Antropologia de si

Colunistas

30.04.15

Até a sema­na pas­sa­da, eu nun­ca tinha lido nada do noru­e­guês Karl Ove Knausgaard, con­sa­gra­do mun­do afo­ra como o “novo Proust”. Não tinha sido por fal­ta de infor­ma­ção nem de enco­ra­ja­men­to. O monu­men­tal (mais de três mil e qui­nhen­tas pági­nas divi­di­das em seis volu­mes) Minha luta, que nar­ra a vida do autor e sua rela­ção com o pai vio­len­to e alcoó­la­tra, se tor­nou suces­so abso­lu­to de ven­das e de crí­ti­ca em diver­sos paí­ses, com pou­cas exce­ções, como a França, tal­vez não por aca­so. Da opi­nião entu­si­as­ma­da dos ami­gos em quem eu mais con­fio à una­ni­mi­da­de da crí­ti­ca mais influ­en­te, tudo me exor­ta­va a ler Karl Ove Knausgaard.

O escritor norueguês Karl Ove Knausgaard

Calhou de eu come­çar por um tre­cho do volu­me 4 publi­ca­do onli­ne (o livro aca­ba de sair nos Estados Unidos; no Brasil, a Companhia das Letras publi­cou os dois pri­mei­ros títu­los da série). E, por um ins­tan­te, até enten­der que, à dife­ren­ça dos três pri­mei­ros volu­mes, o quar­to, que con­ta a ado­les­cên­cia do autor e o iní­cio da sua vida adul­ta e amo­ro­sa, é deli­be­ra­da­men­te menos refle­xi­vo, expres­so numa pro­sa mui­tas vezes rare­fei­ta e mera­men­te des­cri­ti­va, fiquei me per­gun­tan­do onde esta­ria o Proust con­tem­po­râ­neo de quem todo mun­do fala­va.

Como só li um capí­tu­lo (o que nar­ra o casa­men­to do pai com a segun­da mulher), tive de espe­rar a rese­nha de Jeffrey Eugenides no The New York Times para enten­der que não devia jul­gar a obra pelas par­tes: “O livro 4 é tam­bém o mais are­ja­do da série. (…) Já não há as pas­sa­gens ensaís­ti­cas que ins­pi­ra­vam os volu­mes pre­ce­den­tes, arro­ja­dos na sua pro­fun­di­da­de euro­peia anti­qua­da e reple­tos de asso­ci­a­ções bri­lhan­tes, saga­zes e ori­gi­nais”.

Eugenides fala da ambi­ção de Knausgaard de escre­ver “algo excep­ci­o­nal” num mun­do satu­ra­do de fic­ção. Para isso, ele deci­diu tomar o cami­nho inver­so ao da ima­gi­na­ção sem frei­os (“outros escri­to­res inven­tam; Knausgaard se lem­bra”), pon­do tudo o que lhe acon­te­ce­ra na vida sob uma len­te de aumen­to.

Eugenides des­ta­ca a “hones­ti­da­de alta­men­te empá­ti­ca” des­se pro­je­to: “A razão de esses livros se pare­ce­rem tan­to com a vida vem de haver neles ape­nas um pro­ta­go­nis­ta. Apesar de todo o seu talen­to, Knausgaard nun­ca dei­xa uma impres­são inde­lé­vel das outras pes­so­as. (…) É impos­sí­vel entrar den­tro delas sem alte­rar o foco do solip­sis­mo do autor. (…) É tão mais inte­res­san­te habi­tar a men­te dele, que você nem pen­sa em abrir mão des­sa pers­pec­ti­va, assim como, na sua pró­pria vida, tam­pou­co pen­sa em dei­xar de ser quem é. Um dos para­do­xos da obra de Knausgaard é que, ao se base­ar com tan­ta inten­si­da­de em suas pró­pri­as memó­ri­as, ele res­tau­ra – e eu diria que qua­se san­ti­fi­ca – as memó­ri­as do lei­tor”. Tudo a ver com um pro­ces­so de iden­ti­fi­ca­ção.

Em mea­dos do sécu­lo pas­sa­do, outro escri­tor que cos­tu­ma ser com­pa­ra­do a Proust (por levar a fra­se prous­ti­a­na ao paro­xis­mo) tam­bém se propôs a cri­ar uma obra a par­tir da des­cri­ção radi­cal de si mes­mo, mas com resul­ta­dos dia­me­tral­men­te opos­tos. Michel Leiris publi­cou A ida­de viril (L’Âge d’Homme, publi­ca­do no Brasil pela Cosac Naify) em 1939 – e, no seu caso, a radi­ca­li­da­de vinha do aves­so de um pro­ces­so de iden­ti­fi­ca­ção ime­di­a­ta com o lei­tor.

O francês Michel Leiris

Knausgaard des­co­briu uma manei­ra de sus­pen­der a des­cren­ça do lei­tor numa épo­ca em que essa sus­pen­são é mais difí­cil de ser alcan­ça­da. Sua téc­ni­ca é tão astu­ci­o­sa que o lei­tor nem se dá con­ta dela. Na ver­da­de, o domí­nio que Knausgaard tem dos pro­ce­di­men­tos tra­di­ci­o­nais do roman­ce é a razão pela qual esses livros são o opos­to de cha­tos, embo­ra na apa­rên­cia tives­sem tudo para sê-lo. Knausgaard está sem­pre con­tan­do um caso, sem­pre atrain­do o lei­tor com algu­ma con­fu­são amo­ro­sa, algum desas­tre sexu­al ou algu­ma cri­se emo­ci­o­nal. Ele ali­men­ta a atmos­fe­ra na medi­da cer­ta; seu rit­mo é impe­cá­vel”, escre­ve Eugenides.

E embo­ra o rese­nhis­ta ter­mi­ne por defi­nir a obra de Knausgaard como um “roman­ce expe­ri­men­tal”, a astú­cia do arti­fí­cio e da veros­si­mi­lhan­ça (mes­mo em se tra­tan­do de um mate­ri­al em prin­cí­pio mais “autên­ti­co”, como as lem­bran­ças pes­so­ais) está mui­to mais pró­xi­ma de uma cri­a­ção clas­si­cis­ta do que de qual­quer expe­ri­men­ta­ção.

Num ensaio sobre a poe­ta argen­ti­na Alejandra Pizarnik, César Aira defi­ne dois modos lite­rá­ri­os bási­cos, opon­do ao “pro­ces­so sur­re­a­lis­ta” uma escri­ta de resul­ta­dos: “A arte é fei­ta des­ses dois esta­dos que coe­xis­tem, simul­ta­ne­a­men­te, enga­ja­dos numa dia­lé­ti­ca pere­ne: o pro­ces­so e o resul­ta­do. Não se tra­ta de sepa­rar o que em uma obra ou em um artis­ta cor­res­pon­de a um e a outro, mas de assi­na­lar seus polos: a arte comer­ci­al, de ‘con­su­mo’, ten­de para o polo do resul­ta­do; a arte expe­ri­men­tal ou radi­cal ten­de para o polo do pro­ces­so. No polo do resul­ta­do, há o lei­tor ou o espec­ta­dor; no polo do pro­ces­so, há o artis­ta. Pode-se dizer que na arte clás­si­ca há uma har­mo­nia entre pro­ces­so e resul­ta­do. Na era moder­na, essa dia­lé­ti­ca se exa­cer­bou pro­gres­si­va­men­te: as van­guar­das do sécu­lo vin­te a pro­je­ta­ram para o pri­mei­ro pla­no, numa cor­ri­da em favor de uma arte que devia ser ‘puro pro­ces­so’”.

Escritor argen­ti­no de des­ta­que num momen­to em que a obra de Cortázar pas­sa por um revi­si­o­nis­mo impla­cá­vel (ao mes­mo tem­po que os para­do­xos e as fra­gi­li­da­des do moder­nis­mo tor­na­ram-no um alvo fácil), Aira ata­ca os resul­ta­dos pífi­os do sur­re­a­lis­mo no qual bebe­ram tan­to o autor de O jogo da ama­re­li­nha quan­to a jovem Pizarnik, para assim res­ga­tar o que há de melhor na poe­ta: os pró­pri­os poe­mas. Entretanto, sua defi­ni­ção dos modos artís­ti­cos, por mais dicotô­mi­ca que seja, é per­fei­ta para expli­car dois pro­je­tos auto­bi­o­grá­fi­cos tão dife­ren­tes quan­to o de Knausgaard e o de Leiris. 

Michel Leiris tam­bém come­çou a vida inte­lec­tu­al liga­do ao sur­re­a­lis­mo, antes de rom­per com o movi­men­to e embar­car na sua aven­tu­ra antro­po­ló­gi­ca. Em A ida­de viril (1939), ele quer des­pir-se, mos­trar suas falhas e suas feri­das, expor-se à ver­go­nha públi­ca. É como se, somen­te dis­se­can­do o pró­prio dese­jo, o que há de mais pro­fun­do, de mais secre­to e de mais incom­pre­en­sí­vel em si, fos­se pos­sí­vel che­gar a algu­ma ver­da­de.

Toda expe­ri­men­ta­ção pres­su­põe um ris­co, está cal­ca­da no opos­to do resul­ta­do e do bom aca­ba­men­to por arti­fí­cio, por astú­cia e por dis­si­mu­la­ção. Se o roman­ce expe­ri­men­tal da moder­ni­da­de (assim como seu autor) expõe as pró­pri­as falhas e fra­gi­li­da­des, é por­que está inte­res­sa­do em ver (e em fazer o lei­tor ver), para além das con­ven­ções, atra­vés das fen­das que abre na lin­gua­gem, como dirá Beckett em sua cor­res­pon­dên­cia. E, para ver por detrás e para além das con­ven­ções, é pre­ci­so antes des­con­fi­ar, des­crer.

As pas­sa­gens que Knausgaard rela­ta de sua vida dizem res­pei­to a uma natu­ra­li­da­de com a qual o lei­tor pode se iden­ti­fi­car, ao mes­mo tem­po que se sen­te com­pen­sa­do pela nar­ra­ti­va, como se les­se a his­tó­ria de sua pró­pria vida, rea­li­za­da com a astú­cia do arti­fí­cio lite­rá­rio. Saem ambos (autor e lei­tor) engran­de­ci­dos e gra­ti­fi­ca­dos. Em con­tra­par­ti­da, as pas­sa­gens que Leiris rela­ta de sua vida pro­cu­ram degra­dar o eu. Elas expõem a per­da de si num con­fron­to per­ma­nen­te com o dese­jo. O que o autor sele­ci­o­na de sua vida e de suas memó­ri­as são momen­tos de exce­ção que reve­lam uma sexu­a­li­da­de per­ver­sa à qual ele está sub­me­ti­do. São momen­tos que nin­guém quer con­fes­sar. Leiris bus­ca o “pra­zer” da feri­da (da falha), que é tam­bém uma for­ma de roçar a mor­te, a mor­te liga­da ao sexo como cha­ve para o enten­di­men­to da vida.

Como os sur­re­a­lis­tas, Leiris foi influ­en­ci­a­do pela psi­ca­ná­li­se. Mas, em vez de auto­a­ná­li­se, o que ele empre­en­de em A ida­de viril é umaantro­po­lo­gia de si. Leiris tomou par­te na céle­bre expe­di­ção Dakar-Djibuti, em 1931–33, que aca­bou resul­tan­do no diá­rio A África fan­tas­ma (tam­bém publi­ca­do pela Cosac Naify). Trabalhou duran­te mui­tos anos no Museu do Homem, em Paris. Como Georges Bataille, a quem A ida­de viril é dedi­ca­do, Leiris se ser­ve da pers­pec­ti­va antro­po­ló­gi­ca para revi­si­tar suas obses­sões mais ínti­mas, sobre­pon­do ensaio e con­fis­são. O resul­ta­do é sur­pre­en­den­te, emba­ra­lhan­do a sub­je­ti­vi­da­de da expe­ri­ên­cia com a obje­ti­vi­da­de ana­lí­ti­ca, como se o eu fos­se de fato um outro.

A lite­ra­tu­ra apa­re­ce aí como uma for­ma de refle­xão cir­cu­lar, resul­ta­do do dese­jo que é tam­bém obje­to da inves­ti­ga­ção do autor. Ele se inter­ro­ga sobre suas pre­fe­rên­ci­as sexu­ais e esté­ti­cas, sobre o sacri­fí­cio pre­sen­te nas tou­ra­das, nos ritu­ais reli­gi­o­sos e em cer­tas figu­ras e ima­gens da Antiguidade. E o sacri­fí­cio, que tem a ver com o feri­men­to e com a falha, tam­bém é um modo de se apro­xi­mar da ver­da­de, pelas fen­das infli­gi­das à lin­gua­gem.  

Nesse pro­ces­so, o lei­tor está asso­ci­a­do à par­te ausen­te, ao obje­to do dese­jo, a tudo o que fal­ta e que leva o autor a escre­ver. Demasiado teó­ri­co? Demasiado fran­cês? Pode ser. Leiris que­ria fazer da lite­ra­tu­ra uma antro­po­lo­gia de si, por­que não exis­te pra­zer sem a cons­ci­ên­cia do pra­zer. É o inver­so de um pro­je­to que con­sis­te em “sus­pen­der a des­cren­ça” (e a cons­ci­ên­cia) do lei­tor, para melhor con­quis­tá-lo. Leiris que­ria que a des­cren­ça tra­ba­lhas­se a favor do lei­tor, de sua cons­ci­ên­cia e de seu pra­zer. É um outro tipo de iden­ti­fi­ca­ção: à sua pró­pria ima­gem, ele que­ria um lei­tor refle­xi­vo dian­te do dese­jo. Talvez seja essa a mai­or dife­ren­ça entre um pro­je­to lite­rá­rio moder­no, tão fora de moda como o de Leiris, e uma lite­ra­tu­ra con­tem­po­râ­nea que ten­ta tor­nar as con­ven­ções tão natu­rais e trans­pa­ren­tes quan­to as dese­ja o lei­tor.

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