A Rose, muito obrigada

Colunistas

25.06.14

Um dia, há qua­se dez anos, quan­do ter­mi­nei de entre­vis­tar Rose Marie Muraro, fiz ques­tão de, encer­ra­da a tare­fa, agra­de­cê-la. Devo ter dito uma fra­se meio pie­gas, a úni­ca que me ocor­reu na hora, mais ou menos assim: “Muito obri­ga­da. Sem a sua luta, a minha gera­ção não teria che­ga­do onde che­gou”. Ela se sur­pre­en­deu tan­to que, mes­mo mas já doen­te, ilu­mi­nou o ros­to com um sor­ri­so gene­ro­so. Fui embo­ra daque­le peque­no apar­ta­men­to no Bairro Peixoto, em Copacabana, pen­san­do como cada gera­ção de mulhe­res che­ga­va à ida­de adul­ta toman­do como natu­ral o que, na ver­da­de, havia sido dura­men­te con­quis­ta­do pelas gera­ções ante­ri­o­res.

Ela aca­ba­ra de me con­tar, ain­da com mágo­as, sobre as cen­te­nas de vezes que foi cha­ma­da de bru­xa, mal-ama­da, feia, pros­ti­tu­ta, e como toda a vio­lên­cia havia afe­ta­do a sua vida e a dos cin­co filhos. Rose cami­nha­va mui­to len­ta­men­te, resul­ta­do da doen­ça, mas tam­bém como se ain­da car­re­gas­se no cor­po o peso do seu pio­nei­ris­mo. Em 1972, trou­xe Betty Friedan  a femi­nis­ta nor­te-ame­ri­ca­na de quem pre­fa­ci­a­ria o clás­si­co “A mís­ti­ca femi­ni­na” , e com ela enfren­ta­ria um bata­lhão de jor­na­lis­tas do Pasquim, cujo repú­dio ao femi­nis­mo foi escan­ca­ra­do numa entre­vis­ta que entrou para a his­tó­ria do pre­con­cei­to da esquer­da con­tra a eman­ci­pa­ção da mulher. Em nome de uma luta uni­ver­sal  esta sim, dig­na da aten­ção mas­cu­li­na  a des­qua­li­fi­ca­ção da ban­dei­ra femi­nis­ta se dava pri­mei­ro no que seria o cam­po pro­gres­sis­ta.

Embora os bra­vos com­pa­nhei­ros fos­sem crí­ti­cos do auto­ri­ta­ris­mo e da mora­li­da­de bur­gue­sa, vol­ta­ram suas bate­ri­as con­tra mulhe­res que ini­ci­a­vam uma dura bri­ga con­tra os este­reó­ti­pos de gêne­ro. Nessa con­ver­sa, por exem­plo, o geni­al Millôr Fernandes se orgu­lhou de ser con­si­de­ra­do “por­co chau­vi­nis­ta”, já que a deno­mi­na­ção par­tia da pró­pria Betty Friedan em pes­soa, “e ela em pes­soa é mui­to mal apes­so­a­da”. Recorrer aos atri­bu­tos físi­cos das mulhe­res como for­ma de des­qua­li­fi­ca­ção tem sido uma estra­té­gia machis­ta até hoje e pode ser ouvi­do em qual­quer esqui­na quan­do alguém comen­ta as rou­pas ou o cabe­lo da pre­si­den­te da República.

Não é demais lem­brar que a auto­ra de A mís­ti­ca femi­ni­na, lan­ça­do nos anos 1960 nos EUA e publi­ca­do por Rose pela edi­to­ra Vozes em 1971, já era um gran­de expo­en­te do femi­nis­mo quan­do che­gou aqui para repe­tir idei­as que hoje são óbvi­as: ter mari­do e filhos não é tudo na vida de uma mulher. A visi­ta da ilus­tre nor­te-ame­ri­ca­na aju­dou a impul­si­o­nar a nova onda femi­nis­ta da qual Rose foi pio­nei­ra. Em 1975, um gru­po de mulhe­res reu­niu-se na ABI, no Rio de Janeiro, para deba­ter ques­tões de gêne­ro e fun­dar a pri­mei­ra orga­ni­za­ção femi­nis­ta bra­si­lei­ra — o Centro da Mulher Brasileira (CMB) —, do qual ela foi uma das fun­da­do­ras. Dez anos depois, o gover­no cri­a­ria o Conselho Nacional da Mulher, pri­mei­ra ini­ci­a­ti­va de levar para o Estado o deba­te sobre polí­ti­cas públi­cas espe­cí­fi­cas das mulhe­res. Rose fez par­te do con­se­lho des­de a sua cri­a­ção até 2012, quan­do a doen­ça já a impe­dia de se loco­mo­ver. Sua his­tó­ria de mili­tan­te, no entan­to, come­ça­ra mui­tos anos antes, em 1946, quan­do ingres­sou na Ação Católica ao lado de Dom Hélder Câmara, e pas­sou pela cri­a­ção da Teologia da Libertação, ao lado de Leonardo Boff.

Depois de agra­de­cer a Rose naque­la tar­de em Copacabana, inú­me­ros livros da Rosa dos Tempos  selo da edi­to­ra Record que ela diri­giu por mui­tos anos, res­pon­sá­vel pela tra­du­ção de impor­tan­tes tex­tos femi­nis­tas como não se vê mais atu­al­men­te  me caí­ram nas mãos e eu men­tal­men­te agra­de­cia de novo a ela pela lei­tu­ra, pen­san­do como uma mulher que era pra­ti­ca­men­te cega foi tão impor­tan­te no mer­ca­do edi­to­ri­al bra­si­lei­ro, dedi­can­do a vida a ler, escre­ver e publi­car. Em 1983, seu A sexu­a­li­da­de da mulher bra­si­lei­ra: cor­po e clas­se soci­al no Brasil enca­be­çou por seis meses a lis­ta dos mais ven­di­dos, dan­do a impres­são de que Rose era oni­pre­sen­te. Revistas femi­ni­nas, emis­so­ras de rádio e TV, jor­nais, todos que­ri­am enten­der melhor outra des­co­ber­ta que hoje pare­ce óbvia: mulhe­res pobres e tra­ba­lha­do­ras sofrem mui­to mais a dis­cri­mi­na­ção sobre o cor­po e a sexu­a­li­da­de. A par­tir daí, pode-se come­çar a arti­cu­lar a luta espe­cí­fi­ca das mulhe­res com a luta geral con­tra a opres­são. Enfim, pode­mos reco­nhe­cer que somos todos/as proletários/as.

Agradecer a Rose é uma for­ma de reto­mar um pro­ble­ma que me pare­ce ain­da não resol­vi­do em rela­ção às femi­nis­tas da gera­ção dela. Hoje, para as meni­nas que vão para a uni­ver­si­da­de, para o mer­ca­do de tra­ba­lho, usu­fru­em de todos os direi­tos de uma vida eman­ci­pa­da, recu­sam a mater­ni­da­de como des­ti­no, tudo pare­ce mui­to natu­ral. Para mim tam­bém, quan­do votei pela pri­mei­ra vez, não me pas­sou pela cabe­ça agra­de­cer às sufra­gis­tas dos anos 1930 no Brasil que, ins­pi­ra­das pelos movi­men­tos inter­na­ci­o­nais de rei­vin­di­ca­ção do direi­to ao voto femi­ni­no, tinham me garan­ti­do o direi­to de estar ali.

A natu­ra­li­za­ção é uma con­quis­ta polí­ti­ca, por­que sig­ni­fi­ca que foram desa­pa­re­cen­do da cul­tu­ra as mar­cas mais for­tes de dis­cri­mi­na­ção e pre­con­cei­to. No entan­to, a natu­ra­li­za­ção tem um gran­de ini­mi­go: o apa­ga­men­to da memó­ria. Não se tra­ta, aqui, de uma mera polí­ti­ca de repa­ra­ção do pas­sa­do, como se pudés­se­mos nos mover em dire­ção a um fim da his­tó­ria rever­so  para usar a feliz expres­são de Paulo Arantes no seu livro mais recen­te, O novo tem­po do mun­do  e apa­gar todos os con­fli­tos que nos mar­ca­ram, em bus­ca de um apa­zi­gua­men­to impos­sí­vel. Trata-se sim de uma polí­ti­ca da memó­ria afir­ma­ti­va, capaz de rela­ci­o­nar con­quis­tas do pre­sen­te com as lutas do pas­sa­do.

Se ain­da hoje, con­tra o ter­mo femi­nis­ta pesam mui­tos pre­con­cei­tos, quan­do Rose e sua tur­ma come­ça­ram a falar em eman­ci­pa­ção da mulher colhe­ram ridi­cu­la­ri­za­ção, vio­lên­cia, pre­con­cei­to. Manter a his­tó­ria viva é hon­rar a memó­ria da Rose e de tan­tas outras que já se foram, res­sig­ni­fi­can­do e atu­a­li­zan­do a cada gera­ção as lutas femi­nis­tas, ain­da tão neces­sá­ri­as. Muito obri­ga­da, Rose.

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