Abrir os olhos no escuro

Colunistas

25.09.14

Li outro dia, no blog do The New York Times, o seguin­te comen­tá­rio de um jovem escri­tor ame­ri­ca­no: “Eu aban­do­no um livro assim que per­ce­bo que o autor con­cor­da com o nii­lis­mo do pro­ta­go­nis­ta. Se você acha que o mun­do é um esgo­to, que a vida não faz sen­ti­do, pra quê escre­ver um roman­ce que, segun­do a sua pró­pria filo­so­fia, não tem sen­ti­do? Talvez Onã, filho de Judá, pudes­se enten­der um autor nii­lis­ta escre­ven­do um roman­ce nii­lis­ta para con­fir­mar o nii­lis­mo do lei­tor, mas eu não tenho inte­res­se nis­so”. O mes­mo escri­tor cita­va Rumo ao farol, de Virginia Woolf, como exem­plo de livro decep­ci­o­nan­te.

O comen­tá­rio, antes de ser uma cari­ca­tu­ra do espí­ri­to posi­ti­vo ame­ri­ca­no no qual ele de cer­ta manei­ra se ins­pi­ra, é um ates­ta­do de bur­ri­ce. E se não pode ser toma­do como repre­sen­ta­ti­vo das idei­as dos escri­to­res ame­ri­ca­nos em geral, diz mui­to sobre a misé­ria do pen­sa­men­to lite­rá­rio de um escri­tor em per­fei­ta sin­to­nia com o seu tem­po.

O austríaco Thomas Bernhard

Autores como Kafka, Beckett e Thomas Bernhard des­cre­ve­ram mun­dos radi­cal­men­te som­bri­os e sem saí­da e nem por isso se mata­ram (os pro­ta­go­nis­tas de Bernhard são qua­se todos sui­ci­das). O fato de esses auto­res terem escri­to os roman­ces que escre­ve­ram, o fato de exis­ti­rem esses roman­ces (e, como se não bas­tas­se, de serem roman­ces chei­os de humor, mui­tas vezes resul­ta­do de esfor­ços her­cú­le­os con­tra as con­di­ções mais adver­sas), mos­tra o quan­to esses auto­res esta­vam agar­ra­dos à vida, a des­pei­to de des­cre­vê-la como um esgo­to, para ficar nos ter­mos pro­pos­tos pelo jovem escri­tor.

Por sor­te, livros como A des­cri­ção da infe­li­ci­da­de, cole­tâ­nea de ensai­os de W.G. Sebald sobre a lite­ra­tu­ra aus­tría­ca, con­ti­nu­am a ser publi­ca­dos (no caso, em recen­te tra­du­ção fran­ce­sa, pela Actes Sud). Os tex­tos tra­tam de Stifter, Kafka, Bernhard e Peter Handke, entre outros. Para Sebald, a con­di­ção huma­na (falan­do assim, pode pare­cer gro­tes­co, mas as pala­vras são minhas, não dele) está fun­da­da num para­do­xo que esses auto­res expõem e reen­ce­nam com seus roman­ces. Ele escre­ve no pre­fá­cio (de 1985): “Já não é pos­sí­vel reba­ter a cons­ta­ta­ção de Kafka quan­do ele escre­ve que todas as nos­sas inven­ções ocor­re­ram depois do iní­cio da que­da. O declí­nio de uma natu­re­za que con­ti­nua a nos man­ter vivos é o coro­lá­rio cada dia mais evi­den­te dis­so. Mas a melan­co­lia, ou melhor, a refle­xão que faze­mos sobre esse infor­tú­nio, nada tem a ver com a aspi­ra­ção à mor­te. Ela é uma for­ma de resis­tên­cia”.

Parece tão óbvio e cris­ta­li­no, que a pró­pria dis­cus­são sobre o comen­tá­rio do jovem autor ame­ri­ca­no per­de o sen­ti­do. O pro­ble­ma é que esse comen­tá­rio tam­bém expres­sa um lugar-comum cada vez mais difun­di­do por uma indús­tria edi­to­ri­al seden­ta de agra­dar, de pro­por­ci­o­nar pra­zer ao lei­tor, de não decep­ci­o­ná-lo com livros como… Rumo ao farol, de Virginia Woolf. O para­do­xo se mani­fes­ta mais uma vez, de outra for­ma: como será pos­sí­vel alcan­çar uma refle­xão de ver­da­de se o prin­cí­pio é agra­dar sem­pre e se um con­sen­so está sen­do cons­truí­do em tor­no de uma lite­ra­tu­ra que tem por obje­ti­vo não decep­ci­o­nar o lei­tor? A menos que lite­ra­tu­ra e refle­xão sejam coi­sas dis­tin­tas e exclu­den­tes.

A lei­tu­ra que Sebald faz des­ses auto­res “nii­lis­tas” – e da cri­a­ção lite­rá­ria em geral, como decor­rên­cia de um para­do­xo ori­gi­ná­rio – já está deter­mi­na­da, em 1985, por uma obses­são do escri­tor que vai vol­tar com mui­ta ênfa­se, dez anos depois, em Os anéis de Saturno e que diz res­pei­to à “ten­dên­cia entró­pi­ca de todos os sis­te­mas natu­rais”. Em rela­ção ao homem, isso sig­ni­fi­ca, por exem­plo, que a des­co­ber­ta do fogo (e a con­se­quen­te quei­ma de com­bus­tí­veis fós­seis) se por um lado garan­te a vida, por outro tam­bém anun­cia o seu fim, com a des­trui­ção das con­di­ções natu­rais de sobre­vi­vên­cia da espé­cie. O que aca­ba dan­do um sen­ti­do mais com­ple­xo e mais cole­ti­vo ao tema do sui­cí­dio. O que o jovem autor ame­ri­ca­no cha­ma de “nii­lis­mo” nada mais é do que uma for­ma de cons­ci­ên­cia. É des­se para­do­xo que fala a lite­ra­tu­ra.

Sebald mos­tra como, em O cas­te­lo, de Kafka, vida e mor­te são inse­pa­rá­veis, uma é ale­go­ria da outra. A visão infan­til que o jovem escri­tor ame­ri­ca­no tem da lite­ra­tu­ra e da vida, entre­tan­to, não lhe per­mi­te com­pre­en­der o quan­to os opos­tos se asse­me­lham. Essa “visão” vem se tor­nan­do cada vez mais hegemô­ni­ca e nor­ma­ti­va, por prag­ma­tis­mo e opor­tu­nis­mo mer­ca­do­ló­gi­co, num esfor­ço de fazer a lite­ra­tu­ra virar cul­tu­ra de mas­sa. Mas por que, afi­nal, con­ten­tar-se com uma lite­ra­tu­ra cujo tão incen­sa­do rea­lis­mo (um dos pré-requi­si­tos para um alcan­ce mais abran­gen­te), exal­ta­ção do bem volun­ta­ri­o­so, das vir­tu­des huma­nas e das melho­res inten­ções, é tam­bém um exer­cí­cio de ceguei­ra? Simples: “O sono é irmão da mor­te; é uma velha his­tó­ria”, escre­ve Sebald. “Kafka não ces­sa de dizer do sono que ele é uma fra­que­za cons­ti­tu­ti­va, mas tam­bém moral, o refle­xo de se fazer de mor­to em uma espé­cie que, toma­da pelo pâni­co, assim como a mai­o­ria dos outros ani­mais, fecha os olhos na escu­ri­dão.” 

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