Antes do samba

Séries

04.07.13

Este é o quar­to tex­to da série Crônicas musi­cais de Luís Martins, que está sen­do publi­ca­da às quin­tas-fei­ras no Blog do IMS. Integra a anto­lo­gia Melhores crô­ni­cas de Luís Martins, orga­ni­za­da por sua filha Ana Luisa Martins (tam­bém auto­ra da intro­du­ção que pre­ce­de a crô­ni­ca), a ser lan­ça­da pela Global Editora.

João do Rio (1881-1921)

João do Rio (1881–1921)

Em 23 de junho de 1921, quan­do João do Rio mor­reu subi­ta­men­te no ban­co de um táxi, aos 39 anos, meu pai ain­da usa­va cal­ças cur­tas. Mesmo assim, ele jamais esque­ce­ria a como­ção que tomou con­ta da cida­de naque­le dia e o fez se sen­tir vaga­men­te famo­so. O moti­vo é pro­sai­co: o táxi per­ten­cia ao seu pai, que foi cha­ma­do às pres­sas para solu­ci­o­nar a funes­ta ques­tão. Alguns anos depois, meu pai tam­bém come­ça­ria a escre­ver crô­ni­cas. João do Rio, de quem ele leu, releu e pes­qui­sou tudo o que pôde encon­trar, tor­nou-se, des­de aque­le dia fatí­di­co, sua mai­or pai­xão lite­rá­ria. O quan­to a mor­te do mai­or cro­nis­ta da bel­le épo­que cari­o­ca no Studebaker do pai teve a ver com sua tra­je­tó­ria pro­fis­si­o­nal não sei dizer ao cer­to. Apenas apon­to a coin­ci­dên­cia. Meu pai acha­va que selou o seu des­ti­no.

No final dos anos 1960, Rubem Braga e Fernando Sabino, que sabi­am da pai­xão lite­rá­ria do ami­go, suge­ri­ram-lhe que orga­ni­zas­se uma cole­tâ­nea de tex­tos de Paulo Barreto (nome ver­da­dei­ro de João do Rio).  João do Rio, uma anto­lo­gia saiu em dezem­bro 1971, pela edi­to­ra Sabiá (e foi ree­di­ta­da em 2005, pela José Olympio). No pre­fá­cio, o orga­ni­za­dor lamen­ta que a obra de João do Rio fos­se “qua­se igno­ra­da das novas gera­ções”. Passados 50 anos da mor­te do autor, expli­ca, seus livros havi­am sumi­do das livra­ri­as. Apenas um fora ree­di­ta­do (em 1952): A alma encan­ta­do­ra das ruas. Ninguém mais sabia quem era João do Rio.

Muita água rolou des­de então. Vários arti­gos, teses, livros e exce­len­tes anto­lo­gi­as de tex­tos do João do Rio foram publi­ca­das. Seu poder de obser­va­ção e esti­lo ino­va­dor, que esfu­ma­ça­ram os limi­tes entre jor­na­lis­mo e lite­ra­tu­ra, são hoje ampla­men­te conhe­ci­dos e valo­ri­za­dos.

Para meu pai, João do Rio seria até o final da vida uma fon­te ines­go­tá­vel de pes­qui­sa e des­lum­bra­men­to. Uma pai­xão lite­rá­ria da vida toda, como se pode cons­ta­tar na crô­ni­ca abai­xo, escri­ta mais de dez anos após con­cluir o tra­ba­lho para a anto­lo­gia e publi­ca­da ori­gi­nal­men­te em O Estado de S. Paulo em janei­ro de 1972.

Antes do sam­ba

Luís Martins

Quanto mais estu­do a obra do cari­o­ca Paulo Barreto (João do Rio), mais me con­ven­ço que ela é pro­di­gi­o­sa e, no seu gêne­ro, úni­ca no Brasil. Este homem, que não che­gou a com­ple­tar 40 anos, viu tudo, conhe­ceu tudo, tudo ano­tou, regis­trou e comen­tou no Rio de Janeiro do seu tem­po. Menos o subúr­bio. Em com­pen­sa­ção, foi o pri­mei­ro repór­ter, tal­vez, a fixar como assun­to jor­na­lís­ti­co a fave­la (que ain­da não se cha­ma­va fave­la).

Admiro-me que os his­to­ri­a­do­res da nos­sa músi­ca popu­lar em geral des­pre­zem, cer­ta­men­te por não conhe­cê-lo, o rico manan­ci­al que se pode colher em seus livros, prin­ci­pal­men­te em A alma encan­ta­do­ra das ruas.

Ela não fala do sam­ba, que não é do seu tem­po, mas regis­tra “letras” que pode­ri­am ser­vir a sam­bas futu­ros. Por exem­plo:

Zás-trás, zás-trás

Malagueta no cabaz

Com jei­to tudo se arran­ja

Com jei­to tudo se faz.

Cinquenta anos depois, um sam­ba con­tem­po­râ­neo insis­ti­ria na mes­ma tecla: Vai! Com jei­to vai…

Toda a gra­ça, a des­pre­o­cu­pa­ção boê­mia, a iro­nia man­sa do malan­dro cari­o­ca repon­tam nes­sas peque­nas qua­dras colhi­das no can­ci­o­nei­ro popu­lar do come­ço do sécu­lo. Como nes­ta, deli­ci­o­sa:

O amor da mulher é cacha­ça

Que se bebe por frio e calor

O amor da mulher é cha­la­ça

É can­ti­ga de mau tro­va­dor.

 

Ou nes­te sim­ples ver­so de uma can­ção que se per­deu:

Perdão, Emília, mas cho­rar não pos­so…

 

O bes­ti­a­ló­gi­co do Bolim-bola­cho não fica atrás do Bigorrilho, que aba­fou no Carnaval de 1964. A mula­ta já era can­ta­da no iní­cio do sécu­lo, ao menos nes­te lun­du que pare­ce sara­co­te­an­te:

É qui­tu­te sabo­ro­so

É melhor que vata­pá

É néc­tar deli­ci­o­so

É bom como não há. 

 

Mais sara­co­te­an­tes ain­da são estes ver­sos, can­ta­dos dian­te de um pre­sé­pio:

Sussu sus­se­ga

Vai dro­mi teu sono

Tá com medo, diga

Quer dinhei­ro, tome.

E ago­ra vejam esta mara­vi­lha:

Eu vivo tris­te como sapo na lagoa

Cantando tris­te, escon­di­do pelas matas.

Para ver se endi­rei­to a minha vida

Vou dei­xar das mal­di­tas sere­na­tas.

O meu nome na Gazeta de Notícias

Ainda hoje eu vi, bem decla­ra­do:

Ontem à noi­te foi pre­so um vaga­bun­do.

Não pare­ce letra de Noel Rosa?

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