Além dos muros da Casa grande

No cinema

17.04.15

Casa gran­de é um fil­me amplo, cheio de sub­di­vi­sões, deta­lhes, escon­de­ri­jos, por­tas, jane­las e des­vãos – exa­ta­men­te como o edi­fí­cio que lhe ser­ve de títu­lo, uma resi­dên­cia da eli­te cari­o­ca apre­sen­ta­da no esplên­di­do pla­no fixo dos cré­di­tos ini­ci­ais, em que o dono da casa, Hugo (Marcello Novaes), sai de sua jacuz­zi ao lado da pis­ci­na, apa­ga as luzes e fecha as por­tas de cada um dos vári­os anda­res e cômo­dos da impo­nen­te cons­tru­ção. 

Esse pla­no apa­ren­te­men­te sim­ples encer­ra todo um mun­do. Não ape­nas des­cre­ve o ambi­en­te opu­len­to de seu per­so­na­gem, deno­tan­do sua posi­ção soci­al, como tam­bém outras idei­as mais sutis: a soli­dão, o apa­ga­men­to, a melan­co­lia de um cre­pús­cu­lo. É assim, fei­to em cama­das, com uma obser­va­ção argu­ta dos deta­lhes, que se desen­vol­ve o pri­mei­ro lon­ga-metra­gem de fic­ção de Fellipe Barbosa.

Hugo, des­co­bri­re­mos logo, é um exe­cu­ti­vo desem­pre­ga­do e fali­do do ramo do capi­tal finan­cei­ro. Está deven­do dinhei­ro a ami­gos, des­fal­cou a pou­pan­ça dos filhos, terá que des­pe­dir empre­ga­dos da casa.

Romance de for­ma­ção

Mas o pro­ta­go­nis­ta não é ele, e sim seu filho de 17 anos, Jean (Thales Cavalcanti), que estu­da num colé­gio caro e se ator­men­ta mais com os per­cal­ços da ini­ci­a­ção amo­ro­sa e sexu­al do que com a pres­são do pai para que esco­lha uma car­rei­ra pro­fis­si­o­nal ren­tá­vel.

Cena do filme Casa Grande

É, por­tan­to, uma nar­ra­ti­va que con­ju­ga um duplo movi­men­to: o “roman­ce de for­ma­ção” do jovem Jean, com sua tate­an­te explo­ra­ção do amor e da vida na pólis, e o dra­ma cre­pus­cu­lar de seu pai. Um que sai para o mun­do e outro que se fecha em seu casu­lo, apa­gan­do uma a uma as luzes da casa.

Falou-se, sobre­tu­do na impren­sa estran­gei­ra, dos pon­tos de con­ta­to entre Casa gran­de e O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho. De fato, em que pesem as dife­ren­ças de geo­gra­fia, enre­do e esti­lo, ambos os fil­mes têm em comum a suti­le­za do olhar com que fla­gram as nuan­ces de um qua­dro soci­al amplo sem trans­for­mar seus per­so­na­gens em “tipos” ou cari­ca­tu­ras. Em ambos, tam­bém, o espa­ço físi­co das cida­des em que se ambi­en­tam tem uma impor­tân­cia cru­ci­al. Por fim, os dois fil­mes tive­ram o mes­mo dire­tor de foto­gra­fia, Pedro Sotero.

Personagens mati­za­dos 

Em Casa gran­de, todos os inú­me­ros per­so­na­gens – a domés­ti­ca Rita (Clarissa Pinheiro), que pro­vo­ca a libi­do juve­nil de Jean, a irmã mais nova des­te, Nathalie (Alice Melo), que todos igno­ram mas que cum­pre um papel fun­da­men­tal, a namo­ra­di­nha Luiza (Bruna Amaya), que estu­da em esco­la públi­ca e repre­sen­ta uma pon­te entre Jean e uma cer­ta cons­ci­ên­cia polí­ti­ca, a mãe pro­fes­so­ra de fran­cês (Suzana Pires) que pas­sa a ven­der cos­mé­ti­cos para aju­dar na recei­ta fami­li­ar etc. – são ricos em mati­zes e têm a chan­ce de mos­trá-los ao espec­ta­dor.

A essas qua­li­da­des, diga­mos, de rotei­ro (que inclu­em diá­lo­gos enxu­tos, pre­ci­sos, com um óti­mo “ouvi­do” para a fala dos vári­os gru­pos soci­ais) com­bi­na-se uma mise-en-scè­ne inte­li­gen­te e sur­pre­en­den­te­men­te madu­ra para um estre­an­te em lon­ga de fic­ção.

A dire­ção de ato­res man­tém coe­so um elen­co efi­caz e mui­to bem esca­la­do. Os enqua­dra­men­tos são sem­pre lím­pi­dos, per­fei­ta­men­te legí­veis, explo­ran­do a pro­fun­di­da­de de cam­po para mul­ti­pli­car as infor­ma­ções em cena, mas sem satu­rar o qua­dro com ele­men­tos inú­teis. E a pre­fe­rên­cia pelos pla­nos rela­ti­va­men­te lon­gos, den­tro dos quais, sem­pre que pos­sí­vel, tudo se resol­ve sem neces­si­da­de de cor­tes exces­si­vos, con­tra­pla­nos ou “pla­nos de cober­tu­ra”, cria um rit­mo sere­no, dis­tan­te das nar­ra­ti­vas cli­pa­das e pico­ta­das que asso­lam nos­sas telas de cine­ma e tele­vi­são.

Um exem­plo ao aca­so: Hugo con­ver­sa por Skype ou algo simi­lar com uma headhun­ter que pode aju­dá-lo a vol­tar ao mer­ca­do. Um pla­no fixo médio o mos­tra de ter­no, meio de lado para nós, sen­ta­do dian­te do com­pu­ta­dor. Não vemos o que ele vê na tela. Pelo can­to direi­to do qua­dro entra Rita, ser­ve um cafe­zi­nho e o dei­xa sobre a mesa do patrão. Ele ter­mi­na a con­ver­sa, levan­ta-se e vai até a por­ta. Nesse momen­to, des­co­bri­mos que ele só ves­tia a par­te de cima do ter­no. Embaixo, esta­va de cue­ca. O efei­to final é cômi­co, mas a rique­za da cena, para além do diá­lo­go (em que sabe­mos, por exem­plo, que Hugo não quer ten­tar uma vaga no Opoortunity por­que “não gos­ta do Daniel [Dantas]”), está em trans­mi­tir visu­al­men­te a situ­a­ção essen­ci­al do per­so­na­gem: alguém que man­tém arti­fi­ci­al­men­te a pose quan­do “já per­deu as cal­ças”. Quase uma ilus­tra­ção audi­o­vi­su­al de um dito popu­lar.

Frescor x dida­tis­mo

Outro pla­no memo­rá­vel é aque­le em que Jean, sua irmã Nathalie e um cole­ga de colé­gio estão na pis­ci­na e vemos ao fun­do Hugo tre­pa­do numa esca­da, podan­do uma árvo­re. A cer­ta altu­ra, ele se dese­qui­li­bra e cai da esca­da. Como se tra­ta de uma toma­da con­tí­nua, sem cor­tes, fica a impres­são per­tur­ba­do­ra de que o ator tomou mes­mo um tom­bo feio e peri­go­so em cena.

O fres­cor de cenas des­se tipo (que tam­bém ocor­rem no ôni­bus, na sala de aula, na qua­dra de espor­tes etc.) é mui­to mais elo­quen­te e efi­caz, a meu ver, que cer­tos diá­lo­gos dema­si­a­do explí­ci­tos sobre a ques­tão das cotas raci­ais, nos quais o fil­me res­va­la para um cer­to dida­tis­mo des­ne­ces­sá­rio. As ten­sões soci­o­cul­tu­rais,  as feri­das aber­tas da nos­sa for­ma­ção, os cami­nhos incer­tos e impre­vi­sí­veis da nos­sa his­tó­ria pre­sen­te, tudo isso já fica cla­ro nas rela­ções entre os per­so­na­gens e des­tes com o ambi­en­te que os cer­ca. Não pre­ci­sa­va expli­car mais que isso.

No Brasil, quan­do se pro­nun­cia a locu­ção “casa gran­de”, ima­gi­na­mos invo­lun­ta­ri­a­men­te, como num eco, a con­ti­nu­a­ção “e sen­za­la”, por refe­rên­cia ao gran­de clás­si­co da soci­o­lo­gia Casa gran­de & sen­za­la, de Gilberto Freyre. Ao omi­tir a segun­da par­te (“sen­za­la”), dei­xan­do-a rever­be­rar sur­da­men­te na ima­gi­na­ção do espec­ta­dor letra­do, Fellipe Barbosa de cer­to modo anun­cia que o pon­to de vis­ta (no sen­ti­do de “lugar de obser­va­ção”) de sua nar­ra­ti­va é o da eli­te, que ele conhe­ce “por den­tro”. Mas quem assis­tir ao fil­me verá que se tra­ta, essen­ci­al­men­te de uma jor­na­da de des­co­ber­ta do que exis­te (e pul­sa, e fas­ci­na, e ame­a­ça) além dos muros da casa gran­de.

Nesse sen­ti­do, a mag­ní­fi­ca ima­gem final do fil­me é um per­fei­to con­tra­pon­to ou res­pos­ta ao pla­no ini­ci­al. A via­gem de apren­di­za­do se com­ple­ta ali.

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