Analógico

Artes

30.09.13

Nesta quar­ta, 2 de outu­bro, às 20h, o IMS-RJ abre a expo­si­ção Tacita Dean: a medi­da das coi­sas, pri­mei­ra indi­vi­du­al da artis­ta ingle­sa na América Latina e ela­bo­ra­da espe­ci­al­men­te para o públi­co bra­si­lei­ro. São 11 fil­mes e sete obras em papel, tra­ba­lhos emble­má­ti­cos na tra­je­tó­ria da artis­ta. Também serão exi­bi­dos gra­vu­ras e tra­ba­lhos iné­di­tos fei­tos a par­tir de foto­gra­fi­as e pos­tais anti­gos do Rio de Janeiro. Na aber­tu­ra da expo­si­ção, Tacita Dean fala­rá sobre sua obra numa pales­tra aber­ta ao públi­co.

Bubble House (exterior) [Casa Bolha (exterior)], 1999 | Fotografia colorida | 99 x 147,5 cm

Casa Bolha (exterior), 1999 | Fotografia colorida | 99 x 147,5 cm

Percebi que não sei o que sig­ni­fi­ca “ana­ló­gi­co”. Queimo as pes­ta­nas ten­tan­do encon­trar uma defi­ni­ção. “Analógico”, pare­ce, é uma des­cri­ção — uma des­cri­ção, de fato, de todas as coi­sas que me são caras. É uma pala­vra que sig­ni­fi­ca pro­por­ção e seme­lhan­ça, e é, de acor­do com cer­ta expli­ca­ção, a repre­sen­ta­ção de um obje­to que lem­bra o ori­gi­nal; não uma trans­cri­ção ou uma tra­du­ção, mas um equi­va­len­te em uma for­ma para­le­la: con­ti­nu­a­men­te variá­vel, men­su­rá­vel e mate­ri­al. Tudo que pode­mos quan­ti­fi­car fisi­ca­men­te é ana­ló­gi­co: com­pri­men­to, lar­gu­ra, vol­ta­gem e pres­são. Telefones são ana­ló­gi­cos; os pon­tei­ros dos reló­gi­os, que giram com a rota­ção da ter­ra, são ana­ló­gi­cos; escre­ver é ana­ló­gi­co; dese­nhar é ana­ló­gi­co. Até rasu­rar é ana­ló­gi­co. O pen­sa­men­to tam­bém se tor­na ana­ló­gi­co quan­do é mate­ri­a­li­za­do numa for­ma con­cre­ta; quan­do se trans­mu­ta em linhas no papel ou mar­cas num qua­dro. É como se meu esta­do de espí­ri­to fos­se ana­ló­gi­co quan­do eu dese­nho: meu deva­neio incons­ci­en­te mani­fes­ta-se como uma impres­são numa super­fí­cie.

Petropolis, 2013 | Guache sobre fotografia em papel de gelatina/prata | 16,1 x 22,1 cm

Petrópolis, 2013 | Guache sobre fotografia em papel de gelatina/prata | 16,1 x 22,1 cm

“Analógico” suge­re um sinal con­tí­nuo — um con­ti­nu­um e um per­cur­so -, ao pas­so que “digi­tal” cons­ti­tui o que está frag­men­ta­do, ou melhor, decom­pos­to em milhões de núme­ros. Eu não deve­ria esqui­var-me do mun­do digi­tal, por­que ele é, cla­ro, o gran­de faci­li­ta­dor do ime­di­a­tis­mo, da repro­du­ção e da con­ve­ni­ên­cia e radi­ca­li­zou nos­sos tem­pos de for­ma indes­cri­tí­vel. Contudo, para mim, ele sim­ples­men­te não apre­sen­ta mei­os para cri­ar poe­sia; tam­bém não res­pi­ra nem cam­ba­leia, mas bota ordem em nos­sa soci­e­da­de, cor­ri­gin­do-a sem dei­xar ves­tí­gi­os. Fico ima­gi­nan­do se seria por não ter sur­gi­do do mun­do físi­co, por ser impe­ne­trá­vel e intan­gí­vel. Está mui­to dis­tan­te do dese­nho, onde a foto­gra­fia e o cine­ma têm suas raí­zes: a impres­são da luz na emul­são, a alqui­mia das cir­cuns­tân­ci­as e a quí­mi­ca, mar­cas em seu supor­te. Estamos sen­do for­ça­dos a mar­char rumo a uma revo­lu­ção efer­ves­cen­te sem vol­ta, sem um sus­pi­ro ou um ace­no para tudo que esta­mos per­den­do. E esse é o pon­to, o que esta­mos per­den­do é uma imen­si­dão de rique­zas, e por enquan­to esta­mos deci­din­do não subs­ti­tuí-las ade­qua­da­men­te. Estamos abrin­do mão de nos­sa capa­ci­da­de de fazer um simu­la­cro qua­se per­fei­to de nos­so mun­do visu­al, que o digi­tal ain­da não con­se­gue repli­car, ape­sar da cres­cen­te pro­li­fe­ra­ção de pixels; e faze­mos isso volun­ta­ri­a­men­te.

Recentemente, me reu­ni com Annie Chaloyard, da Kodak Industrie em Chalon-sur-Saône, e per­gun­tei a ela por que a Kodak esta­va se ren­den­do tão rapi­da­men­te e sem resis­tên­cia ao pre­sun­ço­so agres­sor digi­tal e tinha para­do de pro­du­zir fil­mes 16 mm. Ela res­pon­deu, com tris­te­za, que nin­guém mais pare­ce notar a dife­ren­ça: a gera­ção da era do digi­tal logo não sabe­rá mais o que são pelí­cu­las de celu­loi­de ou nega­ti­vos foto­grá­fi­cos. Sempre é pre­ci­so uma gera­ção para o esque­ci­men­to.

Gellért, 1998 | Impressão lambda | 38 x 59 cm cada

Gellért, 1998 | Impressão lambda | 38 x 59 cm cada

Por sor­te, ain­da há deman­da por rai­os-x, e toda a pro­fi­ci­ên­cia, afi­na­da ao lon­go de vári­as gera­ções da for­ça de tra­ba­lho da Kodak, ain­da está sen­do empre­ga­da na fabri­ca­ção de pelí­cu­la de poliés­ter e emul­são para radi­o­lo­gia. De um azul vis­co­so sóli­do até uma eva­nes­cen­te trans­pa­rên­cia, a fabri­ca­ção de pelí­cu­las é uma via­gem de bele­za subli­me, que eu nun­ca teria conhe­ci­do se não fos­se sua obso­les­cên­cia inci­pi­en­te. A pelí­cu­la é esti­ca­da como uma linha por cir­cui­tos inter­mi­ná­veis que per­cor­rem toda essa imen­sa fábri­ca, puxa­da em gran­de velo­ci­da­de para cima e para bai­xo e pas­san­do por cilin­dros, deli­ne­an­do e defi­nin­do uma for­ma e um pro­ces­so de gran­de sofis­ti­ca­ção e esplen­dor cien­tí­fi­co. As luzes esta­vam ace­sas no dia em que fil­ma­mos lá: blanc, como eles dis­se­ram, ilu­mi­nan­do o mun­do inte­ri­or de uma for­ma que não cos­tu­ma­va ocor­rer. Estavam fazen­do tes­tes com papel par­do, com cer­to mis­té­rio, para algum expe­ri­men­to con­fi­den­ci­al ou como uma demons­tra­ção para nós, eles não iri­am dizer. Quando o papel come­çou a rodar, res­sal­tan­do, pelo con­tras­te, o per­cur­so habi­tu­al da pelí­cu­la, sua opa­ci­da­de blo­que­ou a luz, como se a des­li­gas­se. Tudo o que esta­va ilu­mi­na­do ficou sem gra­ça, e a cena ficou comum. Depois que o papel con­cluiu seu ciclo, o fil­me e a luz foram res­tau­ra­dos.

Teignmouth Electron, Cayman Brac (geral), 1999 Fotografia colorida | 68 x 89 cm

Teignmouth Electron, Cayman Brac (geral), 1999 | Fotografia colorida | 68 x 89 cm

Todas as ima­gens: © Tacita Dean/ Cortesia da artis­ta; Frith Street Gallery, Londres e Marian Goodman Gallery, Nova York/Paris.

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