Alice no país do Alzheimer

No cinema

13.03.15

Confesso que, além do dever de ofí­cio, duas coi­sas me leva­ram a ver Para sem­pre Alice, de Richard Glatzer e Wash Westmoreland: o fas­cí­nio pelo tema do mal de Alzheimer e a curi­o­si­da­de pelo desem­pe­nho de Julianne Moore, a esplên­di­da atriz de Short cuts, Tio Vânia em Nova York e Magnólia. Ela, de fato, é extra­or­di­ná­ria. O fil­me, nem tan­to. 

O que o Alzheimer tem de fas­ci­nan­te é jus­ta­men­te o que tem de mais ter­rí­vel – a dis­so­lu­ção pro­gres­si­va da per­so­na­li­da­de do indi­ví­duo, de suas memó­ri­as, de suas refe­rên­ci­as, de tudo aqui­lo a que damos o nome de “eu”. Para sem­pre Alice até que des­cre­ve esse pro­ces­so de modo con­vin­cen­te, mas sem apro­fun­dar e desen­vol­ver suas vári­as pos­si­bi­li­da­des, man­ten­do-se nos limi­tes rasos do melo­dra­ma fami­li­ar. De cer­to modo, as regras e cli­chês do gêne­ro é que impe­dem uma abor­da­gem mais inven­ti­va ou rigo­ro­sa da situ­a­ção.

Diálogos e músi­ca

Trata-se, como se sabe, da his­tó­ria de uma pro­fes­so­ra uni­ver­si­tá­ria de lin­guís­ti­ca (Juliane Moore) que, aos 50 anos, é diag­nos­ti­ca­da como por­ta­do­ra de uma for­ma rara do mal de Alzheimer. O pro­ble­ma do fil­me é que cada aspec­to do dra­ma pes­so­al de Alice é expos­to, dis­cu­ti­do e resol­vi­do nos diá­lo­gos. É pou­co mais que uma ilus­tra­ção audi­o­vi­su­al do livro de Lisa Genova em que se base­ou.

Julianne Moore em cena do filme

Contam-se nos dedos os momen­tos em que se bus­cou uma expres­são espe­ci­fi­ca­men­te cine­ma­to­grá­fi­ca para o mal de Alice. Um deles é a cena em que, ao fazer seu jog­ging habi­tu­al, ela se per­de em ple­no cam­pus da Universidade Columbia, que conhe­ce – ou deve­ria conhe­cer – como a pal­ma de sua mão. Enquanto a câme­ra gira em tor­no da per­so­na­gem está­ti­ca, as pes­so­as, árvo­res e obje­tos em vol­ta vão per­den­do o foco até qua­se diluí­rem-se num bor­rão mul­ti­cor.

Também a pri­mei­ra mani­fes­ta­ção da falên­cia men­tal de Alice tem sua con­tun­dên­cia: no meio de uma pales­tra, em que fala­va de modo desen­vol­to sobre uma assun­to que domi­na­va, ela esque­ce uma pala­vra bási­ca – e faz-se o silên­cio. O silên­cio, que sem­pre pro­du­ziu des­con­for­to no cine­ma fala­do (Godard diz, com razão, que a tele­vi­são não com­por­ta o silên­cio), tem-se tor­na­do cada vez mais raro, sobre­tu­do nas pro­du­ções ame­ri­ca­nas – e esta não é exce­ção – enchar­ca­das de pala­vró­rio, efei­tos sono­ros, músi­ca bom­bás­ti­ca ou sen­ti­men­tal. Pena que os dire­to­res de Para sem­pre Alice não tenham segui­do sua pró­pria dica, optan­do em vez dis­so por expli­car as idei­as pela pala­vra e enfa­ti­zar as emo­ções pela músi­ca.

Outros dra­mas

Seria injus­to com­pa­rar este fil­me com Amor (2012), de Michael Haneke, que abor­da um tema seme­lhan­te e tam­bém con­ta com uma atriz mag­ní­fi­ca, Emmanuelle Riva. Não só por­que os per­so­na­gens de Haneke são um casal de ido­sos, mas por­que seu tema, como autor, sem­pre foi a ambi­gui­da­de dos sen­ti­men­tos, a pro­xi­mi­da­de entre o amor e a cru­el­da­de. Mas o cote­jo é ine­vi­tá­vel, até por­que a últi­ma pala­vra de Para sem­pre Alice é jus­ta­men­te, “amor”. 

Se no fil­me de Michael Haneke a pala­vra é pro­ble­ma­ti­za­da – de tal modo que no clí­max da nar­ra­ti­va o amor se tra­duz no ges­to mais bru­tal que pode haver –, em Para sem­pre Alice tudo con­flui para a men­sa­gem edi­fi­can­te do amor como bál­sa­mo, qua­se como “cura”. Há uma aco­mo­da­ção nar­ra­ti­va para encai­xar, pre­vi­si­vel­men­te, a velha pará­bo­la do filho pró­di­go – da filha pró­di­ga, no caso.

Como não se pode espe­rar peras do olmo, isto é, que da linha de mon­ta­gem hollywo­o­di­a­na saia uma obra de Haneke, tal­vez um para­le­lo mais ade­qua­do pudes­se ser fei­to com outro melo­dra­ma fami­li­ar ame­ri­ca­no que lida com doen­ça dege­ne­ra­ti­va, O óleo de Lorenzo (1992), de George Miller. Neste, sem aban­do­nar os códi­gos e limi­tes do gêne­ro, o dire­tor mer­gu­lhou mais fun­do nas impli­ca­ções lógi­cas da doen­ça e, sobre­tu­do, nos con­fli­tos dra­má­ti­cos entre os per­so­na­gens, sem apa­rar ares­tas para aco­mo­dar sua “men­sa­gem”. E foi pró­di­go em solu­ções nar­ra­ti­vas e visu­ais, em con­tras­te com a mise-en-scè­ne buro­crá­ti­ca e o campo/contracampo abor­re­ci­do que pre­do­mi­nam em Alice

A des­pei­to de tudo o que foi dito aci­ma, vale a pena ver Para sem­pre Alice, des­de que as expec­ta­ti­vas não sejam mui­to altas. Vale por­que o Alzheimer é um dos gran­des fan­tas­mas de nos­so tem­po – e vale, cla­ro, por Julianne Moore.

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