A sorte e o privilégio de ter encontrado Vinicius e Sabino

Literatura

08.10.13
Vinicius no show "Só por amor", no Teatro Poeira

Vinicius no show Só por amor, no Teatro Poeira

Além de gran­des ami­gos, Vinicius de Moraes e Fernando Sabino tinham mui­tos gos­tos em comum. E ado­ra­vam músi­ca. Vinicius ia da músi­ca bra­si­lei­ra à ame­ri­ca­na. Fernando era apai­xo­na­do por jazz. De vez em quan­do via­ja­va para cur­tir o fes­ti­val de jazz de Nova Orleans. Tanto o poe­ta como o escri­tor fari­am anos nes­te mês de outu­bro. E ambos com­ple­ta­ri­am datas redon­das: Vinicius, 100 anos. Fernando, 90. Tive a sor­te de ser ami­ga dos dois. Graças ao meu pai, Lucio Rangel, tam­bém um apai­xo­na­do por músi­ca, e a minha pro­fis­são de jor­na­lis­ta. Entrevistei-os vári­as vezes.

Fernando conhe­ci pri­mei­ro. Eu tinha 15 anos e esta­va com meu pai no bar Zepelim, em Ipanema, quan­do ele che­gou com Tom Jobim. Era fim de tar­de e, depois de alguns uís­ques, Tom levou-nos para sua casa. Era uma casa mes­mo, tam­bém em Ipanema. Lá fica­mos até bem tar­de, com Tom ao pia­no e os outros dois beben­do e falan­do de jazz e lite­ra­tu­ra. Fernando gos­ta­va tan­to de jazz que apren­deu a tocar bate­ria. De vez em quan­do tele­fo­na­va avi­san­do que toca­ria no Hotel Marina. Lá ia eu ouvi-lo. Aliás, Fernando era bom de ouvir. Falava mui­to, con­ta­va casos sabo­ro­sos e diver­ti­dos. Além dos bares, encon­tra­va-o mui­to na cober­tu­ra de Rubem Braga e nos lan­ça­men­tos dos livros da edi­to­ra Sabiá e, depois, edi­to­ra do Autor. Apesar de gos­tar mui­to de ambos, com Vinicius foi uma ami­za­de dife­ren­te.

Não lem­bro exa­ta­men­te quan­to come­ça­ram minhas con­ver­sas eso­té­ri­cas com Vinicius de Moraes. Aconteciam sem­pre depois das entre­vis­tas para o Caderno B, do Jornal do Brasil, onde eu tra­ba­lhei nos anos 1970. Ele na banhei­ra cheia de espu­ma e, depen­den­do da hora, com um copo de uís­que numa mão e um cigar­ro na outra. Eu, sen­ta­da num ban­co bai­xi­nho ao lado. Ele dava uma meia pau­sa e intro­du­zia o assun­to: “Sabe que o fula­no me apa­re­ceu?”. Fulano podia ser Antonio Maria ou Sérgio Porto, ambos mor­tos havia pou­co tem­po. E por “apa­re­cer”, que fique bem cla­ro, Vinicius sen­tia uma per­cep­ção daque­la pes­soa atra­vés de um copo que caía sozi­nho, uma luz que se apa­ga­va ou algo assim.

A his­tó­ria mais impres­si­o­nan­te acon­te­ceu duran­te a Segunda Guerra, ele ain­da casa­do com Tati e moran­do no Leblon. Acordou de madru­ga­da com o quar­to todo tre­men­do. Pensou ser uma res­sa­ca do mar. Levantou-se pé ante pé para não acor­dar a mulher, foi até a sala e depa­rou-se com um mar cal­mís­si­mo. Voltou para a cama, ago­ra muni­do de uma folha de papel e um lápis, sen­tou-se no escu­ro e sen­tiu sua mão ris­can­do o papel. Riscou, ris­cou e ter­mi­nou como se esti­ves­se assi­nan­do algo. O quar­to então parou de tre­mer. Ele acen­deu a luz e depa­rou-se com um dese­nho de seu ami­go Carlos Scliar, assi­na­do pelo artis­ta. Tento ago­ra escre­ver suas exa­tas pala­vras ver­ba­tim:

Fiquei tão tris­te, sabe? Me deu uma fos­sa! O Scliar era pra­ci­nha e esta­va na Itália. Meu pri­mei­ro pen­sa­men­to foi: Scliar mor­reu e está me avi­san­do. Esperei o dia cla­re­ar e fui para o Amarelinho [bar na Cinelândia onde os jor­na­lis­tas se reu­ni­am]. Dali a pou­co um deles che­gou com a notí­cia: a mãe do Scliar tinha mor­ri­do duran­te a madru­ga­da no Rio Grande do Sul. Foi um alí­vio! Minha irmã guar­dou esse dese­nho.

Anos depois, um gru­po de jovens foi conhe­cer Ouro Preto cice­ro­ne­a­dos pelo poe­ta: Vera Hime, na épo­ca namo­ra­da de Vinicius, Wanda Sá com o namo­ra­do e arqui­te­to Manoel Ribeiro, Dori Caymmi e a mulher, Ana Beatriz, e eu. Tive opor­tu­ni­da­de, então, de cons­ta­tar como Vinicius “via” um mor­to. Todos nós “vimos” com ele.

Saímos do Rio para Belo Horizonte no trem notur­no. E como era pra­xe com Vinicius, pas­sa­mos a noi­te toda no vagão-res­tau­ran­te beben­do e con­ver­san­do. Em ple­na dita­du­ra — era 1968 — leva­mos uma dura, ain­da na esta­ção, por con­ta de um bei­jo que Wanda deu no namo­ra­do Manoel. Vinicius quis enca­rar o coro­nel “em nome do amor”, mas a tur­ma do dei­xa-dis­so con­se­guiu dis­su­a­di-lo. Dois táxis nos leva­ram da esta­ção minei­ra à casa de Eloy Heraldo Lima, médi­co de Vinicius e de Fernando Sabino, para um café da manhã. De lá, segui­mos nos táxis para Ouro Preto.

Chegamos com a cida­de reple­ta de jovens, em ple­no fes­ti­val de inver­no. Vinicius e Dori se hos­pe­da­ram na Pousada do Chico Rey. O belo sobra­do fica­va bem no cen­tro da cida­de e era fre­quen­ta­do por cele­bri­da­des, como Zélia e Jorge Amado, Elizabeth Bishop, Pablo Neruda, o pin­tor Carlos Scliar. Até Sartre e Simone de Beauvoir pas­sa­ram por lá. Bem ao lado da pou­sa­da fica­va a casa de Rodrigo Mello Franco de Andrade, pai do cine­as­ta Joaquim Pedro e na épo­ca dire­tor do SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Muito ami­go de Vinicius, cedeu a casa aos mais jovens: Wanda, Manoel e eu. Passávamos o dia jun­tos ou pas­se­an­do pela cida­de com os jovens minei­ros atrás de Vinicius.

Uma tar­de, depois do almo­ço, somen­te nos­so gru­po, sen­ta­dos numa mesa redon­da dian­te da larei­ra, emba­la­dos pelo uís­que, come­ça­mos a can­tar ao som dos vio­lões de Wanda, Dori e Vinicius. O dia foi cain­do, a sala escu­re­cen­do aos pou­cos, ilu­mi­na­da ape­nas pelas cha­mas de larei­ra. E o assun­to caiu em Dolores Duran. Vinicius lem­brou que mora­ram no mes­mo pré­dio e não era raro ela bater em sua por­ta de madru­ga­da com cri­se de depres­são. E, cla­ro, come­ça­mos a can­tar músi­cas de Dolores. O vio­lão pas­sa­va de mão em mão, cada um lem­bran­do uma can­ção. Foi aí que “vimos” Dolores.

Por aca­so, eu tinha atar­ra­xa­do a tam­pa da gar­ra­fa de uís­que. De repen­te, no meio de uma músi­ca, a tam­pa pulou alto e pou­sou na mão de Vinicius. “Saravá”, gri­tou Wanda, segui­da por todos. Ela pre­pa­rou um uís­que para Dolores, colo­cou na mesa e con­ti­nu­a­mos can­tan­do suas com­po­si­ções, ago­ra com sua pre­sen­ça.

Vinicius já era mui­to ami­go de meu pai quan­do o conhe­ci. Cursaram Direito jun­tos e par­ti­lha­vam o gos­to por lite­ra­tu­ra fran­ce­sa, músi­ca bra­si­lei­ra, jazz e uís­que. Tenho cer­te­za ter sido este o moti­vo de não terem leva­do adi­an­te o pro­je­to de uma enci­clo­pé­dia da músi­ca popu­lar assi­na­da pelos dois. Foi em Petrópolis que con­ver­sa­mos pela pri­mei­ra vez, na anti­ga Confeitaria Copacabana, ele casa­do com Lucinha Proença. Nesta épo­ca me con­vi­dou para um show que daria no giná­sio da PUC, no Rio. E sur­pre­en­deu Edu Lobo ao cha­má-lo ao pal­co. Foi a pri­mei­ra vez que Edu se apre­sen­tou em públi­co. E me sur­pre­en­deu tam­bém. Ao entrar no giná­sio ele já esta­va no pal­co e me ace­nou de lon­ge. Tive que enfren­tar os olha­res de todos os estu­dan­tes.

Quando ele se casou com Nelita, a cober­tu­ra em que mora­vam no Jardim Botânico esta­va sem­pre reple­ta de jovens. E as fes­tas eram memo­rá­veis, só com os ami­gos mais che­ga­dos, como Tonia Carrero e César Thedim, Fernando Sabino, Wanda Sá, Rubem Braga e os filhos com namo­ra­dos e namo­ra­das. Quando se sepa­ra­ram, Nelita con­ti­nu­ou no apar­ta­men­to. Um dia Vinicius me tele­fo­nou pedin­do um favor: “Lucinha, será que você pode pedir à Nelita para me dar meu retra­to fei­to pelo Portinari?” Na mes­ma hora Nelita tirou o qua­dro da pare­de e me entre­gou. Saí com a tela sem qual­quer pro­te­ção, colo­ca­da no chão do meu fus­ca. Hoje o qua­dro está na casa de sua filha Suzana.

Francis Hime, Dori Caymmi, Vinicius e Wanda Sá em "Só por amor"

Francis Hime, Dori Caymmi, Vinicius e Wanda Sá em Só por amor

Petrópolis era uma cida­de que Vinicius ado­ra­va. A casa de Cícero Leuenroth, publi­ci­tá­rio e pai de Olivia Hime, esta­va sem­pre aber­ta aos ami­gos da filha. O poe­ta às vezes che­ga­va de táxi, sem avi­sar, dizen­do que dor­mi­ria na “vaga”. Se alguém acor­da­va mais cedo ele cor­ria para a cama deso­cu­pa­da e tira­va um cochi­lo. Numa madru­ga­da de 1971 fui dor­mir e dei­xei Vinicius e Toquinho na sala. Acordei no meio da madru­ga­da com os dois entran­do quar­to aden­tro e me entre­gan­do um copo de uís­que. Eufóricos, sen­ta­ram-se na minha cama, Toquinho deu os pri­mei­ros acor­des e come­ça­ram a can­tar a músi­ca que tinham aca­ba­do de com­por, “Tomara”. Foi uma ale­gria. Repetiram umas dez vezes, feli­zes com a nova par­ce­ria.

Foi em Petrópolis tam­bém, nes­ta mes­ma casa, que Vinicius nos intro­du­ziu à gno­mo­nia, inven­ção de Jaime Ovalle, inte­lec­tu­al mais velho, autor de “Azulão” e ami­go de todo o gru­po de Vinicius e Fernando Sabino. O poe­ta se refe­ria à gno­mo­nia como clas­si­fi­ca­ção das pes­so­as. E expli­cou o que sig­ni­fi­ca­va ser pará, dan­tas, quer­ni­a­no, oné­si­mo ou mozar­les­co. Os parás são indi­ví­du­os extro­ver­ti­dos, ágeis, que aon­de che­gam ven­cem. O nome é por­que geral­men­te vinham do Norte. Mas o poe­ta gos­ta­va de dizer que “os parás eram qua­se paran­do”. Os dan­tas pou­co ligam para o suces­so mate­ri­al. São pes­so­as que vivem ou ten­tam viver em esta­do de pure­za. Os quer­ni­a­nos são os de mais fácil iden­ti­fi­ca­ção: impe­tu­o­sos, impul­si­vos e estou­va­dos. Vinicius dava como exem­plo o homem que chu­ta a bar­ri­ga da mulher grá­vi­da e pede per­dão de joe­lhos. Já os mozar­les­cos são sen­ti­men­tais, cho­ram à toa, têm boa índo­le. Charles Chaplin era quer­ni­a­no mas Carlitos era mozar­les­co, ensi­na­va Vinicius. Para nós era uma pri­va­te joke. Se está­va­mos numa reu­nião cer­ca­dos de gen­te, Vinicius defi­nia alguém pre­sen­te atra­vés da gno­mo­nia e ría­mos mui­to. Um dia ele deci­diu defi­nir obje­tos. E ado­rou des­co­brir que o tele­fo­ne era quer­ni­a­no.

Amoroso, gos­ta­va de con­tar his­tó­ri­as e ensi­nar aos jovens. Eu me lem­bro dele dis­cor­ren­do sobre como esco­var os den­tes: “Escovem sem­pre a lín­gua e o céu da boca para não terem mau háli­to”. Sua sen­si­bi­li­da­de foi mais lon­ge ain­da ao detec­tar que eu anda­va com pro­ble­mas: “Lucinha, você não acha que está pre­ci­san­do de uma psi­co­te­ra­pi­a­zi­nha?”. Marcou então uma hora pra mim com um psi­ca­na­lis­ta ami­go dele. Ensinava tam­bém mui­ta diver­são. Quando fez o show Só por amor no Teatro Poeira, na pra­ça General Osório, em Ipanema, acom­pa­nha­do por Francis Hime ao pia­no, Dori Caymmi no vio­lão e Wanda Sá can­tan­do, nos leva­va depois a um bar na esqui­na da pra­ça para ofe­re­cer cai­pi­ri­nha, bebi­da que nin­guém conhe­cia até então.

Poderia con­ti­nu­ar falan­do de Vinicius por mui­to tem­po, como quan­do conhe­ceu a can­to­ra Maria Creuza e me fez ficar em sua casa para conhe­cê-la tam­bém, ou quan­do se apai­xo­nou por Gesse e per­deu o medo de avião, apre­sen­ta­do que foi à Mãe Menininha, ou quan­do apa­nhou de uma ex-mulher e ficou com a viri­lha toda feri­da. Mas pre­fi­ro ter­mi­nar com a dedi­ca­tó­ria que fez numa pri­mei­ra edi­ção, rara, do livro A casa:

Para minha Lucinha que­ri­da, com A Casa, o poe­ta e tudo o que, de amor e cari­nho eles com­por­tam; e o bei­jo mais ami­go do Vinicius.

* Maria Lucia Rangel é jor­na­lis­ta.

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