Amazônia, pátria das águas

Fotografia

02.05.13

"Amazônia"

Quando o livro Amazônia (edi­to­ra Práxis), com fotos de Claudia Andujar e George Love, foi lan­ça­do em 1978, ficou sem uma par­te fun­da­men­tal: o tex­to de Thiago de Mello fei­to espe­ci­al­men­te para a publi­ca­ção, bati­za­do de Amazônia — Pátria das águas. Ele foi cen­su­ra­do pela dita­du­ra mili­tar, que já cami­nha­va para o oca­so, mas con­ti­nu­a­va res­trin­gin­do os tra­ba­lhos de artis­tas, em espe­ci­al os que desa­fi­a­vam fron­tal­men­te o regi­me, caso do poe­ta de Faz escu­ro mas eu can­to.

Thiago diz que che­gou a ver a edi­ção com seu tex­to incluí­do, mas, se ela cir­cu­lou, foi pou­co. Suas pala­vras em defe­sa da Amazônia saí­ram mais tar­de numa edi­ção da Civilização Brasileira e, mais recen­te­men­te, pela Global-Gaia, ilus­tra­das com dese­nhos e pin­tu­ras dos índi­os ticu­nas e foto­gra­fi­as de Claudio Marigo.

O tex­to que ganhou uma aura míti­ca por cau­sa da cen­su­ra é repro­du­zi­do aqui no Blog em fun­ção da expo­si­ção Fotolivros lati­no-ame­ri­ca­nos, em car­taz no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro. Uma das salas da mos­tra é dedi­ca­da ape­nas a Amazônia, um mar­co na his­tó­ria dos foto­li­vros e deci­si­vo nas car­rei­ras de Claudia Andujar e George Love.

De 7 a 10 de maio o IMS-RJ pro­mo­ve­rá tam­bém o semi­ná­rio Fotolivros lati­no-ame­ri­ca­nos, para­le­lo à expo­si­ção, com o obje­ti­vo de pro­mo­ver o deba­te sobre a his­tó­ria dos livros de foto­gra­fia e o novo lugar dos livros de arte no cená­rio da pro­du­ção edi­to­ri­al con­tem­po­râ­nea. As ins­cri­ções estão aber­tas.

Assista ago­ra a um vídeo, que cons­ta da expo­si­ção, com as pági­nas de Amazônia, e em segui­da leia o tex­to inte­gral de Thiago de Mello.

 

http://www.youtube.com/watch?v=S5i849_Xzww

Amazônia, pátria das águas

 

Da altu­ra extre­ma da cor­di­lhei­ra, onde as neves são eter­nas, a água se des­pren­de, e tra­ça trê­mu­la um ris­co na pele anti­ga da pedra: o Amazonas aca­ba de nas­cer. A cada ins­tan­te ele nas­ce. Descende deva­gar, para cres­cer no chão. Varando ver­des, faz o seu cami­nho e se acres­cen­ta. Aguas sub­ter­râ­ne­as aflo­ram para abra­çar-se com a água que des­ceu dos Andes. De mais alto ain­da, des­ce a água celes­te. Reunidas elas avan­çam, mul­ti­pli­ca­das em infi­ni­tos cami­nhos, banhan­do a imen­sa pla­ní­cie cor­ta­da pela linha do Equador.

Planície que ocu­pa a vigé­si­ma par­te da super­fí­cie ter­res­tre. O ver­de uni­ver­so equa­to­ri­al que abran­ge nove paí­ses da América Latina e ocu­pa qua­se a meta­de do ter­ri­tó­rio bra­si­lei­ro. Aqui está a mai­or reser­va mun­di­al de água doce, rami­fi­ca­da em milha­res de cami­nhos de água, que atra­ves­sam milhões de quilô­me­tros qua­dra­dos de chão ver­de. É a Amazônia, a pátria da água.

É a Grande Amazônia, toda ela no tró­pi­co úmi­do, com a sua flo­res­ta com­pac­ta e ator­do­an­te, onde ain­da pal­pi­ta, into­ca­da pelo homem, a vida que se foi urdin­do em ver­des des­de o ama­nhe­cer do Ter­ciário. Intocada e des­co­nhe­ci­da em mui­to de sua exten­são e de sua ver­da­de, a Amazônia ain­da está sen­do des­co­ber­ta. Iniciado há qua­tro sécu­los, o seu des­co­bri­men­to ain­da não ter­mi­nou. E, no entan­to, pelo que já se conhe­ce da vida na Amazônia, des­de que o homem a habi­ta, ergue-se das fun­du­ras das suas águas e dos altos cen­tros de sua sel­va um ter­rí­vel temor: a de que essa vida este­ja, deva­ga­ri­nho, toman­do o rumo do fim.

Pois então vamos reman­do

na água negra trans­pa­ren­te.

Vem comi­go des­co­brir

as fon­tes ver­des da vida.

Mas con­ti­go tra­vo amor, 

para com dor apren­der.

A este uni­ver­so de água e de ter­ra, de rio e de sel­va, che­gou o homem. É recen­te a sua che­ga­da. Só há dez mil anos, já sabem os cien­tis­tas, che­ga­ram os índi­os à Amazônia e dela fize­ram a sua mora­da. É por­tan­to o tem­po de sua fun­da­ção, do seu ver­da­dei­ro come­ço: o homem che­gan­do para per­ma­ne­cer e para amar.

Da his­tó­ria des­se homem pri­mi­ti­vo, quer dizer, o que che­gou pri­mei­ro, mais adi­an­te um pou­co eu vou con­tar. Muito pou­co, por­que é qua­se nada o que dele ain­da res­ta, escon­di­do nos lon­ges espes­sos da sel­va, agar­ra­do ao sol de sua ino­cên­cia.

Depois os outros che­ga­ram. Os cha­ma­dos bran­cos, com a cruz e o arca­buz; e o san­gue que ia aju­dar a com­por uma nova etnia, ao lon­go de qua­tro sécu­los de aven­tu­ra huma­na. Aventura que se pro­lon­ga, ain­da hoje, mar­ca­da pelo sig­no do desa­mor. Extração, saque, des­trui­ção, exter­mí­nio.

É tem­po de dizer que é dolo­ri­do, para mim, cabo­clo do Amazonas, dizer da ver­da­de da vida que reú­ne, e desu­ne mais que une, as águas, as flo­res­tas, os ani­mais e os homens do Amazonas. Acabo de subir o rio Solimões, des­de o seu encon­tro com o Negro, onde as águas bar­ren­tas de um não se mis­tu­ram com as negrís­si­mas do outro, até o tri­ân­gu­lo amazô­ni­co que for­ma o Brasil com o Peru e a Colômbia. Dias e dias de via­gem, con­tra a cor­ren­te­za, numa peque­na embar­ca­ção a motor. Tempo de enchen­te, o rio cres­ci­do ala­gan­do a vár­zea, der­ru­ban­do case­bres e árvo­res. Horas e horas de via­gem, sem encon­trar uma cri­a­tu­ra huma­na. Só, de repen­te, um ban­do de gar­ças, cri­van­do, alvís­si­mas, a trans­pa­rên­cia da tar­de. E subi­ta­men­te, numa cur­va do rio, uma peque­ni­na canoa bei­ra­va o bar­ran­co, o homem na proa ace­nan­do com o remo, ofe­re­cen­do pei­xe fres­co. O olhar bom, o ges­to gene­ro­so. Mas sofri­do: um filho meni­no lhe vinha de mor­rer, sem nenhu­ma assis­tên­cia, devo­ra­do de febres. Aprendi com aque­le irmão de águas que em tem­pos dolo­ri­dos é pre­ci­so tra­ba­lhar com espe­ran­ça na cons­tru­ção da ale­gria.

Como no Gênesis flu­tu­a­va a cara de Deus, hoje é a espe­ran­ça que pai­ra sobre a face das águas do meu rio. Que ain­da pai­ra. Apesar de tudo. Apesar da des­trui­ção, do saque de suas rique­zas, do desflores­tamento impi­e­do­so, da fau­na ame­a­ça­da, do desam­pa­ro do homem ribei­ri­nho — a espe­ran­ça amzô­ni­ca resis­te. O cora­ção do homem não se can­sa. Se, de tão mal­fe­ri­da, a flo­res­ta se can­sa, este o nos­so gran­de temor.

Vem ver comi­go o rio e suas leis. 

Vem apren­der a ciên­cia dos rebo­jos,

vem escu­tar o can­to dos ban­zei­ros,

o mági­co silên­cio do iga­pó

cober­to por estre­las de esme­ral­da.

Este é o rio que Vicente Pinzón olhou em 1500, sem saber que já havia aban­do­na­do o Atlântico e ingres­sa­va na foz de um oce­a­no de águas doces. Santa Maria de la Mar Dulce. Era o Amazonas vara­do pela qui­lha das cara­ve­las pri­mei­ras. O Paraná-açu dos índi­os que habi­ta­vam as suas mar­gens. Foram mui­tos os seus nomes:

Mar Dulce, o rio de Orellana, 

Marañon. O Guieni dos índi­os aru­a­ques.

Parauaçu dos tupis.

O Grande rio das Amazonas.

Rio Amazonas, que per­cor­re mais de seis mil quilô­me­tros, des­de o fio de água que des­ce do lago Lauri, Lauricocha, na cabe­ça dos Andes, des­ce tam­bém de Vilcanota, e logo se engros­sa no Urubam­ba, trans­for­ma-se no Ucayali, depois já é o cau­dal do Solimões na sel­va peru­a­na, encon­tra a sua calha prin­ci­pal entran­do no Brasil levan­do o mes­mo nome até encon­trar-se com o Negro e então fazer-se Amazonas pro­pri­a­men­te dito, impe­tu­o­so, varan­do pro­fun­do o Estreito de Breves, e encon­trar-se com o Atlântico e empur­rar para trás as águas do mar até enor­mes dis­tân­ci­as.

É ver­da­de que o mar se vin­ga. Reúne as suas for­ças sal­ga­das e retor­na com fúria, em ondas de mui­tos metros de altu­ra, que rolam gros­sas e com gran­de estron­do sobre as águas do rio, der­ru­ban­do mar­gens, afun­dan­do bate­lões e até navi­os.

 

Eu venho des­se rei­no gene­ro­so,

 

onde os homens que nas­cem dos seus ver­des,

 

con­ti­nu­am pro­fun­da­men­te irmãos

 

das coi­sas pode­ro­sas, per­ma­nen­tes,

 

como as águas, os ven­tos e a espe­ran­ça.

 

A lei do rio não ces­sa nun­ca de impor-se sobre a vida dos homens. É o impé­rio da água. Água que cor­re, água que leva e lava, água que se des­pen­ca em cacho­ei­ra, água que roda no rebo­jo, água que vai e vol­ta em repi­que­te, água para­da no silên­cio do iga­pó. Água fun­da, água rasa onde os bar­cos enca­lham. Água negra do Andirá e do Negro. Água bar­ren­ta do Solimões, do Madeira, do Purus. As águas cla­ras e ver­des do Tapajós, do Xingu.

É o Amazonas e o seu ciclo das águas. Tempo das “pri­mei­ras águas”, quan­do o rio dá sinal de que tem von­ta­de de cres­cer. Tempo de enchen­te, de vazan­te, tem­po de seca. E o regi­me das águas condicio­nando e trans­for­man­do a vida do homem amazô­ni­co ao lon­go das eta­pas do ano. Em qual­quer lugar do Amazonas. Não só no inte­ri­or das flo­res­tas, na bei­ra dos rios. Também nas cida­des e nos princi­pais cen­tros urba­nos da região — o homem sofre os efei­tos da subi­da ou da des­ci­da das águas. Na sua casa, na sua comi­da, no seu tra­ba­lho de cada dia. O regi­me das águas é um ele­men­to cons­tan­te no cál­culo da vida do homem. Porque são tam­bém ciclos econô­mi­cos. Grandes vazan­tes sig­ni­fi­cam gran­des colhei­tas: a ter­ra da vár­zea inun­da­da é fer­ti­li­za­da pelo rio, que lhe depo­si­ta sais mine­rais e maté­ri­as orgâ­ni­cas. É tem­po de gran­des pes­ca­ri­as, tem­po de bom plan­tar. Grandes chei­as cor­res­pon­dem a duras cala­mi­da­des e amar­gas misé­ri­as: o pei­xe se escon­de nos lagos de reman­so, as plan­ta­ções são des­truí­das, o gado tem de ser leva­do para as altu­ras da ter­ra fir­me ou então é reu­ni­do na “marom­ba”, exí­guo cur­ral ergui­do sobre estei­os aci­ma das águas. O soa­lho das casas fica sub­mer­so, as sucu­ri­jus se apro­xi­mam no faro dos ani­mais domés­ti­cos. O homem fica à mer­cê do rio. Mas não desa­ni­ma: espe­ra pela vazan­te, e alteia o soa­lho, e apro­vei­ta a ter­ra enri­que­ci­da pela enchen­te. O rio diz para o homem o que ele deve fazer. E o homem segue a ordem do rio. Se não, sucum­be.

O rio diz para o homem. Sucede que a flo­res­ta não pode dizer. A flo­res­ta não anda. A sel­va fica onde está. Fica à mer­cê do homem. Por isso é que há qua­tro sécu­los o homem vem fazen­do da flo­res­ta o que bem quer. Com ela, e com tudo que vive nela, den­tro dela. A flo­res­ta entre­ga o que tem. São sécu­los de doa­ção que a flo­res­ta amazô­ni­ca tem de bom para a vida do homem da região e das mais afas­ta­das par­tes da ter­ra. Sobretudo para os homens da Europa e da outra América, que são, ao lon­go da his­tó­ria da explo­ra­ção dos recur­sos natu­rais da Amazônia, os que melhor fruí­ram e mais se enri­que­ce­ram com as rique­zas da nos­sa flo­res­ta.

São tre­zen­tos e cin­quen­ta milhões de hec­ta­res,

são seten­ta bilhões de metros cúbi­cos de madei­ra em pé.

Um ter­ço da reser­va mun­di­al de flo­res­tas.

A flo­res­ta dá tan­ta coi­sa para o homem há tan­to tem­po. Desde o come­ço, quan­do os euro­peus che­ga­ram, na bus­ca das espe­ci­a­ri­as. Era o cra­vo, era a pimen­ta, a cane­la, a bau­ni­lha, a sal­sa, a alfa­va­ca.

Malagueta, muru­pi,

cama­pu, caju­a­ra­na,

todo o segre­do da sel­va

no tra­vo de um cuma­rim.

O saque come­çou pelas dro­gas do ser­tão. E con­ti­nua, até os dias de hoje, cada vez mais impi­e­do­so. De suas essên­ci­as, a prin­ci­pal delas a do pau-rosa, o pri­vi­le­gi­a­do fixa­dor de per­fu­mes. Os seus pro­du­tos medi­ci­nais, extraí­dos de folhas, raí­les e cas­cas de árvo­res. A andi­ro­ba, a copaí­ba, o sumo da cas­ca de mun­gu­bei­ra, o cura­re mila­gro­so e malig­no, e a extra­or­di­ná­ria qui­na, nati­va do nos­so chão. Os alu­ci­nó­ge­nos: ipa­du, iagé, pari­cá, o caa­pi dos sonhos tele­pá­ti­cos. O gua­ra­ná esti­mu­lan­te que os índi­os des­co­bri­ram e até hoje cul­ti­vam. O ali­men­to gene­ro­so de suas fru­tas inu­me­rá­veis. O mun­do intei­ro con­so­me a cha­ma­da “cas­ta­nha-do-Pará”, tão rica de pro­teí­na e gor­du­ra e sais mine­rais. O cacau é ori­gi­ná­rio da Amazônia. Não cabe aqui a lou­va­ção nem resu­mi­da das vir­tu­des da nos­sa flo­res­ta. Mas como não gra­var aqui, mes­mo de relan­ce, a mar­ca fun­da, con­quan­to suja, que dei­xou na vida da Amazônia as qua­li­da­des das sei­vas e gomas elás­ti­cas da sel­va. A bor­ra­cha — a famo­sa Hevea bra­silien­sis — é o fun­da­men­to de todo um perío­do his­tó­ri­co da vida soci­al e econô­mi­ca da região, duran­te o qual a Amazônia conhe­ceu extre­mos de opu­lên­cia e de misé­ria. Milhares de homens se aden­tram pela mata para extrair o lei­te das serin­guei­ras. A Amazônia entre 1895 e 1909 expor­ta mais de 400 mil tone­la­das de bor­ra­cha, pagas pelos euro­peus a pre­ço de ouro. Em Manaus, Belém e Iquitos vivia-se a gran­de vida, ergui­am-se palá­ci­os. Sucede que em 1881, as semen­tes da Hevea bra­si­li­en­sis, leva­das pelos ingle­ses em sacas escon­di­das, e plan­ta­das na Malásia, fru­ti­fi­ca­ram em Singapura. Depois em Java, e na Sumatra. Em 1911 o Amazonas pro­duz 45 mil tone­la­das, enquan­to as serin­guei­ras da Malásia ape­nas 8 mil. Mas em 1920, a asiá­ti­ca alcan­ça­va 360 mil tone­la­das e a do Amazonas des­cia a 8 mil, ven­di­das a pre­ços avil­ta­dos. Era o fim do ciclo da bor­ra­cha. E um sal­do de milhões de serin­guei­ras mur­chas.

A extra­ção de madei­ras da flo­res­ta, ini­ci­a­da des­de o ins­tan­te em que o pri­mei­ro índio der­ru­bou a pri­meira árvo­re para fazer a sua canoa e cons­truir a sua malo­ca, nun­ca mais ces­sou. E cada dia cres­ce mais o deflo­res­ta­men­to. A flo­res­ta amazô­ni­ca, frag­men­ta­da em toros de madei­ra de lei, espre­mi­da na super­fí­cie dos com­pen­sa­dos, hoje é leva­da para qua­se todos os luga­res do mun­do.

Munguba, moro­to­tó, lou­ro itaú­ba,

Açacu, aca­ri­qua­ra, mog­no,

cedro, qua­ru­ba, pau mam, favei­ra,

sucu­pi­ra, ange­lim, pau de andi­ro­ba.

Vamos, vem ver o rei­no vege­tal. Entra comi­go na espes­su­ra úmi­da. A flo­res­ta já sabe que che­gas­te, todos os ver­des se movem, que­ren­do saber quem és. O silên­cio se anun­cia, gota a gota, des­pen­ca­do das asas de mari­po­sas e pás­sa­ros. A sel­va te reco­bre, com a sua abó­ba­da de pal­mas e te encer­ra na umi­da­de da escu­ri­dão diur­na. As fron­des colos­sais acu­mu­lam o tem­po, nas ner­vu­ras geo­mé­tri­cas das folhas. Os cami­nhos se fecham nos ema­ra­nha­dos ver­des. O silên­cio é pene­tra­do pelo punhal agu­dís­si­mo do zum­bido dos inse­tos, que pro­cla­mam, em ondas de som­bra, a che­ga­da do anoi­te­cer na sel­va. Ouve o lamen­to ances­tral dos gua­ri­bas, o sil­vo mági­co das ser­pen­tes, o estur­ro das feras feli­nas que per­cor­re vibran­do as dis­tân­ci­as da pla­ní­cie feri­da. Subitamente, a sel­va intei­ra estre­me­ce e vibram as raí­zes mais anti­gas das sumau­mei­ras altís­si­mas. É a flo­res­ta amazô­ni­ca sub­me­ti­da pelo relâm­pa­go, devas­sada na sua ten­ra inti­mi­da­de pelo ful­gor ver­ti­gi­no­so do raio.

A chu­va é um ele­men­to cons­tan­te na sel­va amazô­ni­ca. Chove todos os dias, mes­mo no verão, que é o tem­po da seca. As gran­des nuvens boju­das e bran­cas do céu equa­to­ri­al, de repen­te se movem pesa­das, escu­re­cem e se dis­sol­vem: des­ce a pan­ca­da d’água, o tem­po­ral do Amazonas, a ven­ta­nia can­tan­do. É de manhã­zi­nha, é no meio do dia, é quan­do tu vais de noi­te atra­ves­san­do o rio, a escu­ri­dão ras­ga­da de relâm­pa­gos, de uma mar­gem à outra, ilu­mi­nan­do a face enfu­re­ci­da das águas.

Vale regis­trar o índi­ce de plu­vi­o­si­da­de na Amazônia: 3000 mm por ano. É um dos luga­res onde mais cho­ve nes­te mun­do dos homens. E a chu­va lava e vai levan­do tudo da ter­ra para o rio. O solo des­ma­ta­do fica sem o pou­co húmus que lhe sobrou, leva­do pela chu­va. E os homens res­pei­tam, teme­ro­sos, as for­ças do tem­po­ral, que ver­ga e der­ru­ba árvo­res imen­sas, mui­tas leva­das pela cor­ren­te­za, tron­cos que se cho­cam con­tra os bar­cos, estra­ça­lhan­do qui­lhas e cala­dos. Morreu afo­ga­do no tem­po­ral — é fra­se fre­quen­te nos bar­ran­cos da minha ter­ra.

De um tem­po­ral des­ses, uma vez no Solimões peru­a­no, nós esca­pa­mos vivos: o índio Morón e seu filhi­nho de cin­co anos, eu e o cabo­clo Rios. Eu pas­sa­ra o dia numa peque­na aldeia dos índi­os yaguas, apren­den­do a vida com o jovem tuxaua, que mui­tos sabia do flo­ri­pen­dio e de ervas mági­cas. Ao entar­de­cer, saí­mos de canoa, com motor de popa, rumo a Choriaco, peque­na povo­a­ção ribei­ri­nha. Coisa de duas horas de via­gem. Tempo de cheia. Subíamos o rio, ren­te à mar­gem da flo­res­ta, já na meta­de do per­cur­so, quan­do de repen­te, o tem­po­ral desa­bou. “Este vai ser dos medo­nhos”, dis­se tran­qui­lo, lá da popa, onde con­tro­la­va o motor, o meu ami­go índio. Junto a ele, no chão da canoa, o seu filho peque­ni­no, todo enco­lhi­do de frio. Lembro-me de que, antes de escu­re­cer total­men­te, do ban­co da fren­te onde eu ia, virei-me e vi o bri­lho inten­so de seus dois olhos enor­mes. Era o pavor. No ban­co da proa, sem cami­sa, o cabo­clo Luis. Enfrentamos o tem­po­ral em silên­cio: jun­tos, cala­da­men­te soli­dá­ri­os. A cor­ren­te­za cres­cia, a canoa balan­ça­va na cris­ta das ondas, a chu­va ver­gas­ta­va por todos os lados. Houve um momen­to em que não vimos abso­lu­ta­men­te mais nada. Escuridão total. Repetidas veres a proa topa­va num tron­co. O baque sur­do, a canoa pare­cia que ia virar. Ramón incli­na­va o motor para a fren­te, para que as héli­ces ficas­sem fora da água, evi­tan­do o cho­que. Só os relâmpa­gos nos aju­da­vam, cor­tan­do o céu de um lado a outro: a luz fugaz ilu­mi­na­va um tron­co enor­me, uma árvo­re intei­ra der­ru­ba­da, que já vinha qua­se em cima de nós. Morón, ágil e cala­do, des­vi­a­va a canoa num gol­pe de leme. A escu­ri­dão era tan­ta que eu sequer enxer­ga­va a minha mão aber­ta a cen­tí­me­tros de meu ros­to. Mesmo assim, em vári­os momen­tos tive a cer­te­za de que o índio Morón con­se­guia enxer­gar algu­ma coi­sa das águas e da mar­gem. Os seus olhos con­se­gui­am ver. Ou os seus ouvi­dos, os seus sen­ti­dos todos, agu­dís­si­mos sabi­am o que da canoa se apro­xi­ma­va. Porque de repen­te ele dava uma gui­na­da para a esquer­da, logo apru­ma­va o rumo, ou dimi­nuía a mar­cha do motor. E emi­tia um som rou­co e gros­so e bre­ve com a boca entre­cer­ra­da, que incri­vel­men­te se ouvia no meio de todos os fra­go­res do tem­po­ral. Era como se ele fos­se um paren­te das águas. A tem­pes­ta­de ces­sou antes que che­gás­se­mos a Choriaco. Pouco antes. E duas coi­sas que acon­te­ce­ram ago­ra eu sin­to pre­ci­são de con­tar. A pri­mei­ra é que mal dobra­mos a boca do Paraná de Choriaco, demos com vári­as cano­as que vinham em nos­sa dire­ção. Eram homens e mulhe­res daque­le peda­ço do mun­do que nun­ca esque­ce­rei: cer­tos de que deve­ría­mos che­gar no come­ço da noi­te, nos sabi­am sur­pre­en­di­dos pelo tem­po­ral, e iam ao nos­so encon­tro, para nos sal­var. Quando nos viram, foi um imen­so e pro­lon­ga­do gri­to de ale­gria. A segun­da coi­sa é que depois do tem­po­ral o céu acen­deu as suas estre­las, per­dão, todas as suas estre­las, que pai­ra­vam enor­mes, sol­tas no cam­po da noi­te.

Agredida, vio­len­ta­da, a flo­res­ta se defen­de. Defende-se antes de tudo com os seus ele­men­tos mais vari­a­dos. Com o seu calor úmi­do, aba­fa­do. Com os cipós ema­ra­nha­dos, as tou­cei­ras de espi­nhos, as folhas que pro­vo­cam quei­ma­du­ras de bra­sa, as has­tes que cor­tam como lâmi­nas. Defende-se com pode­res de encan­ta­men­to. E como se de repen­te as árvo­res e arbus­tos mudas­sem de lugar, fechan­do o cami­nho por onde o homem avan­çou. São as pal­mas dos buri­ti­zei­ros que silen­ci­o­sa e brus­ca­men­te se entre­la­çam inau­gu­ran­do a noi­te em ple­no dia da mata.

Mas a flo­res­ta sobre­tu­do se defen­de com a sua fau­na, que dela faz mora­da e cida­de­la. A fau­na defen­de a flo­ra e se defen­de. São as nuvens de mos­qui­tos, os que ata­cam de dia e os que che­gam com a noi­te. Os cara­pa­nãs, as mutu­cas suga­do­ras, os ter­rí­veis piuns diur­nos. As ara­nhas vene­no­sas, caran­gue­jei­ras cabe­lu­das, o fer­rão vene­no­so. Defende-se a flo­res­ta inva­di­da com os inse­tos trans­mis­so­res de malá­ri­as, de febres negras fatais. Com as for­mi­gas de fogo, as tocan­di­ras, que sobem do chão e des­cem das árvo­res de cujas horas o homem cor­re em deses­pe­ro. De repen­te, ao parar debai­xo de um tachi­zei­ro, o homem em pou­cos segun­dos se vê cober­to de for­mi­gas dos pés à cabe­ça, sem nada poder fazer con­tra as fer­ro­a­das insu­por­tá­veis.

Defende-se com as suas feras: a onça suçu­a­ra­na, a onça pin­ta­da, a mara­ca­já. E prin­ci­pal­men­te com as suas ser­pen­tes, a mais temí­vel de todas a suru­cu­cu, por­que ter­ri­vel­men­te vene­no­sa. Mas na bei­ra dos rios, nas águas cala­das da sel­va, nos cen­tros da mata, lá está a fabu­lá­ria sucu­ri­ju, a cons­tri­to­ra.

Sucede que o homem, para ven­cer a flo­res­ta, der­ro­ta tam­bém a fau­na. E tem na fau­na mes­ma um gran­de obje­to de sua cobi­ça. O ani­mal tem car­ne para ser comi­da, e cou­ro para ser ven­di­do. Há milê­ni­os que os bichos do Amazonas vêm sen­do aba­ti­dos, os da ter­ra e os da água. Algumas espé­ci­es estão per­to da extin­ção. O pei­xe-boi está bei­ran­do o seu fim. Nos últi­mos anos foi proi­bi­da a cap­tu­ra de tar­tarugas e a caça ao jaca­ré. Como cum­prir a lei na vas­ti­dão da sel­va? Mais de 20 mil onças mor­tas anu­al­men­te. Os núme­ros são assus­ta­do­res. Na déca­da de 1960 saí­ram da Amazônia mais de um milhão de cou­ros de jaca­rés. Venho de pas­sar mais de um mês varan­do rios, para­nás e furos do Baixo Amazonas. Ao con­trá­rio do que suce­dia há pou­co mais de dez anos, não vi nenhum jaca­ré. Trans­formados em bol­sas, sapa­tos, cin­tos, eles cami­nham hoje pelas ave­ni­das das prin­ci­pais cida­des do mun­do. Na luta con­tra a natu­re­za, na últi­ma e por­ven­tu­ra defi­ni­ti­va luta do homem con­tra a natu­re­za, que se tra­va na Amazônia, o homem pare­ce ganhar. Sem se dar con­ta de que, ao fim da cega pele­ja, ele pode­rá ser o gran­de der­ro­ta­do.

Olha bem, lei­tor com­pa­nhei­ro, olha deva­ga­ri­nho estas fotos, que cap­tam, para per­du­rar no tem­po, um momen­to da vida de uma tri­bo de índi­os da Amazônia. Não te cha­mo a aten­ção para a bele­za, de fina qua­li­da­de poé­ti­ca. Não. Olha bem deti­da­men­te, por­que estás, segu­ra­men­te, dian­te de um dos últi­mos tes­te­mu­nhos do que ain­da res­ta, na Amazônia, qua­se intac­ta em sua pure­za, da vida dos seres huma­nos que pri­mei­ro habi­ta­ram esta sel­va e cuja raça está cami­nhan­do já mui­to per­to do fim. A ver­da­de é que no céu dos índi­os, apo­dre­ci­do pelo furor bran­co, já se apa­gam as últi­mas estre­las.

Eles eram mais de um milhão quan­do che­gou o colo­ni­za­dor euro­peu. De exter­mí­nio em exter­mí­nio, depois de qua­tro­cen­tos anos, hoje eles não che­gam a cin­quen­ta mil. E des­ses, qua­se todos já per­de­ram, feri­dos fun­da­men­te na essên­cia dos valo­res de sua etnia, a sua pró­pria con­di­ção de índi­os. Uns pou­cos ain­da resis­tem, escon­di­dos nos gran­des cen­tros da sel­va, fugin­do ou evi­tan­do o máxi­mo que podem o con­ta­to com os cha­ma­dos agen­tes da civi­li­za­ção. O que dese­jam esses peque­nos resí­du­os tri­bais ain­da espa­lha­dos pelo chão da Amazônia, como de outros raros luga­res do Brasil, é sim­ples­men­te poder ser e seguir sen­do sim­ples­men­te índi­os. Querem o direi­to de ser o que são.

É esse direi­to que lhes foi impi­e­do­sa­men­te usur­pa­do pelo bran­co inva­sor, que apo­dre­ce os seus cor­pos com as suas doen­ças, e mata neles o que para o índio é o seu pró­prio cen­tro de gra­vi­da­de: o gos­to e a ale­gria de viver. Degradação, pala­vra que, como estig­ma, quei­ma a alma da raça que fun­da­men­tal­men­te nos for­mou.

Índio acul­tu­ra­do é índio degra­da­do, dis­se o san­to Noel Nutels, pou­co antes de mor­rer, depois de toda uma vida dedi­ca­da à reden­ção do índio da Amazônia. A mai­o­ria abru­ma­do­ra dos nos­sos índi­os enfren­ta hoje essa degra­da­ção impos­ta pelo bran­co e que come­ça já no sim­ples con­ta­to com o civi­li­za­do e que se pro­lon­ga sem nun­ca ter­mi­nar, por­que só aca­ba com a mor­te, duran­te o que a ter­mi­no­lo­gia da pro­te­ção ofi­ci­al cha­ma de perío­do de tran­si­ção. É duran­te esse perío­do que a tri­bo se vai per­den­do de si mes­ma, que o índio vai dei­xan­do de ser índio, afas­tan­do-se dos seus ritos, dos seus mitos, dos seus valo­res tri­bais — enfim, de toda uma cul­tu­ra cons­truí­da duran­te sécu­los e que de repen­te é esva­zi­a­da de sig­ni­fi­ca­do pela impo­si­ção ine­vi­tá­vel dos padrões cul­tu­rais do homem bran­co.

A per­da de sua cul­tu­ra con­duz o índio à depen­dên­cia e à sub­mis­são aos trun­fos de uma cul­tu­ra que nun­ca será a sua, mas da qual ele pre­ci­sa para sobre­vi­ver. Aqui está o cer­ne do dra­ma indí­ge­na: sub­missão que tem gos­to de trai­ção do pró­prio ser. De qual­quer manei­ra e seja qual for o desen­vol­vi­men­to do con­ta­to, o índio sai sem­pre per­den­do. Não per­de só a ter­ra, que lhe é usur­pa­da pelas fren­tes invaso­ras da soci­e­da­de naci­o­nal. Não per­de só o vigor físi­co e a sua pró­pria inte­gri­da­de. Perde o que era bom, o que era lím­pi­do, e é obri­ga­do a incor­po­rar o que é sujo, o que é ruim. Para poder sobre­xis­tir, ele é obri­ga­do a não con­fi­ar mais. A uti­li­zar-se da men­ti­ra e do rou­bo, finas vir­tu­des bran­cas. Dos bran­cos que da não apren­de­ram a con­ju­gar o ver­bo amar. Sabe que está men­tin­do, que está degra­da­do. Transforma a dig­ni­da­de per­di­da em duro e silen­ci­o­so ran­cor. Que vai dege­ne­ran­do, dor que pun­ge cala­da até trans­for­mas­se no que Darcy Ribeiro, valen­te irmão dos índi­os, cha­ma de desen­ga­no. Desengano da vida, des­gos­to de ser gen­te.

O pro­ble­ma do índio é por­tan­to um pro­ble­ma do bran­co. Na medi­da em que só come­ça a exis­tir a par­tir do ins­tan­te em que se dá o encon­tro com o civi­li­za­do. Antes ele era um ser livre, feliz, e glo­ri­o­so. Dono de seu poder e de sua for­ca de viver e de con­vi­ver. Na sua tri­bo, ele é um inte­gran­te dela, como todos os outros, de qual­quer sexo ou ida­de. Com os mes­mos direi­tos à uti­li­za­ção cole­ti­va dos rios, das matas, das fon­tes de sub­sis­tên­cia. Com a sim­ples mas pode­ro­sa ale­gria do tra­ba­lho cole­ti­vo que faz de um homem irmão de outro homem. Por isso pre­ci­sa­men­te é que o índio se degra­da e cami­nha para o exter­mí­nio, ao par­ti­ci­par de uma soci­e­da­de que se fun­da­men­ta na explo­ra­ção do homem.

Que os yano­ma­mi, iso­la­dos dos bran­cos no alto da Amazônia, obser­vem ain­da por lar­gos anos a sua lím­pi­da gló­ria de viver.

Índios iso­la­dos, índi­os degra­da­dos e des­cul­tu­ra­dos, inte­gram o agru­pa­men­to huma­no da Amazônia, jun­ta­men­te com o homem típi­co da região, o cabo­clo ribei­ri­nho, o cabo­clo das cida­des, o bra­si­lei­ro de outros esta­dos que aqui vivem e os homens de tan­tos paí­ses do mun­do que, cada dia mais nume­ro­sos, habi­tam a Amazônia. Fazem par­te do gran­de com­ple­xo huma­no, físi­co e geo­grá­fi­co da pla­ní­cie, que abran­ge os rios, árvo­res, ani­mais ter­res­tres e aquá­ti­cos, o solo, as vár­ze­as, as plan­tas aquá­ti­cas e, por fim mas não por últi­mo, o sub­so­lo amazô­ni­co, com todas as suas rique­zas.

É o ecos­sis­te­ma da gran­de Amazônia.

Já não se escon­de mais a ten­sa inqui­e­ta­ção a pro­pó­si­to do futu­ro da Amazônia, cujo equi­lí­brio eco­ló­gi­co está fun­da­men­te feri­do. Por isso que­ro con­tri­buir, com este tra­ba­lho (ela­bo­ra­do no inte­ri­or do Amazonas, nas mar­gens do Paraná do Ramos que banha a peque­na Barreirinha, onde nas­ci, ao lado do rio Andirá, mora­da dos últi­mos resí­du­os dos índi­os maués), para a cau­sa da Amazônia. Quero que ele sir­va de tes­te­mu­nho e sobre­tu­do de adver­tên­cia.

A Amazônia, que só tem fei­to ser­vir ao homem, vem sen­do explo­ra­da e ocu­pa­da de manei­ra insen­sa­ta, desor­de­na­da e assus­ta­do­ra­men­te pre­da­tó­ria. A denún­cia é fei­ta por cien­tis­tas que sabem o que dizem. É cla­ro que a Amazônia pre­ci­sa ser ocu­pa­da e desen­vol­vi­da. Mas sem­pre levan­do em con­ta os fato­res eco­ló­gi­cos e a sua neces­sá­ria har­mo­nia. A flo­res­ta tem que ser uti­li­za­da, mas huma­na­men­te. Utilizada, e não degra­da­da.

É momen­to de lem­brar que cin­quen­ta por cen­to do oxi­gê­nio que a huma­ni­da­de res­pi­ra é pro­du­zi­do pela flo­res­ta amazô­ni­ca. Ela não para de tra­ba­lhar, dia e noi­te, para ser­vir à neces­si­da­de fundamen­tal do homem: o ar que ele res­pi­ra. Mas é esse mes­mo homem que não se can­sa de des­truir a flo­res­ta gene­ro­sa. Guardemos este núme­ro: mais de 10 milhões de metros cúbi­cos de madei­ra estão sen­do extraí­dos anu­al­men­te da nos­sa flo­res­ta. Isto quer dizer mais de 3 milhões de árvo­res. Sem con­tar os outros tan­tos milhões que foram neces­sa­ri­a­men­te aba­ti­dos para a cons­tru­ção das gran­des estra­das tran­samazônicas nos anos recen­tes. É assus­ta­dor o des­ma­ta­men­to da flo­res­ta amazô­ni­ca, que cons­ti­tui, faço ques­tão de repe­tir, a últi­ma gran­de reser­va vege­tal do pla­ne­ta. O des­flo­res­ta­men­to é cada vez mais inten­si­vo e indis­cri­mi­na­do. Já hou­ve, inclu­si­ve, a (ten­ta­ti­va de) uti­li­za­ção do her­bi­ci­da Dioxim, usa­do na guer­ra do Vietnã, que mata a clo­ro­fi­la. Empresas mul­ti­na­ci­o­nais, empe­nha­das na cri­a­ção de gado bovi­no na Amazônia, estão des­truin­do pelo fogo gran­des exten­sões de flo­res­ta para trans­for­má-los em cam­pos de pas­ta­gem. Alguns incên­di­os — os jor­nais divul­ga­ram — foram tão vas­tos que che­ga­ram a ser detec­ta­dos pelos saté­li­tes arti­fi­ci­ais. Sabe-se estra­nha­men­te pou­co sobre o que se pas­sa nos limi­tes do mai­or lati­fún­dio do mun­do, abran­gen­do dois milhões e duzen­tos mil hec­ta­res, ao lon­go das mar­gens do rio Jari. Onde o des­flo­res­ta­men­to tem sido tam­bém inten­so. Houve inclu­si­ve substitui­ção da flo­res­ta.

A Amazônia já não é mais a região mis­te­ri­o­sa de anti­ga­men­te. Muito dela ain­da está por ser conhe­cido. Mas de mui­to já se sabe. Não é a Manoa del Dorado, o rio do Ouro, o País das Amazonas. Também já não se tra­ta ape­nas do paraí­so nem do infer­no ver­de. É a sel­va com a sua exu­be­rân­cia de rique­zas natu­rais e os seus recur­sos mine­rais que des­pon­tam cada dia mai­o­res, em des­co­ber­tas que se suce­dem. O fer­ro da Serra dos Carajás, a bau­xi­ta do Trombetas. São reser­vas cal­cu­la­das em bilhões de tone­la­das. O sub­so­lo se mos­tra cada dia mais rico. Mas o solo se con­fir­ma pobre. E mais empo­bre­ci­do se tor­na com a flo­res­ta der­ru­ba­da. É pre­ci­so tra­ba­lhar ain­da mui­to para se che­gar ao conhe­ci­men­to e domí­nio de téc­ni­cas que favo­re­çam o uso cor­re­to do solo. E pre­ci­so ocu­par a Amazônia para aju­dá-la a viver, a fim de que ela pos­sa aju­dar melhor o homem, que­ro dizer, a huma­ni­da­de.

Fim de tar­de de junho des­te ano.

Acabo de entrar no bar­co atra­ca­do no lugar cha­ma­do Simão, na mar­gem do belís­si­mo rio Andirá, onde se abri­ga uma peque­na aldeia dos índi­os cate­rê, deno­mi­na­ção recen­te da pri­mi­ti­va nação maué. Guardo ain­da o gos­to for­te do gua­ra­ná que, em cuia cole­ti­va, foi ser­vi­da à des­pe­di­da por uma índia que o pre­pa­rou, rala­do em lín­gua de pira­ru­cu.

O bar­co se afas­ta deva­gar. Do alto da proa, des­cu­bro de repen­te, o olhar for­te da índia meni­na sen­ta­da no bar­ran­co. Aceno-lhe com a mão, ela demo­ra a res­pon­der. Nos seus olhos aper­ta­dos, cres­ce um bri­lho que me per­tur­ba, onde pal­pitam mis­tu­ra­dos a for­ça e o desam­pa­ro. De repen­te, me lem­bro do olhar gra­va­do na últi­ma foto des­te livro, foto que demo­ra­da­men­te con­tem­plei tan­tas vezes. É o mes­mo olhar da indi­a­zi­nha do bar­ran­co. Poder e desam­pa­ro, uma espé­cie de espe­ran­ça ame­dron­ta­da. É o olhar, como o da pró­pria Amazônia, de alguém que sen­te pre­ci­são de amor.

Barreirinha, 1978

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