Algo extraordinário

Cinema

20.03.14

A expressão, muitas vezes usada por Coutinho para pontuar a fala ou chamar a atenção para determinado ponto da conversa, aplica-se com perfeição aos dois extras especialmente produzidos pelo Instituto Moreira Salles para complementar o DVD de Cabra marcado para morrer: A família de Elizabeth Teixeira e Sobreviventes de Galileia. Aplica-se com perfeição a eles e aos documentários de Eduardo Coutinho de um modo geral: algo extraordinário.

Nessa mesma semana em que o IMS lança o DVD de Cabra marcado para morrer e promove uma mesa de debates (com a participação de Zelito Viana, Eduardo Escorel e Walter Lima Jr.), o cinema de Eduardo Coutinho está sendo homenageado na França, no México e nos Estados Unidos.

Em Paris, o Festival du Réel exibe Cabra marcado para morrer, há 30 anos prêmio de melhor filme do festival, e Sobreviventes de Galileia em sessão comentada pelo crítico e historiador Paulo Paranaguá.

Em Guadalajara, o Festival Internacional de Cinema Ibero-americano do México promove no dia 24 uma mesa com quatro documentaristas mexicanos –  Alejandra Islas,  José Rodríguez, Alejandra Sánchez e Luis Tovar –  para o lançamento do livro editado pelo Imcine (Instituto Mexicano de Cinema) e pelo Conaculta (Centro Nacional de e Cultura e Arte), Homenaje a Eduardo Coutinho.

E em Ohio, o Wexner Center for the Arts da Universidade Columbus exibe Cabra marcado para morrer, O fim e o princípio e Jogo de cena –  homenagem que se repetirá no Pacific Film Archive, de Berkeley, Califórnia, e no Lincoln Film Center de Nova York.

1. Que bom te ver viva

 

Marta

“Eu sou morta desde a idade de oito anos”.

Cortada da imagem em que existe, a frase não transmite seu real sentido. Dor extrema. Na essência mesmo da pessoa. Modo de ser. Viver morta desde os oito anos. No filme, a fala transmite uma dor diferente, não menos intensa talvez, mas de outra natureza. Depois do filme, a radicalidade da afirmação retorna, independente, como condição trágica. Nada define melhor A família de Elizabeth Teixeira: uma das personagens que nos conta a história está morta desde a idade de oito anos.

De um certo modo o filme se serve de um mecanismo semelhante ao usado na formulação dessa frase. Avança noutra direção, no contracampo do comentário de Marta, mas guiado por uma semelhante máquina de viajar no tempo, de existir no presente sem sair do passado: como a personagem, cuja vida está marcada pelo fato de ter morrido aos oito anos, o filme está marcado pelo fato de Cabra marcado para morrer ter voltado à vida há trinta anos, depois de um perverso estado de coma induzido pelo regime militar entre 1964 e 1984.

O processo de trabalho, diferente do adotado em Jogo de cena (2007) e As canções (2011), filmes em que a câmera permanece plantada num ponto à espera dos personagens, repete o procedimento de Cabra marcado para morrer – e presente também em O fim e o princípio (2006), outro recente trabalho do diretor.

A filmagem começa antes da conversa propriamente dita, a câmera segue Coutinho para surpreender o exato momento do encontro. A batida na porta – “Oi! Como é que vai? Sua mãe está aí?”; “Bom dia. Está sim. O senhor é o Eduardo Coutinho?” A surpresa diante de uma expressão ainda jovem por trás do portão – “Como é que vai? Você está bem! Está uma garota!”; “Estou nada”; “Está sim! Vamos entrando?”; “Vamos”; “Há quanto tempo você mora aqui nessa casa?”. A surpresa maior diante de uma expressão mais velha na entrada da casa – “Você? Isaac? Não te reconheceria, você estava tão garoto lá!” A alegria do reencontro com a dona da casa, dias antes de seus 88 anos – “Dona Elizabeth! Como é que vai a senhora? A senhora está de pé, aí, maravilhosa!” Quando a câmera bate à porta, Marta estava pintando as unhas. Marinês estava tomando banho – “minha mãe está no banho, ela já vai vir. Vamos subir”.

Quase nada acontece, se procuramos nesses momentos uma informação clara e precisa sobre um qualquer ponto da condição trágica imposta à família de Elizabeth Teixeira. No entanto, eles são essenciais para a compreensão de como os personagens e, a partir do exemplo deles, o próprio filme, por meio de uma resistência vital e obstinada, ultrapassaram as pressões que condenam uma pessoa a viver morta desde a idade de oito anos.

 

A família de Elizabeth Teixeira

E ainda, não apenas nessas breves cenas, mas em especial nelas, A família de Elizabeth Teixeira se define como expressão dependente de outra, tem seu ponto de referência em Cabra marcado para morrer, tal como Marinês diz ter consciência de si porque sua irmã existe: “A Marta é meu referencial de vida”. Toda vez que ela vê a irmã “sentadinha, numa cadeira, de longe”, pensa que não tem mais nada, “a não ser essa mulher aí, para saber de onde vim, para saber quem eu sou”.

Desse mesmo modo, o filme de 2013 tem seu referencial de vida no filme de 1964-1984. É de lá que ele veio, é nele que sabe o que de fato é, “um extra do DVD de Cabra marcado para morrer“, como diz um dos letreiros que antecipam a conversa com Elizabeth Teixeira e sua família, as filhas Marta, Marinês e Nevinha, os filhos Isaac e Carlos, os netos Marcos André, Marcela e Juliana, o irmão Manoel Justino.

Antes das conversas, quase dois minutos de silêncio. Letreiros contam que nos últimos 30 anos Coutinho encontrou-se várias vezes com Elizabeth, mas não teve contato com nenhum de seus filhos. Planos de curta duração relembram o primeiro encontro, em abril de 1962 (foi a primeira e última vez que Coutinho pegou uma câmera para filmar, como contou em diversas ocasiões). Relembram o início da filmagem de Cabra marcado para morrer, fevereiro de 1964. Relembram o golpe militar, a interrupção do filme em abril de 1964, com dois recortes de jornal.

O primeiro, sob o título “Sapé com Deus e pela democracia”, diz:

Sapé, 19 (do correspondente) – A população de Sapé, rejubilada com a vitória da Democracia contra o comunismo, promoveu, domingo último, magnífica passeata em que tomaram parte cerca de 5 mil pessoas, destacando-se a participação da mulher sapeense (…) A concentração terminou com uma missa oficiada pelo vigário local no adro da matriz, ouvida por todos os integrantes da Marcha da Família.

O segundo, sob o título “João Pessoa marchou com Deus pela liberdade”, diz:

A Paraíba deu ontem à tarde mais uma vibrante demonstração do seu espírito cristão e da sua irrecusável vocação democrática. O fato está nas fotos. Unidos pelo mesmo sentimento cristão e espírito democrático, autoridades e a população de João Pessoa realizaram, ontem, a marcha da família com Deus pela Liberdade.

Finalmente, depois de um plano do reinício das filmagens, em janeiro de 1981, saltamos para na favela de Ramos, no Rio, janeiro de 2013, para a conversa com Marta, filha de Elizabeth:

“Eu sou morta desde a idade de oito anos”.

Na verdade existem ainda dois outros planos silenciosos colados no letreiro que anuncia a conversa com Marta: ela na foto de família de 1962 e na filmagem de 1981.

Quando finalmente começa, a conversa continua algo deixado pelo meio em Cabra marcado para morrer. Ao lado de Marta, o filho, Marcos, conta sua visita à casa da avó – foi para ficar um mês, ficou oito meses. Marta comenta risonha: “ele gosta dela, fica falando dela, de Elizabeth. Elizabeth pra lá, Elizabeth pra cá. A Marinês também gosta dela, eu é que… não fui muito criada com ela. Eu gosto dela, mas…” Coutinho procura ir além do “mas” e das reticências: “A senhora foi criada por dona Lia, mãe de João Pedro, e a senhora falou no filme, em 81, que a senhora… enfim… foi dada no ventre. Isso é meio comum no Nordeste. A senhora ficou muito magoada com isso?”.

Não, ela não ficou. Ficou magoada quando os pais a tomaram de volta da casa da avó. Aos oito anos de idade eles a tomaram de volta – “minha mãe, perguntei pra ela, ela falou que foi meu pai”. Coutinho pergunta por que ela não gostou de ir viver com a mãe e o pai – “porque estava acostumada com Dona Lia?”. Marta responde que sim e conta como foi:

A mãe estava grávida, a avó era parteira. “Dona Lia era parteira. Então minha avó veio fazer o parto da minha mãe. Minha avó Lia ficou um mês com a minha mãe”. No dia de voltar para casa, “minha avó me arrumou, me deu banho, eu estava toda vestidinha, fui me despedir, pedir a bênção a meu pai”. E o pai disse: “a Marta não vai”. A avó “caiu durinha”. Marta, “Deus me livre! Foi o maior auê”, morreu: “Eu sou morta desde a idade de oito anos. Com oito anos eles me mataram. Aos oito anos me mataram. Meu Deus!, eu falei, o que vier daqui pra frente é lucro. O que viesse dali pra frente, era lucro”.

Dali pra frente, lucro nenhum. Primeiro, o assassinato do pai – “Minha mãe sofreu muito naquela época, que nem um bicho. A gente tinha até medo de chegar na porta do quarto. Ela sofreu, mas sofreu muito”. Dois anos depois, perdeu da mãe, obrigada a se esconder e a dar os filhos para serem criados pelos avós e tios. Mais tarde, grávida, 20 anos, veio sozinha para o Rio. Casou-se, teve cinco filhos. Mas apenas três estão vivos. Um foi vítima de um assalto num ponto de ônibus, morreu com um tiro na cabeça. Outro, morreu numa briga.

Reencontrou a mãe em 1984, quando Elizabeth veio ao Rio para uma das primeiras projeções de Cabra marcado para morrer na Cinemateca do Museu de Arte Moderna. Depois disso nunca mais voltou a ver a mãe. Soube dela pelo filho, Marcos, que depois de visitar a avó fica “Elizabeth pra cá, Elizabeth pra lá”.

 

Eduardo Coutinho com Carlos e Elizabeth

A família dilacerada em 1964 não conseguiu se recompor depois do reencontro, até certo ponto mediado pelo cinema, em 1984. Os irmãos continuaram separados, mãe e filhas não voltaram a se encontrar. Marinês aceita, mas não entende. “A distância foi tão grande que criou uma frieza entre nós”. A família, para ela, era Marta, que mandou buscá-la na Paraíba quando ela era ainda uma criança e vivia jogada na casa de um tio – “algo foi abafado dentro de cada um de nós”.

Por isso, quando pensa na vida, Marinês tem a sensação de estar vendo um filme. “Quando você vê um bom filme, você chora, você sente, você ri, mas não é a sua vida. É um filme”. O avô, por exemplo, “todo mundo fala horrores de meu avô”, mas ela não esquece que ele cortava abacaxi para ela, descascava laranja para ela, “fazia aquela tira para jogar no telhado”. Um homem assim “é um homem bom, não é? Nunca me bateu”, mas “vai entender”, Marinês ainda não tinha onze anos quando o avô a expulsou de casa. Jogou-a para morar com um tio, Antônio Vitor, que a recebeu com uma advertência: “filha de João Pedro na minha casa não circula”. Confinada no quintal da casa, com “um balde e uma mangueira para lavar carros”, trabalhava para se sustentar. Ficou lá quase dois anos. “Quando Marta soube, mandou me buscar”.

Nos fatos, uma evidente tragédia. Nos gestos, nas palavras, nos rostos, não. A morte aos oito anos de idade não impediu Marta de viver. A expulsão da casa do avô não apaga da memória de Marinês a lembrança da “coisa mais linda que já vi na vida”. Um dia recebeu uma ordem do avô: “hoje você não vai à escola”. Ele e ela, com um aventalzinho branco, foram passear na plantação de algodão. Enquanto parecem contar a vida sofrida e difícil, Marta e Marinês – e todos os outros – contam na verdade uma outra coisa: como não incorporaram a condição trágica que lhes foi imposta. Contam como conseguiram superar a morte aos oito anos de idade e a expulsão de casa antes dos onze anos. Não no que contam, mas no modo de contar, promovem uma reviravolta. Fatalismo positivo, definiu Coutinho certa vez. O sofrimento extremo torna-se uma expressão de vida: “Eu sou morta desde a idade de oito anos” quer dizer “depois de morrer, nasci de novo”.

 

Eduardo Coutinho e Marinês

Um silêncio antes da conversa, outro mais depois dela – e nele, dois letreiros nos remetem ao silêncio que encobriu o assassinato de João Pedro Teixeira.

O primeiro diz:

João Pedro foi assassinado por dois soldados da Polícia Militar, auxiliados pelo vaqueiro de uma fazenda do latifundiário Agnaldo Veloso Borges, suplente de deputado estadual.

O segundo acrescenta:

O juiz de Sapé decretou a prisão preventiva de Agnaldo, apontado como um dos mandantes do crime. Mas ele livrou-se da prisão e do processo, assumindo uma cadeira na Assembleia Legislativa. Agnaldo era o quinto suplente. Um deputado e quatro suplentes renunciaram no mesmo dia permitindo a sua posse. Em março de 1965, os dois policiais que mataram João Pedro foram absolvidos por unanimidade pelo tribunal do júri.

2. Fotos de cena

Em letras brancas sobre fundo preto, o título: Sobreviventes de Galileia. Depois, local e data: Pernambuco, janeiro de 2013. Logo, imagem colorida, um carro, caminho estreito – “será aquela estradinha de meu tempo, ou não? Capaz de ser, não?” –  em busca de uma casa –  “é essa casa mesmo, pode parar”.

Novo letreiro  – Cícero -, duas breves imagens em silêncio, Cícero em 1964 e em 1981, e o reencontro:

“Seu Cícero, está lembrado? Reconheceu?”

“Estou reconhecendo, graças a Deus.”

“Quem é?”

“É Coutinho.”

Um abraço. Um sorriso em silêncio. E uma série de quase nadas, velhos amigos retomam o fio da meada:

“Grande Cícero!”

“Tá acabadinho, tá velho que nem eu.”

“Não, você está moço.”

“Estou moço?”

“A cara é igual.”

“Como passou por esse tempo, de lá pra cá?”

Coutinho se lembra:

“Faz 31 anos que eu filmei o senhor!”

Cícero tinha certeza, eles voltariam a se ver:

“Está escrito, até a pedras se encontram. E a gente, tanto tempo!, nos encontramos novamente. Graças a Deus, não é?”

Conversam à vontade, mais ou menos como transcrito acima. Mais ou menos assim, porque os amigos falam também, e por vezes principalmente, por meio do que se diz sem palavras e do que o filme (o que eles fizeram em 1964 e em 1981 e o que fazem agora) diz por cima das palavras. Por trás do abraço – entre contentamento de um, “Eta Coutinho!”, e de outro, “Grande Cícero!” – um menino se estica para entrar em quadro e rir para a câmera. A rigor, um pequeno e contente espectador da cena. Passa rápido pela imagem, talvez nem tenha sido notado na filmagem, talvez nem seja percebido na projeção. De qualquer modo, isso que na projeção se vê sem ver de verdade, o riso do menino por trás dos personagens em primeiro plano, sublinha a atmosfera alegre dos quase-nadas que compõem a conversa entre os mais velhos.

 

Sobreviventes

Quase-nadas marcam também a conversa seguinte, que se introduz igualmente por dois letreiros – o primeiro, Vitória de Santo Antão; o segundo, João José (o Dão da Galileia) – antes de uma imagem sem som de João José em 1981. Como no primeiro encontro, retoma-se uma conversa iniciada há longo tempo:

“Olha ele lá!”

“Amigo velho!”

“Eta, nós! Pra te achar aqui, rapaz!

“Velho amigo, vem pra cá, sai do sol. Vem para cá, vou abrir a porta aqui.”

Um abraço pontua a conversa:

“Coutinho, meu amigo!”

“Jota!”

“Nós estamos velhos!”

“Veja você!”

“Mas é muita saudade. A saudade minha e a dos companheiros que ainda estão vivos”.

Da varanda a conversa vai para dentro de casa. João José acende a luz da sala, abre a porta da cozinha – “fica mais claro, e pega tudo” – e vai buscar umas fotos. Imagens: eles conversam como se a câmera nem estivesse ali, mas não se esquecem de que foi através do cinema que se tornaram amigos. Por causa da imagem e por meio dela estão ali colocando a conversa em dia: Coutinho e Jota, Coutinho e Dão da Galileia – não entrevistador e entrevistados, não Eduardo Coutinho  e  João José do Nascimento. Nem Eduardo Coutinho e Cícero Anastácio da Silva, mas Coutinho, Jota, Cícero.

Cícero, oitenta e dois anos – “estou mouco, não ouço bem não” – continua em Galileia mas já não trabalha na lavoura – “as pernas não aguentam”. A mulher morreu. Ele mora com um dos quatro filhos, não muito distante da sede da Associação dos Pequenos Agricultores de Galileia. Coutinho não esquece, dormiu lá no primeiro de abril de 1964, depois de o exército invadir a Galileia.

João José não vive mais em Galileia. Correu meio mundo – “mais de mês na França, mais de mês na Tchecoslováquia”, quatro anos em Cuba. Trabalhou nove anos como vigilante – “trocando bala com bandido, matando bandido”. Foi candidato a prefeito. Casou-se, teve seis filhos – “e é tudo mulher”  –  e separou-se depois de 15 anos. Trocou o sítio por seis casas na cidade, onde todos o conhecem como o Dão da Galileia. Vive sozinho, o “urso” acabou com tudo. Deseja apenas, como diz, rindo gostosamente, ao se despedir de Coutinho, ter saúde, prosperidade, dinheiro – “dinheiro, pra mim tirar o meu” – e mulher – “mulher, pra tomar conta de minha casa”.

 

Dão da Galileia

Cicero guarda fotos do período em que trabalhou numa metalúrgica, guarda uma carta enviada por Coutinho em 1981. João José guarda fotos das filmagens de 1981, e outras dele ao lado do Bia (Severino Geraldo da Silva), João Virgínio e de camponeses que não participaram do filme, mas foram igualmente presos em 1964, como Pedro do Uruguai e Júlio Santana, que morreram na prisão. As fotos, na mão de Jota, na mão de Cícero e na de seu filho Wilson, são filmadas como os personagens vivos, isto é: não “posam”, não são especialmente iluminadas e enquadradas pela câmera, não saem do espaço da cena: vemos o instante preciso em que Coutinho se encontra com elas nas mãos dos amigos.

Além das fotos, outras imagens do passado. Amizades construídas em torno de uma cena de cinema, a conversa é entrecortada pelo cinema, por depoimentos de João José e de Cícero filmados em 2007 por Cláudio Bezerra. Neles, João, extrovertido, lembra da passagem por Londres – “saltamos no aeroporto e andamos duas horas de táxi para ir para outro aeroporto”. Lembra da visita à torre Eiffel em Paris, só até o segundo andar, porque, explica entre risadas, pra cima era mais caro e parecia meio perigoso – “pode essa merda cair aqui e a gente morre”.

Cícero, a fala pausada, repete, duas, três e mais vezes – em resposta à pergunta “o senhor acha que a luta valeu a pena?” – que sim, a luta valeu a pena:

“Valeu a pena, a luta. A luta, valeu a pena. Apesar de estar essa violência, mas valeu a pena. Valeu a pena a luta. Porque hoje ninguém é cativo mais como eu era, não. Eu era cativo. Vivia num cativeiro. Eu trabalhava sete dias da semana. Eu trabalhava os sete. De sete a sete, não podia descansar. Hoje ninguém mais é cativo de patrão. Ninguém é cativo de ninguém”.

E aqui, depois de perceber o que de fato importa, o jeito encolhido de Cícero, a irreverência de João, talvez seja possível dar-se conta do que faz do cinema de Eduardo Coutinho um especial cúmplice da vida – de acordo com a expressão de Walter Lima Jr. num comentário escrito em 1984 sobre Cabra marcado para morrer. No documentário de 2007, a câmera conversa com as pessoas – solícita, discreta, de perto, a uma distância respeitosa. Traz o entrevistado para dentro da cena. Transporta Cícero e João da realidade material em que vivem para a realidade-outra do cinema.

No filme de 2013, ela ao mesmo tempo provoca uma qualquer coisa na realidade viva dos personagens e logo se coloca à disposição dessa qualquer coisa. A realidade-outra do cinema é transportada para a dos personagens. Velhos conhecidos botam a conversa em dia. A câmera, enquanto isso, algo extraordinário, diria Coutinho, conversa com a vida.

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