Amantes eternos’ e zumbis efêmeros

No cinema

22.08.14

São mui­tas as por­tas de entra­da para uma obra poten­te e rica de sig­ni­fi­ca­dos como Amantes eter­nos, de Jim Jarmusch. Vamos ten­tar o aces­so por uma delas, a da rela­ção do fil­me com o mito ances­tral do vam­pi­ro, tal como cris­ta­li­za­do no final do sécu­lo XIX no Drácula de Bram Stoker.

Drácula, obs­cu­ro con­de da Transilvânia, per­so­ni­fi­ca­va, de cer­to modo, uma nobre­za para­si­tá­ria, deca­den­te e antis­so­ci­al, con­tra­pos­ta à labo­ri­o­sa e pro­du­ti­va soci­e­da­de bur­gue­sa que tinha na ciên­cia seu prin­ci­pal ins­tru­men­to de afir­ma­ção e con­quis­ta. O vam­pi­ro era, tan­to lite­ral como meta­fo­ri­ca­men­te, um san­gues­su­ga, que, ao sor­ver a sei­va vital da juven­tu­de sau­dá­vel, con­ta­mi­na­va-a com seu hedo­nis­mo liber­ti­no, seu cul­to ao ócio e à vida notur­na impro­du­ti­va.

Inversão de sinais

Pois bem. O fil­me de Jarmusch inver­te ver­ti­gi­no­sa­men­te esses sinais. Os aman­tes vam­pi­ros, com os nomes arque­tí­pi­cos de Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton), são depo­si­tá­ri­os do que a cul­tu­ra huma­na pro­du­ziu de melhor ao lon­gos dos milê­ni­os, em ter­mos de ciên­cia, lite­ra­tu­ra, filo­so­fia, artes. Quem cor­rom­pe e des­trói o pla­ne­ta, con­ta­mi­nan­do o ar, a água e, de que­bra, o san­gue são os mor­tais comuns, que eles cha­mam sig­ni­fi­ca­ti­va­men­te de zum­bis.

A esco­lha do cená­rio prin­ci­pal do fil­me, a cida­de onde Adam vive, não pode­ria ter sido mais cer­tei­ra. Com a cri­se da indús­tria auto­mo­bi­lís­ti­ca nor­te-ame­ri­ca­na, Detroit virou qua­se uma cida­de fan­tas­ma, ple­na de ter­re­nos e edi­fí­ci­os aban­do­na­dos, asso­la­da pelo desem­pre­go, pela vio­lên­cia e pelas dro­gas. Mas no futu­ro, vati­ci­na Eve, “quan­do as cida­des do sul esti­ve­rem quei­man­do”, Detroit vol­ta­rá a flo­res­cer, por­que dis­põe do bem mais pre­ci­o­so, a água.

O car­ro e o cine­ma

Por enquan­to, a cida­de encar­na o fim de uma civi­li­za­ção. Uma das mais belas cenas do fil­me é a do casal no inte­ri­or das ruí­nas de um gran­de cine-tea­tro. Adam lem­bra que foi exa­ta­men­te ali que Henry Ford cons­truiu o pro­tó­ti­po de seu pri­mei­ro car­ro. Agora esse duplo túmu­lo do cine­ma e do auto­mó­vel é um esta­ci­o­na­men­to. Do movi­men­to ao repou­so, da potên­cia à estag­na­ção.

A melan­co­lia que tin­ge todo o fil­me é mati­za­da pelo humor esper­to e cons­tan­te. Referências artís­ti­cas e lite­rá­ri­as joco­sas pon­tu­am a nar­ra­ti­va. O prin­ci­pal ami­go vam­pi­ro do casal é nin­guém menos que Christopher Marlowe (John Hurt), poe­ta e dra­ma­tur­go con­tem­po­râ­neo de Shakespeare, a quem acu­sa de ter rou­ba­do algu­mas de suas obras. “Aquele zum­bi ile­tra­do”, diz ele a cer­ta altu­ra, refe­rin­do-se ao bar­do. O pró­prio Adam, músi­co e com­po­si­tor de gênio, teria cedi­do um adá­gio a Schubert, dois sécu­los atrás.

Ambiente retrô e tem­po cir­cu­lar

Um dos encan­tos do fil­me é o ambi­en­te que Adam cons­truiu para si. Guitarras vin­ta­ge, ampli­fi­ca­do­res val­vu­la­dos, dis­cos de vinil, gra­va­do­res de rolo… Sua casa pare­ce um museu vivo do iní­cio dos anos 60, como se a cul­tu­ra oci­den­tal tives­se atin­gi­do ali uma espé­cie de clas­si­cis­mo. Mesmo a tec­no­lo­gia mais avan­ça­da, como uma con­ver­sa com ima­gem pelo Skype, é medi­a­da por um tele­vi­sor retrô de tubo e vál­vu­las.

Do pon­to de vis­ta da cons­tru­ção ima­gé­ti­ca, duas coi­sas cha­mam espe­ci­al­men­te a aten­ção: a ambi­en­ta­ção exclu­si­va­men­te notur­na (numa Detroit e numa Tânger par­ca­men­te ilu­mi­na­das) e a recor­rên­cia do movi­men­to cir­cu­lar, seja dos obje­tos (o dis­co na vitro­la, por exem­plo) ou da pró­pria câme­ra, que do alto obser­va os aman­tes e os põe a girar. Os dois pro­ce­di­men­tos reme­tem à situ­a­ção dos pro­ta­go­nis­tas: eles só exis­tem à noi­te e vivem uma espé­cie de tem­po cícli­co, cujas inter­sec­ções com o tem­po cro­no­ló­gi­co da his­tó­ria (o tem­po line­ar dos “zum­bis”) nem sem­pre são pací­fi­cas.

Com sua ele­gân­cia fan­tas­má­ti­ca, os pro­ta­go­nis­tas reve­lam, por onde pas­sam, a pobre­za esté­ti­ca e espi­ri­tu­al de nos­sa épo­ca, em que, por “medo da pró­pria ima­gi­na­ção”, os zum­bis redu­zem as poten­ci­a­li­da­des huma­nas a uma ati­vi­da­de fre­né­ti­ca de con­su­mo e des­per­dí­cio, cuja capi­tal sim­bó­li­ca é Los Angeles – iro­ni­ca­men­te a cida­de do auto­mó­vel e do cine­ma.

Bala de madei­ra

À par­te isso, o fil­me tem pelo menos duas saca­das bri­lhan­tes: a ideia da bala de madei­ra, úni­ca manei­ra pela qual um vam­pi­ro pode­ria se sui­ci­dar de modo rápi­do e indo­lor, e o duplo cará­ter de ali­men­to e dro­ga exta­si­an­te que o san­gue adqui­re ao ser con­su­mi­do pelos pro­ta­go­nis­tas.

A tri­lha sono­ra, que vai de Paganini ao roc­ka­billy de Charlie Feathers, é um delei­te à par­te, bem como a atu­a­ção do trio prin­ci­pal de vam­pi­ros, que pare­cem con­cen­trar no olhar hip­nó­ti­co e no tim­bre atem­po­ral da voz toda a sabe­do­ria do mun­do.

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