Ali Smith, caça-fantasmas

Literatura

05.04.13

Conheci Ali Smith em 2008, quan­do ela lan­çou a edi­ção por­tu­gue­sa do roman­ce The acci­den­tal (no Brasil, Por aca­so, Companhia das Letras). Brotou uma sim­pa­tia recí­pro­ca. Ela ia ini­ci­ar a escri­ta de um novo livro e sali­va­va por reclu­são, depois dos ossos do ofí­cio que foram as sema­nas na divul­ga­ção inter­na­ci­o­nal de Por aca­so. Perguntou se eu não conhe­cia uma caver­na secre­ta em Portugal, “ou mes­mo um con­ven­to”. Graças a Deus, des­con­fi­ei que a auto­ra esta­va brin­can­do. Claro que esta­va.

Cinco anos depois, Ali ente­sou­rou cafu­nés, noto­ri­e­da­de e pedi­gree crí­ti­cos e lite­rá­ri­os. Alain de Botton decla­rou-a “um gênio”. Por aca­so foi fina­lis­ta dos prê­mi­os Booker e Orange, e embol­sou o Whitebread, que no rare­fei­to Olimpo anglo-saxô­ni­co não fica um milí­me­tro atrás daque­les em pres­tí­gio. Seu mais recen­te roman­ce, There but for the, foi entro­ni­za­do pelo The Guardiancomo um dos títu­los de 2011.

Desta vez, deci­do cutu­car a onça com vara cur­ta. Os prê­mi­os são uma mão na roda para um escri­tor? Ou ele é um mon­ge bene­di­ti­no, para quem fama e dinhei­ro não atam nem desa­tam? Ali Smith sor­ri com bene­vo­lên­cia. “Os prê­mi­os dão mais segu­ran­ça ao autor, no mun­do sel­va­gem da edi­ção. E aju­dam a divul­gar uma obra, que de outra for­ma tal­vez tives­se pas­sa­do em bran­cas nuvens. Mas os livros não são os prê­mi­os — e estes podem até resul­tar em uma dis­tra­ção do ver­da­dei­ro tra­ba­lho da escri­ta, situ­a­do entre a inti­mi­da­de e a trans­gres­são. Não me impor­ta­ria nada de ser um mon­ge, já que não con­se­gui­mos escre­ver com uma cha­ran­ga tocan­do na nos­sa por­ta”.

Com 49 pri­ma­ve­ras, a auto­ra é esco­ce­sa: mora em Cambridge, mas nas­ceu em Inverness, lar-doce-lar do mons­tro do Lago Ness. Pergunto a ela se, ape­sar das idi­os­sin­cra­si­as de cada escri­tor, exis­te uma fic­ção esco­ce­sa demar­ca­da da ingle­sa. “Por exem­plo, Alasdair Gray, Neil Munro, Irvine Welsh e Ali Smith — pro­sa­do­res tão dife­ren­tes entre si — têm algo em comum?”

Ela se ajei­ta na cadei­ra antes de res­pon­der. “Ô! Sou uma sor­tu­da, como escri­to­ra, por me bene­fi­ci­ar de uma lite­ra­tu­ra cheia de vita­li­da­de, e de des­fru­tá-la ao lon­go de toda a minha vida. É uma lite­ra­tu­ra que sabe que as vozes mui­tas vezes pro­vêm das orlas, de qual­quer nicho, e podem assu­mir qual­quer for­ma. E não há nada de mais impor­tan­te para um escri­tor do que saber dis­so. É tam­bém uma lite­ra­tu­ra pro­du­zi­da pela rea­li­da­de — pelas cir­cuns­tân­ci­as da his­tó­ria — e por­tan­to pode ser (na ver­da­de, é) plu­rí­vo­ca”.

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Artful (2013), lan­ça­men­to de Ali Smith ain­da sem tra­du­ção no Brasil.

Ali é um pou­co tími­da, mas não inse­gu­ra. Agora usa ele­gan­tes ócu­los bordô para ver de per­to, que vira e mexe escor­re­gam sor­ra­tei­ra­men­te até a pon­ta do nariz. Tem um buço bem cons­pí­cuo — uma espé­cie de páli­do códi­go de bar­ras se esguei­ran­do entre o lábio supe­ri­or e as nari­nas. Ela não está nem aí.

Conto que andei dan­do aulas de Escrita Criativa, e de supe­tão cai a ficha: Ali Smith tam­bém já ven­deu seu pei­xe nes­sa mes­ma praia. “A estru­tu­ra da escri­ta (no sen­ti­do de ?edi­ting’) pode ser ensi­na­da. A con­fi­an­ça pode ser trans­mi­ti­da a um autor. A dis­ci­pli­na pode ser acon­se­lha­da. Sugestões podem ser dadas. Eu não remo­de­la­ria um livro, mas apre­sen­ta­ria os meus con­se­lhos, incluin­do os de lei­tu­ra”.

Que lei­tu­ras con­si­de­ra­ria essen­ci­ais a um lei­tor adul­to con­tem­po­râ­neo?”, pergunto.A minha inter­lo­cu­to­ra faz uma care­ta his­tri­ô­ni­ca. “Ai, só de ouvir essa per­gun­ta a minha cabe­ça vira uma Arca de Noé, cheia de cri­a­tu­ras latin­do, guin­chan­do, rugin­do ?eu, eu, eu!’. Shakespeare, Chaucer, Cervantes, aque­le gran­de escri­tor (pro­va­vel­men­te, escri­to­ra) Anon, todos balan­çan­do a arca até vir o dilú­vio de tudo o que já foi escri­to. Todo mun­do que lê está sain­do da arca como um pás­sa­ro e vol­tan­do com um rami­nho de folhas — ter­ra! — ape­nas para tro­car por outro livro, e assim suces­si­va­men­te”.

Ali aca­ba de lan­çar mais uma obra, que dei­xou o pan­teão bri­tâ­ni­co todo assa­nha­do. O livro se inti­tu­la Artful(edi­ta­do pela Hamish Hamilton) e estam­pa na capa uma loi­ra engas­ta­da numa pol­tro­na como um dia­man­te num anel.

Artful” em inglês quer dizer astu­to, esper­ta­lhão, enge­nho­so. Mas o títu­lo reme­te a Artful Dodger, uma per­so­na­gem endi­a­bra­da do roman­ce Oliver Twist, de Charles Dickens: um mole­que de rua que lide­ra uma qua­dri­lha de pun­guis­tas den­tes-de-lei­te. Acontece que a obra de Ali Smith come­ça pre­ci­sa­men­te com uma mulher devo­ran­do um exem­plar decré­pi­to do clás­si­co dic­ken­si­a­no, edi­ção Penguin. A lei­tu­ra é entre­cor­ta­da por sus­pi­ros enlu­ta­dos — há pre­ci­sa­men­te um ano, a lei­to­ra per­deu seu companheiro/a (o gêne­ro é deli­be­ra­da­men­te omi­ti­do). De súbi­to, ela ouve uns pas­sos mor­ti­ços subin­do a esca­da. Ergue os olhos e se depa­ra com — para con­ti­nu­ar dic­ken­si­a­no — o sau­do­so fan­tas­ma do Natal pas­sa­do: “Era você… Usava uma rou­pa man­cha­da, amar­ro­ta­da, ras­ga­da. E aque­le cole­te pre­to com cos­tu­ra bran­ca, que tinha saí­do de moda em 1995… E pare­cia machu­ca­do”.

Trata-se de um espec­tro sem nome nem gêne­ro, res­mun­gão, que se expri­me numa alga­ra­via que a dona da casa aca­ba por iden­ti­fi­car como gre­go (tem a ver com a loi­ra da capa!). Uma das fra­ses que o ecto­plas­ma gru­nhe é: “O que é real?”

A pala­vra ?art­ful’ é mara­vi­lho­sa, com seus lados som­bri­os e lumi­no­sos. Quando sur­giu um con­vi­te para pales­tras em Oxford, lem­brei que Dickens havia publi­ca­do ?Oliver Twist’ enquan­to o ia escre­ven­do, numa cor­ri­da con­tra o tem­po. Resolvi ler esse roman­ce enquan­to escre­via as con­fe­rên­ci­as e ver o que rola­va”.

Como o tram­bi­quei­ro mirim de Dickens, o visi­tan­te do Além tam­bém não é lá flor que se chei­re: afa­na con­tro­les de TV e DVD, xíca­ras de café, pin­ças e apon­ta­do­res de lápis. Exala um odor putre­fa­to, que irá apor­ri­nhar os vizi­nhos até estes dei­xa­rem reca­dos beli­co­sos na cai­xa do cor­reio. Se a sobre­vi­ven­te é arbo­ris­ta pro­fis­si­o­nal (mun­do peque­no: Ali Smith dei­ta e rola na des­cri­ção de árvo­res e vege­ta­ção em geral…), o fan­tas­ma era escri­tor, e seme­ou pela casa as notas de seus ensai­os, que serão devi­da­men­te lidos e comen­ta­dos — pela lei­to­ra e por nós, lei­to­res.

De fini­nho, o livro vai assu­min­do uma estru­tu­ra meta­mór­fi­ca: meio rela­to góti­co, meio tra­ta­do aca­dê­mi­co; meio ele­gia por uma pai­xão funes­ta, meio nar­ra­ti­va pós-moder­na, fer­vi­lhan­do de eru­di­ção bibli­o­grá­fi­ca. Os ensai­os “fan­tas­ma­gó­ri­cos” cor­res­pon­dem, na ver­da­de, às con­fe­rên­ci­as sobre arte e lite­ra­tu­ra que Ali Smith deu no St. Anne’s College, da Universidade de Oxford, no inver­no do ano pas­sa­do, divi­di­das em qua­tro seções, sole­ne­men­te inti­tu­la­das “Sobre a for­ma”, “Sobre o tem­po” “Sobre a mar­gem” e “Sobre a dádi­va e a refle­xão”.

Os ensai­os se ocu­pam de uma mis­ce­lâ­nea enci­clo­pé­di­ca de obras e auto­res: Katherine Mansfield, Shakespeare, W.G. Sebald, E.M. Foster, Pasternak, Ovídio, Rilke, J. G. Ballard, Clarice Lispector, Freud, Safo, Wallace Stevens, Czeslaw Milosz, o musi­cal Oliver, a arte de Cézanne, Michelangelo, a can­ção “Halo” (de Beyoncé), o docu­men­tá­rio em 3-D Cave of for­got­ten dre­ams (de Werner Herzog). Até que pon­to os tex­tos repro­du­zi­dos no livro são seme­lhan­tes às con­fe­rên­ci­as em Oxford? Ali Smith arre­ga­la os olhos. “Semelhantes? Bota seme­lhan­tes nis­so. São trans­cri­ções lite­rais, pala­vra por pala­vra, vír­gu­la por vír­gu­la. Aliás, min­to. A úni­ca dife­ren­ça é que pude cor­ri­gir um ou outro lap­so come­ti­do na cáte­dra, sobre­tu­do cita­ções impre­ci­sas. Louvado seja Deus!”

Não que, com essa for­ma híbri­da, Ali tenha des­co­ber­to a pól­vo­ra em seu déci­mo livro. Foi mais como Colombo, que acer­tou a América miran­do na China. Basta invo­car a tam­bém bri­tâ­ni­ca Virginia Woolf, que há 80 anos, em Flush, memó­ri­as de um cão, dis­se­cou a bio­gra­fia de Elizabeth Barrett Browning e des­cons­truiu a épo­ca vito­ri­a­na — a par­tir do cachor­ri­nho da poe­ta. Ou Osanéis de Saturno(1995), de W. G. Sebald, em que o nar­ra­dor, hos­pi­ta­li­za­do em esta­do “qua­se catatô­ni­co”, evo­ca andan­ças pelo inte­ri­or da Inglaterra, diva­ga sobre o ciclo de vida do aren­que e pon­ti­fi­ca a res­pei­to da revo­lu­ção de Taiping na China do sécu­lo XIX. Verdade: com seu for­te fra­qui­nho pela meta­lin­gua­gem e pelas entre­li­nhas, a lite­ra­tu­ra pós-moder­na arras­ta um bon­de pela biga­mia entre fic­ção e teo­ria. Os crí­ti­cos anglo-saxô­ni­cos até talha­ram dois neo­lo­gis­mos para o feti­che — e bem fei­nhos, por sinal: “essic­ti­on” e “fic­ti­os­say”.

Um ensaio recen­te de Nicholas Dames, “The the­ory gene­ra­ti­on” (A gera­ção da teo­ria), publi­ca­do na revis­ta n+1, des­cre­ve A visi­ta cru­el do tem­po, de Jennifer Egan, A tra­ma do casa­men­to, de Jeffrey Eugenides, Leaving the Atocha Station, de Bem Lerner, e Correções, de Jonathan Franzen, como “roman­ces teó­ri­cos” — que­ren­do com isso dizer que são his­tó­ri­as rea­lis­tas nas quais os per­so­na­gens con­tem­plam, dis­cu­tem e por vezes ten­tam viver segun­do dou­tri­nas pós-moder­nas ou pós-estru­tu­ra­lis­tas reti­ra­das da crí­ti­ca lite­rá­ria. Ou seja: a pola­ri­da­de teo­ria-prá­ti­ca plan­ta bana­nei­ra.

No entan­to, Ali vai bem mais lon­ge e intro­duz uma espé­cie de role­ta rus­sa lite­rá­ria, onde nun­ca sabe­mos quan­do a bala de um gêne­ro vai dis­pa­rar e ful­mi­nar o outro à quei­ma-rou­pa. Desponta uma gra­de fic­ci­o­nal para o ensaís­mo con­cei­tu­al: a mími­ca afe­ti­va (ao mes­mo tem­po sotur­na e bur­les­ca) entre a enlu­ta­da e o fan­tas­ma. A pró­pria auto­ra dá nome aos bois: “Sempre hou­ve um diá­lo­go, uma dis­cus­são entre a for­ma esté­ti­ca e a rea­li­da­de. Isso nos per­mi­te não ape­nas ima­gi­nar um mun­do dife­ren­te e irre­al, mas tam­bém um mun­do real dife­ren­te, para jogar com a rea­li­da­de enquan­to pos­si­bi­li­da­de alter­na­ti­va”. Algo como uma outra dimen­são quân­ti­ca. Ou, mais pro­sai­ca­men­te, como sonhar acor­da­do. Freud já can­tou a bola: se não sonhás­se­mos, mor­re­ría­mos — ou enlou­que­ce­ría­mos.

Ali Smith é a escri­to­ra ide­al para atra­ves­sar essa cor­da-bam­ba sobre o abis­mo semió­ti­co, enquan­to lá embai­xo os cro­co­di­los canô­ni­cos escan­ca­ram suas man­dí­bu­las (ou as serei­as-musas ento­am seus cân­ti­cos). É qua­se pal­pá­vel o pra­zer que ela, na mai­or mole­ca­gem, extrai da lin­gua­gem e da for­ma, sal­ti­tan­do de Gerard Manley Hopkins para José Saramago, de Dickens para os cine­as­tas Powell e Pressburger, de Wislawa Szymborska para Hitchcock, tudo em pou­cos e aero­di­nâ­mi­cos pará­gra­fos, qua­se como se pati­nas­se no gelo com um pé nas cos­tas (e o gelo nun­ca se que­bra).

Ali Smith não é, ao mes­mo tem­po, o pol­ter­geist escri­tor e a juru­ru lei­to­ra de Artful? Claro. Acontece que os “ensai­os”, a teia roma­nes­ca e as rumi­na­ções do nar­ra­dor sobre a per­da só são pos­sí­veis atra­vés da for­ma pela qual tan­to a ven­tu­ra como a des­ven­tu­ra se sedi­men­tam, seja na arte mais feé­ri­ca, seja na nos­sa vidi­nha boro­coxô. Trocando em miú­dos: não é ape­nas Artful Dodger nem mui­to menos o fan­tas­ma mão-leve da ensaís­ta mor­ta que sub­tra­em coi­sas de um lim­bo para outro. Ali Smith faz o mes­mo. Todos os escri­to­res fazem o mes­mo. Todos os artis­tas fazem o mes­mo. Todos Mandrakes, tiran­do coe­lhos da car­to­la, ser­ran­do mulhe­res ao meio, vola­ti­zan­do numa nuvem de fuma­ça um volun­tá­rio do dis­tin­to públi­co. Uns melho­res do que os outros, evi­den­te­men­te.

E aque­le ecu­me­nis­mo con­cei­tu­al dela, osci­lan­do entre o clás­si­co e o pop, nun­ca der­ra­pa nem se esta­te­la na piro­tec­nia mal-ajam­bra­da. Pelo con­trá­rio: com sua ver­sa­ti­li­da­de de cani­ve­te suí­ço, Ali recon­ci­lia o sério e o ligei­ro, o den­so e o poro­so, numa pro­sa de uma lim­pi­dez dia­man­ti­na. Na ver­da­de, subi­mos com ela pelos con­cei­tos como se fos­se por uma esca­da rolan­te. A fan­tas­ma­go­ria lite­ral des­se livro real­ça o fato de que qual­quer fic­ção é, no fun­do, pro­du­zi­da por uma ausên­cia: que algo, invo­ca­do ou “mate­ri­a­li­za­do” pelo autor, é expan­di­do e reci­cla­do nova­men­te na avi­dez do lei­tor por sig­ni­fi­ca­do. Assim, toda escri­ta cor­res­pon­de à con­vo­ca­ção e apa­ri­ção de algo como um fan­tas­ma — daí que, no final, não res­te nada a não ser as pró­pri­as pala­vras.

No ano pas­sa­do, Ali Smith foi — com Jonathan Franzen — a figu­ri­nha carim­ba­da do Festival Literário de Edimburgo (um dos mais bada­la­dos da Europa). Em sua alo­cu­ção, pro­vo­cou gar­ga­lha­das na pla­teia ao pegar no pé de Paulo Coelho, rela­tan­do o então fres­qui­nho bes­tei­rol des­te, de que o Ulisses de Joyce cabe con­for­ta­vel­men­te num tuí­te, e de que a capa­ci­da­de de tor­nar sim­ples coi­sas com­pli­ca­das é o que faz dele, Coelho, um gran­de escri­tor con­tem­po­râ­neo. “Repare, o meu comen­tá­rio foi no âmbi­to do tema do fes­ti­val, que era ?Conteúdo ver­sus esti­lo’. Não tenho mui­to a acres­cen­tar, a não ser repe­tir que nada é real­men­te nefas­to para a lite­ra­tu­ra, a não ser a cen­su­ra — e mes­mo sob esta a lite­ra­tu­ra seguiu em fren­te. Pessoalmente, con­fes­so que pre­fi­ro um bom esti­lo de escri­ta, se não for pedir mui­to. É dema­si­a­do óbvio que uma exce­len­te pro­sa não pre­ju­di­ca o enre­do, e mui­to menos os temas. E, cla­ro, des­con­fio que, se fos­se vivo, Joyce escre­ve­ria mag­ní­fi­cos tui­tes…”

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Aliki Vougiouklaki (1934–1996), atriz gre­ga que ilus­tra a capa de Artful.

Ali Smith é uma con­tis­ta magis­tral — para Michael Chabon, os con­tos dela estão entre os melho­res de um autor vivo, de qual­quer naci­o­na­li­da­de. O volu­me Primeira pes­soa saiu no Brasil pela Companhia das Letras. Sobre a tran­si­ção do con­to para o roman­ce, ela diz que tama­nho não impor­ta. “É somen­te outra for­ma, com as suas pró­pri­as difi­cul­da­des. Romances são difí­ceis por­que são lon­gos, con­tos são difí­ceis por­que são cur­tos. Mas ambos depen­dem para fun­ci­o­nar de uma estru­tu­ra mui­to pre­ci­sa, cuja essên­cia é a pró­pria lin­gua­gem. Contos são mui­to fle­xí­veis, con­se­guem nar­rar o que bem enten­dem, ao pas­so que na dimen­são do roman­ce isso pare­ce menos viá­vel. Mas não é peca­do trans­por fron­tei­ras, com­bi­nar gêne­ros, per­mi­tir que os roman­ces ado­tem for­mas elás­ti­cas, como os melho­res con­tos. É uma bes­tei­ra os edi­to­res jul­ga­rem que os lei­to­res não apre­ci­am con­tos só por­que não des­co­bri­ram como ven­dê-los. Isso é uma ges­tão men­ti­ro­sa”.

Na capa de seu livro está Aliki Vougiouklaki, a atriz gre­ga que mor­reu em 1996. Ela tam­bém desem­pe­nha um papel impor­tan­te em Artful.

Ah, é uma his­tó­ria e tan­to. Há cer­ca de 15 anos, eu esta­va de féri­as em Creta. Uma tar­de, de bobei­ra no quar­to do hotel, desa­tei a zape­ar oci­o­sa­men­te canais de TV — eu sei: pare­ce filis­teu, com aque­le mar­zão gre­go bom­ban­do lá fora… Mas foi assim que encon­trei um fil­me deli­ci­o­so da déca­da de 1960, com uma garo­ta ado­rá­vel e uma tri­lha sono­ra irre­sis­tí­vel. Como não fala­va gre­go, foi difí­cil deci­frar qual­quer coi­sa sobre aque­la mulher, que se reve­lou uma das mais famo­sas atri­zes da Grécia, ou sobre o com­po­si­tor, um dos mais admi­ra­dos músi­cos gre­gos, Manos Hatzidakis. Mas nun­ca esque­ci aque­le fil­me. Porém, com o adven­to do YouTube, e a aju­da de alguns DVD com legen­das em inglês, apren­di mui­ta coi­sa sobre a indús­tria cine­ma­to­grá­fi­ca da Grécia. Quanto a Aliki… Bom, se você está para­do no meio de Roma e fala o nome de Sophia Loren, ou no meio de Paris e fala o nome de Brigitte Bardot, ou em Los Angeles e fala o nome de Marilyn Monroe — é exa­ta­men­te como estar no cen­tro de Atenas, ou em qual­quer outro can­to da Grécia, e falar em Aliki Vougiouklaki. Uma estre­la por­ten­to­sa — e tão pou­co conhe­ci­da no res­to do mun­do… É intri­gan­te. Em todo caso, quan­do come­cei a escre­ver esse livro, Aliki regres­sou ao meu espí­ri­to pre­ci­sa­men­te devi­do à sua astú­cia. E, para­do­xal­men­te, por cau­sa de sua ino­cên­cia e sim­pli­ci­da­de. Em seus fil­mes, ela sem­pre suge­re um ser huma­no viven­do sua vida e não uma atriz repre­sen­tan­do um papel. E é capaz de inter­pre­tar tan­to Antígona quan­to uma coris­ta de um musi­cal — uma figu­ra tra­gicô­mi­ca”.

Na Ilíada, de Homero, os gre­gos “lan­ça­ram ao mar mil navi­os” — por cau­sa de uma mulher, Helena. Por essa e tam­bém por outras razões, Artfulé um livro homé­ri­co. Mas sem cal­ca­nhar de Aquiles.

* Paulo Nogueira é escri­tor e crí­ti­co, autor do roman­ce O amor é um lugar comum.

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