A solidão do goleiro

Correspondência

30.06.11

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Sérgio, meu caro,

 

Antes de res­pon­der sua deli­ci­o­sa car­ta inau­gu­ral, devo dizer que estou mui­to feliz em reto­mar este nos­so con­ta­to, inter­rom­pi­do há anos por con­ta da dis­tân­cia geo­grá­fi­ca e dos múl­ti­plos afa­ze­res de cada um de nós. Só pre­ci­so con­tro­lar meu vício pro­fis­si­o­nal para não trans­for­mar esta cor­res­pon­dên­cia numa lon­ga entre­vis­ta jor­na­lís­ti­ca.

Pois bem, você me falou de seu tio, golei­ro do Fluminense, e isso me fez pen­sar no des­ti­no sin­gu­lar dos golei­ros, per­so­na­gens à par­te no uni­ver­so do fute­bol. Já se falou mui­to sobre isso. Único joga­dor que pode tocar a bola com as mãos, com o obje­ti­vo de impe­dir a con­se­cu­ção do obje­ti­vo máxi­mo do jogo (o gol), o golei­ro, pre­so a seu ter­ri­tó­rio mais ou menos exí­guo, tem uma visão do cam­po de bata­lha dife­ren­te da de todos os outros atle­tas. Talvez por isso tan­tos golei­ros tenham se tor­na­do bons téc­ni­cos.

Quem sabe essa posi­ção ímpar em cam­po, e a soli­dão que ela impli­ca duran­te boa par­te da par­ti­da, expli­que o fato de alguns gran­des escri­to­res e pen­sa­do­res, como Camus e Nabokov, terem sido golei­ros na juven­tu­de. Deve ter sido isso tam­bém — essa visão em “con­tra­cam­po” — que levou Peter Handke a escre­ver (e Wim Wenders a fil­mar) O medo do golei­ro dian­te do pênal­ti.

O golei­ro tem tam­bém, com­pa­ra­ti­va­men­te, algo de femi­ni­no, não só pelo uso hábil das mãos, mas pelo fato de ter de “cui­dar da casa”, defen­den­do a invi­o­la­bi­li­da­de do lar enquan­to os homens (os joga­do­res de linha) saem para a guer­ra, para a lida da vida. Claro que isso nada tem a ver com a sexu­a­li­da­de dos arquei­ros, mui­tos deles gran­des mulhe­ren­gos, às vezes até demais, como sabe­mos.

Estou ten­tan­do mudar de assun­to, mas o tema dos golei­ros me atrai como pou­cos, ain­da mais numa sema­na que come­çou com um gran­de fran­go de um gran­de golei­ro, Rogério Ceni (que ontem tomou outro, con­tra o Botafogo). Nelson Rodrigues, tri­co­lor como você, dizia que “a poe­sia do fute­bol está no fran­go”. Você sabe dis­so melhor do que eu, pois de cer­to modo tra­du­ziu essa meta­fí­si­ca do fran­go naque­le con­to mara­vi­lho­so que eu citei, No últi­mo minu­to.

Em suma, o golei­ro, ao menos poten­ci­al­men­te, tem algo de soli­tá­rio, de desa­jus­ta­do, de trá­gi­co (ou paté­ti­co). E um golei­ro em par­ti­cu­lar sin­te­ti­za tudo isso em sua tra­je­tó­ria. Imagino que seja uma figu­ra de des­ta­que no seu pan­teão tri­co­lor. Acho que você já adi­vi­nhou que estou falan­do de Castilho, o sujei­to que pre­fe­riu ampu­tar um peda­ço do dedo min­di­nho a fazer uma cirur­gia cor­re­ti­va que o tira­ria das finais de um cam­pe­o­na­to. O sujei­to que era con­si­de­ra­do meio mági­co ou san­to pelas bolas que des­vi­a­va “com o olhar”. O sujei­to, enfim, que se jogou do alto de um pré­dio na vés­pe­ra de embar­car para os Emirados Árabes, onde tra­ba­lha­ria como téc­ni­co. Sem expli­ca­ção, como qua­se tudo o que faze­mos de mais impor­tan­te na vida.

Entre parên­te­ses: Chico Buarque, outro tri­co­lor céle­bre, diz que se tor­nou Fluminense jus­ta­men­te por cau­sa de Castilho.

Recaindo ago­ra um pou­co no vício de entre­vis­ta­dor, eu que­ria que você me falas­se um pou­co sobre sua rela­ção com o mito Castilho e, even­tu­al­men­te, sobre o que o levou a tor­cer pelo Fluminense.

Mas não que­ro de modo algum con­cen­trar nos­sa con­ver­sa no fute­bol. Pelo con­trá­rio: aca­bo de ler, com imen­so pra­zer, o seu Livro de Praga, e me encan­tou, como sem­pre, a desen­vol­tu­ra com que você tra­fe­ga entre memó­ria e fic­ção e esten­de pon­tes (não por aca­so, uma pon­te é o lugar cen­tral das vári­as nar­ra­ti­vas) entre a lite­ra­tu­ra, a músi­ca, as artes visu­ais etc.

A sua lite­ra­tu­ra, a meu ver, alcan­ça uma com­bi­na­ção impro­vá­vel de auto­cons­ci­ên­cia crí­ti­ca com espon­ta­nei­da­de, isto é, pen­sa o mun­do e pen­sa a si pró­pria, reve­la seus andai­mes e tapu­mes, mas sem per­der o encan­to da pro­sa (no sen­ti­do minei­ro da pala­vra, de con­ver­sa ao pé do ouvi­do). Uma últi­ma per­gun­ta, então: como é que você con­se­gue?

Forte abra­ço.

Zé Geraldo

 

Imagem que ilus­tra este post: foto de Thomaz Farkas