Agrippino, Conrad e samba na abertura da casa

IMS na FLIP

05.07.13

IMS  na Flip

Convidado para abrir a série de conversas da Casa do IMS na Flip 2013, o escritor e compositor Bráulio Tavares surpreendeu ao escolher como tema a obra de José Agrippino de Paula, que anda pouco lembrada. Mas na tarde de quinta-feira, logo no início do bate-papo com Luiz Fernando Vianna, coordenador de internet do IMS, ele explicou que gosta de “pregar para os desavisados” e falar de autores esquecidos ou pouco conhecidos. Em vez de livros de Guimarães Rosa, que também conhece bem, preferiu comentar os dois romances lançados pelo paulista Agrippino: Lugar público (1965) e Panamérica (1967). O áudio está disponível na Rádio Batuta

Ao contrário de muita gente, o paraibano (de Campina Grande) Bráulio não leu Panamérica por causa da divulgação que Caetano Veloso fez do livro, tanto na época do tropicalismo quanto depois, na década de 1970, na letra de “Sampa” (no verso “Panaméricas de Áfricas utópicas”). Um amigo lhe deu em 1967 os dois livros de Agrippino. Ele leu primeiramente Lugar público, que o cativou pela estrutura fragmentada, pela transgressão formal. Em seguida leu Panamérica, diferente na forma (parágrafos longos em vez dos curtos do primeiro romance), mas também transgressor, inclusive no uso livre de figuras da cultura de massa, como Marylin Monroe e Burt Lancaster, expediente que seduziu Caetano.

Na época, ainda um adolescente de 17 anos marcado (como continua sendo) pela tradição popular nordestina, achou que o tropicalismo, por mesclar elementos pop e internacionais aos nacionais, estava maculando o que via como cultura brasileira. “Mas isso durou só um ano. Depois, virei mais tropicalista do que os tropicalistas”, brincou ele para a plateia que ocupou grande parte da Casa do IMS a partir das 17h.

Na década passada, os dois livros de Agrippino foram relançados pela editora Papagaio. Bráulio releu e garante que não enxergou neles nenhum sinal de envelhecimento. “Às vezes, o que envelhece não é o livro, mas a pessoa que está lendo”, disse. Para ele, os dois romances poderiam provocar impacto se lançados pela primeira vez hoje, em especial pela transgressão formal, já que vê muito bom comportamento na literatura feita pela maioria dos autores jovens.

Braúlio terminou a conversa falando de Hitler 3º mundo, o cultuado longa-metragem dirigido por Agrippino em 1969, com Jô Soares à frente do elenco. Quando morava em Salvador, no final dos anos 1970, e trabalhava na mostra de cinema da cidade, recebeu o próprio Agrippino, que foi levar o rolo de Hitler 3º mundo para a exibição. Bráulio viu pedaços de durex na cópia e falou que seria preciso passar na moviola, para retirá-los. Ao saber que havia uma moviola no local, Agrippino sugeriu que Bráulio remontasse o filme da maneira que achasse melhor. O jovem fã não teve coragem de acatar a sugestão, mas achou a ideia absolutamente coerente com o autor de Panamérica.

Agrippino morreu em 2007, aos 70 anos, tendo sido em 1980 diagnosticado como esquizofrênico. Passou os últimos anos em Embu (SP), escrevendo muito, mas não é certo que as milhares de folhas preenchidas à mão possam virar um terceiro livro algum dia.

Milton Hatoum ocupou o palco em seguida, a partir das 18h, em conversa com Paulo Roberto Pires, editor da revista serrote. Em vez de Graciliano Ramos, seu tema na abertura da programação oficial da Flip, o autor de Dois irmãos falou na Casa do IMS sobre Joseph Conrad, mais especificamente A linha de sombra, novela lançada em 1917. O áudio está disponível na Rádio Batuta

Ele lembrou que a “linha de sombra” é a fronteira entre a juventude e a vida adulta. O protagonista do livro acredita que, ao se tornar comandante de um navio, seus problemas serão resolvidos, a maturidade estará atingida. “Mas, na verdade, é aí que eles começam”, assinalou Hatoum. Na jornada para Bangcoc ele enfrenta os maiores desafios de um homem e percebe como tudo é complexo, fazendo jus à famosa frase de Guimarães Rosa: “Viver é muito perigoso”.

Os livros de Conrad, afirmou Hatoum, tratam sempre de uma “perturbação moral”. Para o autor brasileiro, uma pergunta que resume muito das angústias de Conrad é: “Por que, no momento em que as pessoas precisam das outras, a solidariedade falha?”. Nos romances, segundo Hatoum, uma falha gera a culpa e depois vem a expiação”, disse.

Essa expiação pode ser longa, dolorosa. O caso mais notório na obra de Conrad é o do coronel Kurtz de Coração nas trevas (1902), inspiração do filme Apocalypse now, de Francis Ford Coppola. O livro chegou a ser considerado racista quando foi lançada, mas se mostrou, com o tempo, um fortíssimo romance sobre o colonialismo. “Kurtz é a Europa”, sentenciou Hatoum.

Ele ainda ressaltou como Conrad foi mal interpretado no início do século XX. “Chegou a ser tratado como autor de narrativas de viagens, um exótico.” Falou-se muito que A linha de sombra seria literatura fantástica. Para uma reedição lançada 22 anos depois da primeira, Conrad escreveu um prefácio em que combatia com veemência essa ideia e fazia uma defesa do realismo.

Hatoum ainda ressaltou como Conrad se tornou um mestre da literatura de língua inglesa tendo passado a usá-la apenas aos 20 anos. “É muito curioso que um polonês tenha se tornado um dos maiores autores de língua inglesa.”

A programação do primeiro dia da Casa do IMS acabou em samba. Paulão 7 Cordas (violão e voz), acompanhado de Alessandro Cardozo (cavaquinho) e Rodrigo de Jesus (percussão), interpretou antigas músicas de compositores da Portela, como Monarco (“O lenço”, “Passado de glória”), Manacéa (“Quantas lágrimas”, “Manhã brasileira”), Candeia (“Gamação”) e Mijinha (“Sentimentos”). Tudo terminou com “Foi um rio que passou em minha vida”, de Paulinho da Viola. Com variações no repertório, o show, batizado de “Portela e seu passado de glória”, acontece também na sexta e no sábado.

Também foram lançados na noite de quinta os três DVDs do IMS com filmes baseados em obras de Graciliano Ramos: Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos, Memórias do cárcere, também de Nelson, e São Bernardo, de Leon Hirzsman. Eles são vendidos separados ou numa caixa.

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