção de situ­a­ções e a angús­tia trans­mi­ti­da pela voz em off ins­ti­lam aos pou­cos uma curi­o­sa melan­co­lia. Não pode haver um ser mais soli­tá­rio no mun­do do que essa vaca com voz de homem.

Quando esse pon­to de par­ti­da pare­ce ter-se esgo­ta­do e o espec­ta­dor come­ça a se per­gun­tar se o argu­men­to não cabe­ria melhor num cur­ta, o fil­me dá uma pri­mei­ra vira­da. Desiludida com a cida­de, ansi­o­sa por encon­trar seu “ver­da­dei­ro eu”, a vaca sai para o cam­po, o deser­to, as matas. Entra em cena então uma nova per­so­na­gem, uma moça nua que vive soli­tá­ria numa ilha des­de que o bar­co em que via­ja­va nau­fra­gou. A vaca é esque­ci­da por um momen­to. É toda uma seção autô­no­ma que se ini­cia, como um cur­ta enxer­ta­do no fil­me.

Mas esse sal­to impli­ca tam­bém uma mudan­ça de tom: o que come­çou como sáti­ra de cos­tu­mes do mun­do con­tem­po­râ­neo pas­sa para uma dimen­são de ale­go­ria polí­ti­ca, pois a tal moça (nome­a­da como “a cau­ca­si­a­na”) sin­te­ti­za em sua his­tó­ria e em seu dis­cur­so todo um mode­lo de domi­na­ção cul­tu­ral, raci­al e de clas­se que mar­cou nos­sa for­ma­ção.

Depois des­se inter­mez­zo, numa outra vira­da, a vaca rea­pa­re­ce mais antro­po­mor­fi­za­da (ago­ra é um homem ves­ti­do de vaca, andan­do com duas per­nas, sen­tan­do-se no sofá de casa ou no assen­to do metrô e até orde­nhan­do uma outra vaca).

Solidão meta­fí­si­ca

Tão impor­tan­te quan­to a enge­nho­si­da­de do argu­men­to e seus des­do­bra­men­tos é o modo pre­ci­so e ele­gan­te como Tião cons­trói e arti­cu­la suas ima­gens, sobre­tu­do nos gran­des pla­nos aber­tos que subli­nham a soli­dão da vaca nos mais diver­sos ambi­en­tes: num que­bra-mar deser­to com Recife ao fun­do, em estra­di­nhas de ter­ra, nos vales ári­dos do ser­tão. A ima­gem é sem­pre lím­pi­da, trans­lú­ci­da, de imen­si­dão meta­fí­si­ca, como num qua­dro de Magritte ou de De Chirico.

Esse viés cós­mi­co-espi­ri­tu­al é intro­du­zi­do com humor auto-irô­ni­co numa pas­sa­gem em que a vaca encon­tra os antro­poi­des do 2001 de Kubrick, dian­te do mes­mo monó­li­to mis­te­ri­o­so.

Enfim, da sáti­ra de cos­tu­mes à espe­cu­la­ção meta­fí­si­ca, pas­san­do pela ale­go­ria polí­ti­ca, este é um fil­me que não ces­sa de sur­pre­en­der e não se dei­xa apre­en­der com faci­li­da­de. Na sem-cerimô­nia com que pas­sa de um regis­tro a outro, em sua liber­da­de de fan­ta­sia e em sua inqui­e­ta­ção for­mal, só encon­tra para­le­lo hoje, a meu ver, no cine­ma do por­tu­guês Miguel Gomes (de Tabu e As mil e uma noi­tes).

A vaca de Animal polí­ti­co mere­ce ocu­par um lugar só seu no bes­tiá­rio cine­ma­to­grá­fi­co, em algum pon­to entre o jumen­to da obra-pri­ma Au hasard Balthazar, de Robert Bresson, e o por­qui­nho rosa­do da comé­dia fami­li­ar Babe, de Chris Noonan. Uma coi­sa é cer­ta: depois de assis­tir a esse fil­me você nun­ca mais verá com os mes­mos olhos uma vaca – e, aliás, nem os seres huma­nos.

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