Algo extraordinário

Cinema

20.03.14

A expres­são, mui­tas vezes usa­da por Coutinho para pon­tu­ar a fala ou cha­mar a aten­ção para deter­mi­na­do pon­to da con­ver­sa, apli­ca-se com per­fei­ção aos dois extras espe­ci­al­men­te pro­du­zi­dos pelo Instituto Moreira Salles para com­ple­men­tar o DVD de Cabra mar­ca­do para mor­rer: A família de Elizabeth Teixeira e Sobreviventes de Galileia. Aplica-se com per­fei­ção a eles e aos docu­men­tá­ri­os de Eduardo Coutinho de um modo geral: algo extra­or­di­ná­rio.

Nessa mes­ma sema­na em que o IMS lan­ça o DVD de Cabra mar­ca­do para mor­rer e pro­mo­ve uma mesa de deba­tes (com a par­ti­ci­pa­ção de Zelito Viana, Eduardo Escorel e Walter Lima Jr.), o cine­ma de Eduardo Coutinho está sen­do home­na­ge­a­do na França, no México e nos Estados Unidos.

Em Paris, o Festival du Réel exi­be Cabra mar­ca­do para mor­rer, há 30 anos prê­mio de melhor fil­me do fes­ti­val, e Sobreviventes de Galileia em ses­são comen­ta­da pelo crí­ti­co e his­to­ri­a­dor Paulo Paranaguá.

Em Guadalajara, o Festival Internacional de Cinema Ibero-ame­ri­ca­no do México pro­mo­ve no dia 24 uma mesa com qua­tro docu­men­ta­ris­tas mexi­ca­nos —  Alejandra Islas,  José Rodríguez, Alejandra Sánchez e Luis Tovar —  para o lan­ça­men­to do livro edi­ta­do pelo Imcine (Instituto Mexicano de Cinema) e pelo Conaculta (Centro Nacional de e Cultura e Arte), Homenaje a Eduardo Coutinho.

E em Ohio, o Wexner Center for the Arts da Universidade Columbus exi­be Cabra mar­ca­do para mor­rer, O fim e o princípio e Jogo de cena —  home­na­gem que se repe­ti­rá no Pacific Film Archive, de Berkeley, Califórnia, e no Lincoln Film Center de Nova York.

1. Que bom te ver viva

Marta

Eu sou mor­ta des­de a ida­de de oito anos”.
Cortada da ima­gem em que exis­te, a fra­se não trans­mi­te seu real sen­ti­do. Dor extre­ma. Na essên­cia mes­mo da pes­soa. Modo de ser. Viver mor­ta des­de os oito anos. No fil­me, a fala trans­mi­te uma dor dife­ren­te, não menos inten­sa tal­vez, mas de outra natu­re­za. Depois do fil­me, a radi­ca­li­da­de da afir­ma­ção retor­na, inde­pen­den­te, como con­di­ção trá­gi­ca. Nada defi­ne melhor A família de Elizabeth Teixeira: uma das per­so­na­gens que nos con­ta a his­tó­ria está mor­ta des­de a ida­de de oito anos.

De um cer­to modo o fil­me se ser­ve de um meca­nis­mo seme­lhan­te ao usa­do na for­mu­la­ção des­sa fra­se. Avança nou­tra dire­ção, no con­tra­cam­po do comen­tá­rio de Marta, mas gui­a­do por uma seme­lhan­te máqui­na de via­jar no tem­po, de exis­tir no pre­sen­te sem sair do pas­sa­do: como a per­so­na­gem, cuja vida está mar­ca­da pelo fato de ter mor­ri­do aos oito anos, o fil­me está mar­ca­do pelo fato de Cabra mar­ca­do para mor­rer ter vol­ta­do à vida há trin­ta anos, depois de um per­ver­so esta­do de coma indu­zi­do pelo regi­me mili­tar entre 1964 e 1984.

O pro­ces­so de tra­ba­lho, dife­ren­te do ado­ta­do em Jogo de cena (2007) e As canções (2011), fil­mes em que a câme­ra per­ma­ne­ce plan­ta­da num pon­to à espe­ra dos per­so­na­gens, repe­te o pro­ce­di­men­to de Cabra mar­ca­do para mor­rer - e pre­sen­te tam­bém em O fim e o princípio (2006), outro recen­te tra­ba­lho do dire­tor.

A fil­ma­gem come­ça antes da con­ver­sa pro­pri­a­men­te dita, a câme­ra segue Coutinho para sur­pre­en­der o exa­to momen­to do encon­tro. A bati­da na por­ta — “Oi! Como é que vai? Sua mãe está aí?”; “Bom dia. Está sim. O senhor é o Eduardo Coutinho?” A sur­pre­sa dian­te de uma expres­são ain­da jovem por trás do por­tão — “Como é que vai? Você está bem! Está uma garo­ta!”; “Estou nada”; “Está sim! Vamos entran­do?”; “Vamos”; “Há quan­to tem­po você mora aqui nes­sa casa?”. A sur­pre­sa mai­or dian­te de uma expres­são mais velha na entra­da da casa — “Você? Isaac? Não te reco­nhe­ce­ria, você esta­va tão garo­to lá!” A ale­gria do reen­con­tro com a dona da casa, dias antes de seus 88 anos — “Dona Elizabeth! Como é que vai a senho­ra? A senho­ra está de pé, aí, mara­vi­lho­sa!” Quando a câme­ra bate à por­ta, Marta esta­va pin­tan­do as unhas. Marinês esta­va toman­do banho — “minha mãe está no banho, ela já vai vir. Vamos subir”.

Quase nada acon­te­ce, se pro­cu­ra­mos nes­ses momen­tos uma infor­ma­ção cla­ra e pre­ci­sa sobre um qual­quer pon­to da con­di­ção trá­gi­ca impos­ta à famí­lia de Elizabeth Teixeira. No entan­to, eles são essen­ci­ais para a com­pre­en­são de como os per­so­na­gens e, a par­tir do exem­plo deles, o pró­prio fil­me, por meio de uma resis­tên­cia vital e obs­ti­na­da, ultra­pas­sa­ram as pres­sões que con­de­nam uma pes­soa a viver mor­ta des­de a ida­de de oito anos.

A famí­lia de Elizabeth Teixeira

E ain­da, não ape­nas nes­sas bre­ves cenas, mas em espe­ci­al nelas, A família de Elizabeth Teixeira se defi­ne como expres­são depen­den­te de outra, tem seu pon­to de refe­rên­cia em Cabra mar­ca­do para mor­rer, tal como Marinês diz ter cons­ci­ên­cia de si por­que sua irmã exis­te: “A Marta é meu refe­ren­ci­al de vida”. Toda vez que ela vê a irmã “sen­ta­di­nha, numa cadei­ra, de lon­ge”, pen­sa que não tem mais nada, “a não ser essa mulher aí, para saber de onde vim, para saber quem eu sou”.

Desse mes­mo modo, o fil­me de 2013 tem seu refe­ren­ci­al de vida no fil­me de 1964–1984. É de lá que ele veio, é nele que sabe o que de fato é, “um extra do DVD de Cabra mar­ca­do para mor­rer”, como diz um dos letrei­ros que ante­ci­pam a con­ver­sa com Elizabeth Teixeira e sua famí­lia, as filhas Marta, Marinês e Nevinha, os filhos Isaac e Carlos, os netos Marcos André, Marcela e Juliana, o irmão Manoel Justino.

Antes das con­ver­sas, qua­se dois minu­tos de silên­cio. Letreiros con­tam que nos últi­mos 30 anos Coutinho encon­trou-se vári­as vezes com Elizabeth, mas não teve con­ta­to com nenhum de seus filhos. Planos de cur­ta dura­ção relem­bram o pri­mei­ro encon­tro, em abril de 1962 (foi a pri­mei­ra e últi­ma vez que Coutinho pegou uma câme­ra para fil­mar, como con­tou em diver­sas oca­siões). Relembram o iní­cio da fil­ma­gem de Cabra mar­ca­do para mor­rer, feve­rei­ro de 1964. Relembram o gol­pe mili­tar, a inter­rup­ção do fil­me em abril de 1964, com dois recor­tes de jor­nal.

O pri­mei­ro, sob o títu­lo “Sapé com Deus e pela demo­cra­cia”, diz:

Sapé, 19 (do cor­res­pon­den­te) — A popu­la­ção de Sapé, reju­bi­la­da com a vitó­ria da Democracia con­tra o comu­nis­mo, pro­mo­veu, domin­go últi­mo, mag­ní­fi­ca pas­se­a­ta em que toma­ram par­te cer­ca de 5 mil pes­so­as, des­ta­can­do-se a par­ti­ci­pa­ção da mulher sape­en­se (…) A con­cen­tra­ção ter­mi­nou com uma mis­sa ofi­ci­a­da pelo vigá­rio local no adro da matriz, ouvi­da por todos os inte­gran­tes da Marcha da Família.

O segun­do, sob o títu­lo “João Pessoa mar­chou com Deus pela liber­da­de”, diz:

A Paraíba deu ontem à tar­de mais uma vibran­te demons­tra­ção do seu espí­ri­to cris­tão e da sua irre­cu­sá­vel voca­ção demo­crá­ti­ca. O fato está nas fotos. Unidos pelo mes­mo sen­ti­men­to cris­tão e espí­ri­to demo­crá­ti­co, auto­ri­da­des e a popu­la­ção de João Pessoa rea­li­za­ram, ontem, a mar­cha da famí­lia com Deus pela Liberdade.

Finalmente, depois de um pla­no do rei­ní­cio das fil­ma­gens, em janei­ro de 1981, sal­ta­mos para na fave­la de Ramos, no Rio, janei­ro de 2013, para a con­ver­sa com Marta, filha de Elizabeth:

Eu sou mor­ta des­de a ida­de de oito anos”.

Na ver­da­de exis­tem ain­da dois outros pla­nos silen­ci­o­sos cola­dos no letrei­ro que anun­cia a con­ver­sa com Marta: ela na foto de famí­lia de 1962 e na fil­ma­gem de 1981.

Quando final­men­te come­ça, a con­ver­sa con­ti­nua algo dei­xa­do pelo meio em Cabra mar­ca­do para mor­rer. Ao lado de Marta, o filho, Marcos, con­ta sua visi­ta à casa da avó — foi para ficar um mês, ficou oito meses. Marta comen­ta riso­nha: “ele gos­ta dela, fica falan­do dela, de Elizabeth. Elizabeth pra lá, Elizabeth pra cá. A Marinês tam­bém gos­ta dela, eu é que… não fui mui­to cri­a­da com ela. Eu gos­to dela, mas…” Coutinho pro­cu­ra ir além do “mas” e das reti­cên­ci­as: “A senho­ra foi cri­a­da por dona Lia, mãe de João Pedro, e a senho­ra falou no fil­me, em 81, que a senho­ra… enfim… foi dada no ven­tre. Isso é meio comum no Nordeste. A senho­ra ficou mui­to mago­a­da com isso?”.

Não, ela não ficou. Ficou mago­a­da quan­do os pais a toma­ram de vol­ta da casa da avó. Aos oito anos de ida­de eles a toma­ram de vol­ta — “minha mãe, per­gun­tei pra ela, ela falou que foi meu pai”. Coutinho per­gun­ta por que ela não gos­tou de ir viver com a mãe e o pai — “por­que esta­va acos­tu­ma­da com Dona Lia?”. Marta res­pon­de que sim e con­ta como foi:

A mãe esta­va grá­vi­da, a avó era par­tei­ra. “Dona Lia era par­tei­ra. Então minha avó veio fazer o par­to da minha mãe. Minha avó Lia ficou um mês com a minha mãe”. No dia de vol­tar para casa, “minha avó me arru­mou, me deu banho, eu esta­va toda ves­ti­di­nha, fui me des­pe­dir, pedir a bên­ção a meu pai”. E o pai dis­se: “a Marta não vai”. A avó “caiu duri­nha”. Marta, “Deus me livre! Foi o mai­or auê”, mor­reu: “Eu sou mor­ta des­de a ida­de de oito anos. Com oito anos eles me mata­ram. Aos oito anos me mata­ram. Meu Deus!, eu falei, o que vier daqui pra fren­te é lucro. O que vies­se dali pra fren­te, era lucro”.

Dali pra fren­te, lucro nenhum. Primeiro, o assas­si­na­to do pai — “Minha mãe sofreu mui­to naque­la épo­ca, que nem um bicho. A gen­te tinha até medo de che­gar na por­ta do quar­to. Ela sofreu, mas sofreu mui­to”. Dois anos depois, per­deu da mãe, obri­ga­da a se escon­der e a dar os filhos para serem cri­a­dos pelos avós e tios. Mais tar­de, grá­vi­da, 20 anos, veio sozi­nha para o Rio. Casou-se, teve cin­co filhos. Mas ape­nas três estão vivos. Um foi víti­ma de um assal­to num pon­to de ôni­bus, mor­reu com um tiro na cabe­ça. Outro, mor­reu numa bri­ga.

Reencontrou a mãe em 1984, quan­do Elizabeth veio ao Rio para uma das pri­mei­ras pro­je­ções de Cabra mar­ca­do para mor­rer na Cinemateca do Museu de Arte Moderna. Depois dis­so nun­ca mais vol­tou a ver a mãe. Soube dela pelo filho, Marcos, que depois de visi­tar a avó fica “Elizabeth pra cá, Elizabeth pra lá”.

Eduardo Coutinho com Carlos e Elizabeth

A famí­lia dila­ce­ra­da em 1964 não con­se­guiu se recom­por depois do reen­con­tro, até cer­to pon­to medi­a­do pelo cine­ma, em 1984. Os irmãos con­ti­nu­a­ram sepa­ra­dos, mãe e filhas não vol­ta­ram a se encon­trar. Marinês acei­ta, mas não enten­de. “A dis­tân­cia foi tão gran­de que cri­ou uma fri­e­za entre nós”. A famí­lia, para ela, era Marta, que man­dou bus­cá-la na Paraíba quan­do ela era ain­da uma cri­an­ça e vivia joga­da na casa de um tio — “algo foi aba­fa­do den­tro de cada um de nós”.
Por isso, quan­do pen­sa na vida, Marinês tem a sen­sa­ção de estar ven­do um fil­me. “Quando você vê um bom fil­me, você cho­ra, você sen­te, você ri, mas não é a sua vida. É um fil­me”. O avô, por exem­plo, “todo mun­do fala hor­ro­res de meu avô”, mas ela não esque­ce que ele cor­ta­va aba­ca­xi para ela, des­cas­ca­va laran­ja para ela, “fazia aque­la tira para jogar no telha­do”. Um homem assim “é um homem bom, não é? Nunca me bateu”, mas “vai enten­der”, Marinês ain­da não tinha onze anos quan­do o avô a expul­sou de casa. Jogou-a para morar com um tio, Antônio Vitor, que a rece­beu com uma adver­tên­cia: “filha de João Pedro na minha casa não cir­cu­la”. Confinada no quin­tal da casa, com “um bal­de e uma man­guei­ra para lavar car­ros”, tra­ba­lha­va para se sus­ten­tar. Ficou lá qua­se dois anos. “Quando Marta sou­be, man­dou me bus­car”.

Nos fatos, uma evi­den­te tra­gé­dia. Nos ges­tos, nas pala­vras, nos ros­tos, não. A mor­te aos oito anos de ida­de não impe­diu Marta de viver. A expul­são da casa do avô não apa­ga da memó­ria de Marinês a lem­bran­ça da “coi­sa mais lin­da que já vi na vida”. Um dia rece­beu uma ordem do avô: “hoje você não vai à esco­la”. Ele e ela, com um aven­tal­zi­nho bran­co, foram pas­se­ar na plan­ta­ção de algo­dão. Enquanto pare­cem con­tar a vida sofri­da e difí­cil, Marta e Marinês — e todos os outros — con­tam na ver­da­de uma outra coi­sa: como não incor­po­ra­ram a con­di­ção trá­gi­ca que lhes foi impos­ta. Contam como con­se­gui­ram supe­rar a mor­te aos oito anos de ida­de e a expul­são de casa antes dos onze anos. Não no que con­tam, mas no modo de con­tar, pro­mo­vem uma revi­ra­vol­ta. Fatalismo posi­ti­vo, defi­niu Coutinho cer­ta vez. O sofri­men­to extre­mo tor­na-se uma expres­são de vida: “Eu sou mor­ta des­de a ida­de de oito anos” quer dizer “depois de mor­rer, nas­ci de novo”.

Eduardo Coutinho e Marinês

 

Um silên­cio antes da con­ver­sa, outro mais depois dela — e nele, dois letrei­ros nos reme­tem ao silên­cio que enco­briu o assas­si­na­to de João Pedro Teixeira.

O pri­mei­ro diz:

João Pedro foi assas­si­na­do por dois sol­da­dos da Polícia Militar, auxi­li­a­dos pelo vaquei­ro de uma fazen­da do lati­fun­diá­rio Agnaldo Veloso Borges, suplen­te de depu­ta­do esta­du­al.

O segun­do acres­cen­ta:

O juiz de Sapé decre­tou a pri­são pre­ven­ti­va de Agnaldo, apon­ta­do como um dos man­dan­tes do cri­me. Mas ele livrou-se da pri­são e do pro­ces­so, assu­min­do uma cadei­ra na Assembleia Legislativa. Agnaldo era o quin­to suplen­te. Um depu­ta­do e qua­tro suplen­tes renun­ci­a­ram no mes­mo dia per­mi­tin­do a sua pos­se. Em mar­ço de 1965, os dois poli­ci­ais que mata­ram João Pedro foram absol­vi­dos por una­ni­mi­da­de pelo tri­bu­nal do júri.

2. Fotos de cena

Em letras bran­cas sobre fun­do pre­to, o títu­lo: Sobreviventes de Galileia. Depois, local e data: Pernambuco, janei­ro de 2013. Logo, ima­gem colo­ri­da, um car­ro, cami­nho estrei­to — “será aque­la estra­di­nha de meu tem­po, ou não? Capaz de ser, não?” —  em bus­ca de uma casa —  “é essa casa mes­mo, pode parar”.

Novo letrei­ro  — Cícero -, duas bre­ves ima­gens em silên­cio, Cícero em 1964 e em 1981, e o reen­con­tro:

Seu Cícero, está lem­bra­do? Reconheceu?”

Estou reco­nhe­cen­do, gra­ças a Deus.”

Quem é?”

É Coutinho.”

Um abra­ço. Um sor­ri­so em silên­cio. E uma série de qua­se nadas, velhos ami­gos reto­mam o fio da mea­da:

Grande Cícero!”

Tá aca­ba­di­nho, tá velho que nem eu.”

Não, você está moço.”

Estou moço?”

A cara é igual.”

Como pas­sou por esse tem­po, de lá pra cá?”

Coutinho se lem­bra:

Faz 31 anos que eu fil­mei o senhor!”

Cícero tinha cer­te­za, eles vol­ta­ri­am a se ver:

Está escri­to, até a pedras se encon­tram. E a gen­te, tan­to tem­po!, nos encon­tra­mos nova­men­te. Graças a Deus, não é?”

Conversam à von­ta­de, mais ou menos como trans­cri­to aci­ma. Mais ou menos assim, por­que os ami­gos falam tam­bém, e por vezes prin­ci­pal­men­te, por meio do que se diz sem pala­vras e do que o fil­me (o que eles fize­ram em 1964 e em 1981 e o que fazem ago­ra) diz por cima das pala­vras. Por trás do abra­ço — entre con­ten­ta­men­to de um, “Eta Coutinho!”, e de outro, “Grande Cícero!” — um meni­no se esti­ca para entrar em qua­dro e rir para a câme­ra. A rigor, um peque­no e con­ten­te espec­ta­dor da cena. Passa rápi­do pela ima­gem, tal­vez nem tenha sido nota­do na fil­ma­gem, tal­vez nem seja per­ce­bi­do na pro­je­ção. De qual­quer modo, isso que na pro­je­ção se vê sem ver de ver­da­de, o riso do meni­no por trás dos per­so­na­gens em pri­mei­ro pla­no, subli­nha a atmos­fe­ra ale­gre dos qua­se-nadas que com­põem a con­ver­sa entre os mais velhos.

Sobreviventes

Quase-nadas mar­cam tam­bém a con­ver­sa seguin­te, que se intro­duz igual­men­te por dois letrei­ros — o pri­mei­ro, Vitória de Santo Antão; o segun­do, João José (o Dão da Galileia) — antes de uma ima­gem sem som de João José em 1981. Como no pri­mei­ro encon­tro, reto­ma-se uma con­ver­sa ini­ci­a­da há lon­go tem­po:

Olha ele lá!”

Amigo velho!”

Eta, nós! Pra te achar aqui, rapaz!

Velho ami­go, vem pra cá, sai do sol. Vem para cá, vou abrir a por­ta aqui.”

Um abra­ço pon­tua a con­ver­sa:

Coutinho, meu ami­go!”

Jota!”

Nós esta­mos velhos!”

Veja você!”

Mas é mui­ta sau­da­de. A sau­da­de minha e a dos com­pa­nhei­ros que ain­da estão vivos”.

Da varan­da a con­ver­sa vai para den­tro de casa. João José acen­de a luz da sala, abre a por­ta da cozi­nha — “fica mais cla­ro, e pega tudo” — e vai bus­car umas fotos. Imagens: eles con­ver­sam como se a câme­ra nem esti­ves­se ali, mas não se esque­cem de que foi atra­vés do cine­ma que se tor­na­ram ami­gos. Por cau­sa da ima­gem e por meio dela estão ali colo­can­do a con­ver­sa em dia: Coutinho e Jota, Coutinho e Dão da Galileia — não entre­vis­ta­dor e entre­vis­ta­dos, não Eduardo Coutinho  e  João José do Nascimento. Nem Eduardo Coutinho e Cícero Anastácio da Silva, mas Coutinho, Jota, Cícero.

Cícero, oiten­ta e dois anos — “estou mou­co, não ouço bem não” — con­ti­nua em Galileia mas já não tra­ba­lha na lavou­ra — “as per­nas não aguen­tam”. A mulher mor­reu. Ele mora com um dos qua­tro filhos, não mui­to dis­tan­te da sede da Associação dos Pequenos Agricultores de Galileia. Coutinho não esque­ce, dor­miu lá no pri­mei­ro de abril de 1964, depois de o exér­ci­to inva­dir a Galileia.

João José não vive mais em Galileia. Correu meio mun­do — “mais de mês na França, mais de mês na Tchecoslováquia”, qua­tro anos em Cuba. Trabalhou nove anos como vigi­lan­te — “tro­can­do bala com ban­di­do, matan­do ban­di­do”. Foi can­di­da­to a pre­fei­to. Casou-se, teve seis filhos — “e é tudo mulher”  —  e sepa­rou-se depois de 15 anos. Trocou o sítio por seis casas na cida­de, onde todos o conhe­cem como o Dão da Galileia. Vive sozi­nho, o “urso” aca­bou com tudo. Deseja ape­nas, como diz, rin­do gos­to­sa­men­te, ao se des­pe­dir de Coutinho, ter saú­de, pros­pe­ri­da­de, dinhei­ro — “dinhei­ro, pra mim tirar o meu” — e mulher — “mulher, pra tomar con­ta de minha casa”.

Dão da Galileia

 

Cicero guar­da fotos do perío­do em que tra­ba­lhou numa meta­lúr­gi­ca, guar­da uma car­ta envi­a­da por Coutinho em 1981. João José guar­da fotos das fil­ma­gens de 1981, e outras dele ao lado do Bia (Severino Geraldo da Silva), João Virgínio e de cam­po­ne­ses que não par­ti­ci­pa­ram do fil­me, mas foram igual­men­te pre­sos em 1964, como Pedro do Uruguai e Júlio Santana, que mor­re­ram na pri­são. As fotos, na mão de Jota, na mão de Cícero e na de seu filho Wilson, são fil­ma­das como os per­so­na­gens vivos, isto é: não “posam”, não são espe­ci­al­men­te ilu­mi­na­das e enqua­dra­das pela câme­ra, não saem do espa­ço da cena: vemos o ins­tan­te pre­ci­so em que Coutinho se encon­tra com elas nas mãos dos ami­gos.

Além das fotos, outras ima­gens do pas­sa­do. Amizades cons­truí­das em tor­no de uma cena de cine­ma, a con­ver­sa é entre­cor­ta­da pelo cine­ma, por depoi­men­tos de João José e de Cícero fil­ma­dos em 2007 por Cláudio Bezerra. Neles, João, extro­ver­ti­do, lem­bra da pas­sa­gem por Londres — “sal­ta­mos no aero­por­to e anda­mos duas horas de táxi para ir para outro aero­por­to”. Lembra da visi­ta à tor­re Eiffel em Paris, só até o segun­do andar, por­que, expli­ca entre risa­das, pra cima era mais caro e pare­cia meio peri­go­so — “pode essa mer­da cair aqui e a gen­te mor­re”.

Cícero, a fala pau­sa­da, repe­te, duas, três e mais vezes — em res­pos­ta à per­gun­ta “o senhor acha que a luta valeu a pena?” — que sim, a luta valeu a pena:

Valeu a pena, a luta. A luta, valeu a pena. Apesar de estar essa vio­lên­cia, mas valeu a pena. Valeu a pena a luta. Porque hoje nin­guém é cati­vo mais como eu era, não. Eu era cati­vo. Vivia num cati­vei­ro. Eu tra­ba­lha­va sete dias da sema­na. Eu tra­ba­lha­va os sete. De sete a sete, não podia des­can­sar. Hoje nin­guém mais é cati­vo de patrão. Ninguém é cati­vo de nin­guém”.

E aqui, depois de per­ce­ber o que de fato impor­ta, o jei­to enco­lhi­do de Cícero, a irre­ve­rên­cia de João, tal­vez seja pos­sí­vel dar-se con­ta do que faz do cine­ma de Eduardo Coutinho um espe­ci­al cúm­pli­ce da vida — de acor­do com a expres­são de Walter Lima Jr. num comen­tá­rio escri­to em 1984 sobre Cabra mar­ca­do para mor­rer. No docu­men­tá­rio de 2007, a câme­ra con­ver­sa com as pes­so­as — solí­ci­ta, dis­cre­ta, de per­to, a uma dis­tân­cia res­pei­to­sa. Traz o entre­vis­ta­do para den­tro da cena. Transporta Cícero e João da rea­li­da­de mate­ri­al em que vivem para a rea­li­da­de-outra do cine­ma.

No fil­me de 2013, ela ao mes­mo tem­po pro­vo­ca uma qual­quer coi­sa na rea­li­da­de viva dos per­so­na­gens e logo se colo­ca à dis­po­si­ção des­sa qual­quer coi­sa. A rea­li­da­de-outra do cine­ma é trans­por­ta­da para a dos per­so­na­gens. Velhos conhe­ci­dos botam a con­ver­sa em dia. A câme­ra, enquan­to isso, algo extra­or­di­ná­rio, diria Coutinho, con­ver­sa com a vida.

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