Ambição e nostalgia: Liberdade, de Jonathan Franzen

Literatura

28.06.12

O tex­to abai­xo foi fei­to a con­vi­te da Secretaria da Cultura de Porto Alegre, para uma pales­tra na série “Livros que Abalaram o Mundo”. O even­to acon­te­ceu pou­co depois do lan­ça­men­to de Liberdade no Brasil, em agos­to do ano pas­sa­do. Como Franzen é um dos con­vi­da­dos da Flip, que come­ça na pró­xi­ma sema­na, seu livro vol­ta a ser assun­to.

Mesmo antes de sair nos EUA, em setem­bro de 2010, Liberdade já era obje­to de aten­ção. O livro ante­ri­or de Franzen, As cor­re­ções, de 2001, fize­ra bas­tan­te baru­lho: ganhou, entre outros, o National Book Award, prin­ci­pal prê­mio lite­rá­rio dos EUA, e trans­for­mou Franzen numa das pro­mes­sas mais aus­pi­ci­o­sas da lite­ra­tu­ra ame­ri­ca­na. Mal come­ça­ram a sair as pri­mei­ras rese­nhas elo­gi­o­sas de Liberdade, Oprah Winfrey incluiu-o em seu clu­be de lei­tu­ra, o Guardian pes­pe­gou-lhe o epí­te­to de “livro do sécu­lo” e a revis­ta Time estam­pou na capa uma foto do escri­tor acom­pa­nha­da da legen­da: “o gran­de roman­cis­ta ame­ri­ca­no”.

Parte do fris­son em tor­no de Franzen tem a ver com essa obses­são pelo “Grande Romance Americano”. É um feti­che entre os auto­res de lá e uma espé­cie de san­to gra­al da lite­ra­tu­ra: o gran­de autor é aque­le que con­se­gue trans­fe­rir para o roman­ce os pon­tos nevrál­gi­cos da expe­ri­ên­cia do país. A trin­ca sagra­da da pro­sa ame­ri­ca­na da segun­da meta­de do sécu­lo ambi­ci­o­nou o fei­to: John Updike, Philip Roth e Saul Bellow devem boa par­te de sua repu­ta­ção ao modo como deram for­ma à expe­ri­ên­cia dos EUA. Em As aven­tu­ras de Augie March (1953), de Saul Bellow, por exem­plo, lê-se na pri­mei­ra linha: “Sou ame­ri­ca­no, nas­ci­do em Chicago…” De saí­da a ten­ta­ti­va é res­pon­der a essa per­gun­ta: o que é ser ame­ri­ca­no?

Essa é uma tra­di­ção fran­ce­sa do sécu­lo XIX, a do homem de letras empe­nha­do em res­pon­der às gran­des per­gun­tas do seu tem­po. Com a trans­for­ma­ção dos EUA em potên­cia no sécu­lo XX, a fun­ção se tor­na estra­té­gi­ca em face de uma expe­ri­ên­cia cuja res­so­nân­cia assu­me esca­la mun­di­al.

Franzen dis­pu­ta o pos­to de her­dei­ro des­sa tra­di­ção. O baru­lho da mídia é tam­bém refle­xo da expec­ta­ti­va de que ele pos­sa assu­mir o bas­tão des­sa linha­gem nobre em nome da nova gera­ção. É impor­tan­te lem­brar que nes­sa tran­si­ção ocor­re­ram os aten­ta­dos de 11 de setem­bro. Não é, por­tan­to, ape­nas o lugar do novo gran­de roman­cis­ta ame­ri­ca­no que está vago, mas o lugar do escri­tor capaz de dar sen­ti­do a uma expe­ri­ên­cia trau­má­ti­ca. Em cer­ta medi­da, um even­to como esse con­tri­bui para inje­tar vita­li­da­de à ati­vi­da­de de escri­tor, de pron­to con­vo­ca­do ao papel de intér­pre­te de seu tem­po.

É uma ideia com­pli­ca­da. O que se pode espe­rar da lite­ra­tu­ra como for­ma capaz de plas­mar essa expe­ri­ên­cia? Como a com­pe­ti­ção com as huma­ni­da­des e a indús­tria do cine­ma, inter­net e tele­vi­são inter­fe­re na capa­ci­da­de da lite­ra­tu­ra em dar sen­ti­do a esse deba­te? Esse livro aspi­ra à con­di­ção de gran­de roman­ce, mas o fris­son a seu redor, para ser com­pre­en­di­do, deve ser vis­to ao lado do pres­tí­gio alcan­ça­do pelo for­ma­to no sécu­lo XIX e iní­cio do XX e da nos­tal­gia em rela­ção à cen­tra­li­da­de de que já des­fru­tou um dia.

É sim­ples iden­ti­fi­car o que em Liberdade per­mi­te situá-lo como her­dei­ro des­sa tra­di­ção. São 700 pági­nas que pro­cu­ram tocar os ner­vos da expe­ri­ên­cia ame­ri­ca­na dos últi­mos 30 anos. Os gover­nos Reagan, Clinton e Bush, o ter­ro­ris­mo, a ques­tão pales­ti­na, o cres­ci­men­to econô­mi­co des­go­ver­na­do, o aque­ci­men­to glo­bal, o con­fli­to entre gera­ções, a mer­can­ti­li­za­ção da cul­tu­ra, a explo­são do mer­ca­do finan­cei­ro, o sis­te­ma de saú­de, o poli­ti­ca­men­te cor­re­to nas uni­ver­si­da­des. O car­dá­pio é tão vari­a­do que por vezes lem­bra uma lis­ta de tare­fas a cum­prir.

O que o sal­va da con­di­ção de manu­al é a habi­li­da­de de Franzen em atar esses temas às fun­ções que desem­pe­nham na tra­ma, que é bem urdi­da e evo­lui com natu­ra­li­da­de.

O fio é a trans­for­ma­ção do casal Walter e Patty Berglund em ruí­na sen­ti­men­tal e moral. Ela vem de uma famí­lia libe­ral endi­nhei­ra­da de Nova York em que jamais se inte­grou. Não se inte­res­sa­va por livros ou polí­ti­ca: era joga­do­ra de bas­que­te e se dedi­ca­va com ardor a isso, ape­sar do des­pre­zo da mãe. Foi por ser joga­do­ra que obte­ve vaga numa facul­da­de de segun­da linha, em Minnesota, no iní­cio dos anos 1980.

Walter, seu cole­ga na facul­da­de, era filho de pai alcoó­la­tra e mãe tra­ba­lha­do­ra, dona de motel de bei­ra de estra­da numa cida­de do inte­ri­or. Mas era o esfor­ça­do da famí­lia, o pri­mei­ro a fazer cur­so supe­ri­or, o moço abs­tê­mio, iná­bil com as mulhe­res e não par­ti­cu­lar­men­te boni­to. Mas ele ven­ce pelo can­sa­ço, até que se casam no fim dos anos 1980, têm um casal de filhos e ado­tam uma vida de famí­lia bur­gue­sa em Minnesota.

O fator de ten­são entre os dois, des­de a facul­da­de, é Richard Katz. Richard era o melhor ami­go de Walter e ao mes­mo tem­po seu antí­po­da. Era boni­to, sexy e incon­seqüen­te. Desde aque­les anos, Patty cul­ti­va­va uma pai­xão por Richard que não se con­cre­ti­za­va em razão da leal­da­de entre os ami­gos. Resignada, Patty cedeu aos ape­los de Walter menos por amor do que por fal­ta de opção.

Ao lon­go de todo o livro, Richard per­ma­ne­ce uma som­bra para o casal. Muitos anos depois, numa casa de cam­po, Patty e Richard pas­sam dois dias jun­tos e tran­sam, por insis­tên­cia de Patty. Um pou­co depois, ao cabo de anos tocan­do para pou­ca gen­te e amar­gan­do fra­cas­so atrás de fra­cas­so, Richard gra­va um dis­co de suces­so e se tor­na uma figu­ra hype no mun­do da músi­ca.

Os dias com Patty e o suces­so mudam tudo na vida dos Berglund. Walter, com ciú­me, tor­na-se com­pe­ti­ti­vo. Ressentido com o silên­cio do ami­go, que pare­cia se afas­tar dele nes­se perío­do de bonan­ça, muda de empre­go e se apro­xi­ma de polí­ti­cos de má índo­le. Patty, depois do caso com o ami­go do mari­do, cai em depres­são.

Há ain­da a rela­ção con­tur­ba­da com os filhos. Joey, o mais velho, sai de casa na ado­les­cên­cia para morar com a namo­ra­da, a vizi­nha Connie Monaghan. Isso para deses­pe­ro de Patty, que odeia a mãe de Connie e sobre­tu­do o namo­ra­do dela. O sujei­to é um machão tru­cu­len­to, vidra­do em car­ros, armas e sim­bo­li­za o pro­tó­ti­po do ame­ri­ca­no tos­co, da direi­ta mais empe­der­ni­da. É essa figu­ra que vira influên­cia para Joey: depois de dois anos na casa do vizi­nho, ele vai cur­sar eco­no­mia, sonha tra­ba­lhar em Wall Street, res­ga­ta suas raí­zes judai­cas e vira um repu­bli­ca­no envol­vi­do com inte­res­ses de Bush na inva­são do Iraque.

O que pren­de a aten­ção é essa espi­ral em dire­ção à desin­te­gra­ção, ao fra­cas­so da rela­ção, à suces­são de pas­sos em fal­so em que a vida do casal vai se trans­for­man­do. A estru­tu­ra roma­nes­ca é essa. E o que Franzen con­se­gue cons­truir em redor dela cons­ti­tui o espí­ri­to de épo­ca que o roman­ce, de modo mais abran­gen­te, ten­ta cap­tu­rar em sua bus­ca pela vaga de her­dei­ro da linha­gem mais nobre da tra­di­ção lite­rá­ria ame­ri­ca­na.

A par­te mais subs­tan­ci­al é dedi­ca­da à era Bush: são os dile­mas pós-11 de setem­bro que apa­re­cem com mais for­ça e que Franzen pro­cu­ra exa­mi­nar de modo deti­do. A tra­je­tó­ria de Joey é exem­plar dis­so: a des­co­ber­ta do judaís­mo e a von­ta­de de explo­rar essa iden­ti­da­de vem num con­tex­to de rea­ção ao ter­ro­ris­mo, num movi­men­to que pare­ce acom­pa­nhar o renas­ci­men­to da direi­ta con­ser­va­do­ra ame­ri­ca­na logo após 2001. Sujeito opor­tu­nis­ta, frio e inca­paz de afe­ti­vi­da­de, Joey é um retra­to pou­co lison­jei­ro dos qua­dros que a cau­sa repu­bli­ca­na é capaz de cati­var.

Vale o mes­mo para a oni­pre­sen­ça do dis­cur­so ambi­en­ta­lis­ta. O sar­cas­mo é gran­de e ocu­pa boa par­te da tra­je­tó­ria de Walter Berglund. Desafiado pelo suces­so de Richard, Walter dei­xa o empre­go numa uni­da­de de con­ser­va­ção em Minnesota para enca­rar uma enras­ca­da em Washington. Ele assu­me o Fundo de Conservação da Mariquita Azul, na ver­da­de uma gran­de pia­da. O Fundo é inven­ção de um bili­o­ná­rio do Texas, ami­go de Bush e Dick Cheney, inte­res­sa­do em ven­der reser­vas para empre­sas que explo­ram a extra­ção de car­vão, noci­vas e polu­en­tes. O tal fun­do é uma cor­ti­na de fuma­ça, uma licen­ça para des­truir ten­do como áli­bi a pre­ser­va­ção da espé­cie. Ingênuo e bem inten­ci­o­na­do, Walter cai na ara­pu­ca — e é o nome dele que vai parar no New York Times quan­do fica cla­ro o que está por trás do fun­do da mari­qui­ta azul.

Franzen é orni­tó­lo­go e ado­ra obser­var pás­sa­ros, mas o ambi­en­ta­lis­mo do sécu­lo XXI apa­re­ce em seu livro como toli­ce de gen­te bem inten­ci­o­na­da. Há aci­dez no modo como ele tra­ta o dis­cur­so em defe­sa do con­tro­le de car­bo­no, con­tra aque­ci­men­to glo­bal e o cres­ci­men­to demo­grá­fi­co. A crí­ti­ca aos repu­bli­ca­nos e à direi­ta é evi­den­te, mas tam­bém o dis­cur­so poli­ti­ca­men­te cor­re­to é alvo de sar­cas­mo.

A Nova York dos cír­cu­los letra­dos e pro­gres­sis­tas que ele retra­ta, da mes­ma manei­ra, está lon­ge de ser ambi­en­te esti­mu­lan­te. Estão todos muni­dos de smartpho­nes e ipods, pron­tos para con­su­mir as novi­da­des do mer­ca­do cul­tu­ral sob a for­ma de “auten­ti­ci­da­de” ou “ati­tu­de”. O per­so­na­gem de Richard Katz é o veí­cu­lo das crí­ti­cas dis­pa­ra­das ao inte­lec­tu­a­lis­mo bem inten­ci­o­na­do e ao cinis­mo dos libe­rais endi­nhei­ra­dos nos roof­tops de Tribeca e do Chelsea. Não há auten­ti­ci­da­de pos­sí­vel. A deci­são de Katz de vol­tar a ser tra­ba­lha­dor bra­çal mes­mo depois do suces­so de seu dis­co apon­ta nes­sa dire­ção.

Nova York é tam­bém a sín­te­se do que Patty odeia em sua famí­lia. Democratas, judeus hete­ro­do­xos e de cabe­ça aber­ta, seus pais apa­re­cem, logo no iní­cio do livro, a come­ter uma enor­mi­da­de: ado­les­cen­te, Patty foi estu­pra­da numa fes­ta por um cole­ga de esco­la. Mas o garo­to era filho de doa­do­res impor­tan­tes da cam­pa­nha elei­to­ral de sua mãe, de modo que os pais se recon­ci­li­am com a famí­lia do agres­sor.

Liberdade ganhou pecha de ingê­nuo, como se a crí­ti­ca aos repu­bli­ca­nos fizes­se de Franzen um autor a ser­vi­ço do bom-mocis­mo da era Obama. O livro não pen­de para um lado só do espec­tro polí­ti­co nem faz pro­se­li­tis­mo fácil, com uma ou outra exce­ção, como o modo esque­má­ti­co com que retra­ta o sis­te­ma públi­co de saú­de, pau­ta evi­den­te demais nos edi­to­ri­ais da impren­sa demo­cra­ta para não esbar­rar no arti­fi­ci­a­lis­mo. Mas não é ao acu­sar Franzen de esquer­dis­ta ingê­nuo que se fará boa crí­ti­ca de seu tra­ba­lho.

O pon­to em dis­cus­são diz res­pei­to à for­ma do livro. Desse pon­to de vis­ta, é uma obra con­ven­ci­o­nal. Da mes­ma manei­ra que a ima­gem de “homem de letras” em nome da qual a revis­ta Time elo­gi­a­va o autor é do sécu­lo XIX, tam­bém do pon­to de vis­ta for­mal Franzen se movi­men­ta num regis­tro anti­go. Ele dia­lo­ga pou­co com a tra­di­ção do roman­ce do sécu­lo XX. Esse é um reper­tó­rio que a ele não inte­res­sou incor­po­rar e que pode ser vis­to como fra­que­za de cer­to pon­to de vis­ta crí­ti­co. Está cla­ro, con­tu­do, que não teria obti­do essa res­so­nân­cia se fos­se autor de um livro expe­ri­men­tal, e aí pode haver boa dose de cál­cu­lo.

Há dois exem­plos a esse pro­pó­si­to. Um é o pri­mei­ro pará­gra­fo, car­tão de visi­tas para qual­quer obra de fic­ção. Outro é a manei­ra qua­se imper­cep­tí­vel com que ten­ta vari­ar a voz nar­ra­ti­va em situ­a­ções que a estru­tu­ra pare­ce pedir isso. As pri­mei­ras linhas do livro dizem o seguin­te:

A notí­cia sobre Walter Berglund não cir­cu­lou local­men­te — ele e Patty tinham se muda­do para Washington dois anos antes e já não sig­ni­fi­ca­vam nada mais para St. Paul ­-, mas o povo de Ramsey Hill não era leal à sua cida­de a pon­to de dei­xar de ler o New York Times.(…)  Seus ex-vizi­nhos tive­ram difi­cul­da­de em con­ci­li­ar os adje­ti­vos com que o Times o qua­li­fi­ca­va (´arro­gan­te´, pre­sun­ço­so´, ´eti­ca­men­te com­pro­me­ti­do´) com o vizi­nho gene­ro­so, sor­ri­den­te e cora­do que viam peda­lan­do até a con­du­ção para o tra­ba­lho todo dia (…) Se bem que sem­pre tinha havi­do algo estra­nho na famí­lia Berglund.

Esse pri­mei­ro pará­gra­fo é pode­ro­so. Todas as 700 pági­nas seguin­tes são dedi­ca­das a mos­trar como se deu essa que­da que levou a famí­lia exem­plar até as pági­nas de escân­da­lo do Times, coi­sa que só acon­te­ce ao fim do livro, quan­do Walter atua como laran­ja dos repu­bli­ca­nos inte­res­sa­dos na extra­ção de car­vão. Mas é tam­bém um tru­que roma­nes­co dos mais con­ven­ci­o­nais: o autor puxa um ele­men­to deci­si­vo do fim da his­tó­ria para as pri­mei­ras linhas, de modo a pren­der a aten­ção do lei­tor até que essa isca, lan­ça­da logo de iní­cio, se mos­tre em sua tota­li­da­de.

Vale com­pa­rar com uma aber­tu­ra céle­bre, a de Anna Karenina, de Tolstói:

Todas as famí­li­as feli­zes se pare­cem entre si; as infe­li­zes são infe­li­zes cada uma à sua manei­ra.

Na segun­da linha, já se sabe que o nar­ra­dor vai pas­sar as pági­nas seguin­tes a con­tar uma des­gra­ça fami­li­ar. Mais que isso: uma des­gra­ça par­ti­cu­lar, que só pode­ria ter sido vivi­da daque­la manei­ra.

Não é casu­al a com­pa­ra­ção com Tolstói. Algumas pági­nas de Liberdade são dedi­ca­das a pará­fra­ses de Guerra e Paz, que Patty lê em seu reti­ro na casa de cam­po. Como nos gran­des livros de Tolstói, em Franzen o cen­tro é tam­bém o dra­ma fami­li­ar. Assim como na obra do escri­tor rus­so, há uma capa­ci­da­de de con­fe­rir huma­ni­da­de aos per­so­na­gens que por vezes pare­ce sus­pen­der a medi­a­ção do autor, como se a pró­pria rea­li­da­de se escre­ves­se de for­ma espon­tâ­nea dian­te de nos­sos olhos.

As vari­a­ções da voz nar­ra­ti­va são uma fra­gi­li­da­de mais evi­den­te. Franzen sabe bem que o roman­ce con­tem­po­râ­neo não pode pres­cin­dir de ques­ti­o­na­men­to sobre a for­ma de nar­rar. Compõe seu livro, assim, a par­tir de dois nar­ra­do­res: um é onis­ci­en­te, em ter­cei­ra pes­soa, bem aos mol­des do roman­ce do XIX. Outros tre­chos, con­tu­do, são nar­ra­dos por Patty Berglund. Por suges­tão de seu tera­peu­ta, ela escre­ve uma auto­bi­o­gra­fia, que faz as vezes de segun­do capí­tu­lo e ocu­pa cen­to e tan­tas pági­nas.

É de estra­nhar a peque­na vari­a­ção entre os tre­chos do nar­ra­dor con­ven­ci­o­nal e aque­les nar­ra­dos por Patty. Ela tam­bém escre­ve em ter­cei­ra pes­soa, com raras refe­rên­ci­as à “auto­bió­gra­fa”. E escre­ve com bri­lho, com pas­sa­gens que fun­ci­o­nam nas mãos de um escri­tor de talen­to como Franzen, mas que não con­ven­cem quan­do se tem em men­te que a voz é de uma dona de casa depri­mi­da e ex-joga­do­ra de bas­que­te. Franzen ten­ta mar­car a dife­ren­ça: assim que aca­ba a auto­bi­o­gra­fia, entram pará­gra­fos imen­sos, sem pon­to final, como a indi­car essa mudan­ça. Mas são ocor­rên­ci­as epi­só­di­cas, que não mar­cam o anda­men­to do tex­to e dei­xam essa incom­ple­tu­de no ar.

Franzen não é um roman­cis­ta aca­ba­do e é sau­dá­vel des­con­fi­ar da his­te­ria em tor­no de seu livro. Mas isso não é o mes­mo que lhe negar os méri­tos. Há um lugar vago para o gran­de intér­pre­te lite­rá­rio da alma ame­ri­ca­na pós-11 de setem­bro. O escri­tor que der sen­ti­do a ela por meio de uma ima­gem for­te como a da famí­lia Berglund terá decer­to des­ta­que mere­ci­do.

É cedo para dizer se Franzen é essa figu­ra, mas está sem dúvi­da entre aque­les capa­zes de aspi­rar a essa con­di­ção. Suas ambi­ções de ser o Tolstói do sécu­lo XXI podem sus­ci­tar des­con­fi­an­ça quan­to à capa­ci­da­de de reno­var a for­ma do roman­ce e tam­bém suge­rem pou­ca dis­po­si­ção para uma dis­cus­são neces­sá­ria sobre o papel que cabe hoje à fic­ção lite­rá­ria. Mas a inten­si­da­de com que essas ambi­ções são pra­ti­ca­das em seus livros é rara e dig­na de nota. E elas só podem fazer bem para a lite­ra­tu­ra num momen­to em que sua mor­te é decre­ta­da a cada dia.

* Na ima­gem que ilus­tra o post: Jonathan Franzen na capa da revis­ta Time.

* Flávio Moura é o coor­de­na­dor do site do IMS.

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