Ao passado, ao trabalho

Colunistas

04.05.16

Em tem­pos de vozes mono­cór­di­as e con­ver­sas mono­te­má­ti­cas, vol­tar ao pas­sa­do ou tra­zer o que há de pas­sa­do no tem­po pre­sen­te pode ser, no míni­mo, um alí­vio ao mal-estar, senão da civi­li­za­ção, pelo menos da pola­ri­za­ção. Rememorar foi o que fez o filó­so­fo ale­mão Walter Benjamin quan­do escre­veu Infância Berlinense — 1900, no momen­to em que pre­via um futu­ro som­brio para a huma­ni­da­de e para si mes­mo, a se con­fir­mar com a sua mor­te pre­ma­tu­ra e com a solu­ção final.

Benjamin faz um retor­no nos­tál­gi­co não ape­nas em dire­ção a sua infân­cia, mas a um tem­po e a um mun­do que não exis­ti­am mais. Seu olhar pecu­li­ar para o pas­sa­do mui­tas vezes fez com que seus lei­to­res o iden­ti­fi­cas­sem como um melan­có­li­co, toman­do aqui essa cate­go­ria como uma inde­se­já­vel inca­pa­ci­da­de de com­ple­tar um pro­ces­so de luto. Seguindo mais com Benjamin do que com Freud, há melan­co­lia por­que não é pos­sí­vel incor­po­rar com­ple­ta­men­te os obje­tos per­di­dos, o que faz deles sem­pre um pou­co fan­tas­ma­gó­ri­cos.

No Brasil, cou­be à filó­so­fa Jeanne Marie Gagnebin a impor­tan­te tare­fa de res­sig­ni­fi­car a melan­co­lia no pen­sa­men­to de Benjamin e recu­sar o sen­so comum de o pen­sa­dor ale­mão seria um sau­do­sis­ta em bus­ca do tem­po per­di­do. Em seu livro mais recen­te – Limiar, aura e reme­mo­ra­ção (Editora 34) –, ela tra­ba­lha com a ideia de que memó­ria e reme­mo­ra­ção fun­ci­o­nam em Benjamin como ins­tru­men­tos polí­ti­cos de resis­tên­cia. Com isso, Gagnebin aju­da a pen­sar no que esta­mos ven­do acon­te­cer todos os dias: numa cri­se polí­ti­ca, a dis­pu­ta nun­ca é ape­nas em tor­no do pre­sen­te, mas tam­bém ou prin­ci­pal­men­te sobre a his­tó­ria.

O pas­sa­do nos assom­bra e se mos­tra em dife­ren­tes sin­to­mas, o pri­mei­ro deles, o de que é pos­sí­vel pro­du­zir um mero esque­ci­men­to sem antes um tra­ba­lho de ela­bo­ra­ção que pas­sa, neces­sa­ri­a­men­te, pela reme­mo­ra­ção. Sem com­pre­en­der a impor­tân­cia des­se pro­ces­so, falar do pas­sa­do vira mero res­sen­ti­men­to, ao qual se res­pon­de com os pio­res cli­chês (a vida con­ti­nua, bola pra fren­te, etc). Equiparado por Gagnebin a um “luto cole­ti­vo”, a ela­bo­ra­ção de trau­mas his­tó­ri­cos per­mi­ti­ria que “a vida em comum no pre­sen­te seja pos­sí­vel”.  Com o oca­so da vida em comum, os argu­men­tos de Benjamin tais como lidos por Gagnebin ganham for­ça.

Sobre o luto, Freud ensi­na que há três tem­pos para esse tra­ba­lho: no pri­mei­ro, nega-se a rea­li­da­de da per­da. Esta eta­pa me pare­ce que já foi cole­ti­va­men­te ven­ci­da. No segun­do momen­to, há uma neces­si­da­de de vol­tar-se para si mes­mo, a fim de sepa­rar, no sujei­to, aqui­lo que não foi per­di­do jun­to com o obje­to. É uma fase difí­cil, na qual é pre­ci­so acre­di­tar que aque­le que mor­reu não levou con­si­go a vida do outro, na qual seria pre­ci­so acre­di­tar que a tênue demo­cra­cia bra­si­lei­ra não foi embo­ra no fatí­di­co 17 de abril. O ter­cei­ro movi­men­to ain­da esta­ria por vir. Se vier, será aque­le em que o sujei­to pode­rá se vol­tar para outros obje­tos de dese­jo, ou a outros pro­je­tos polí­ti­cos.  Se não vier, esta­ría­mos de vol­ta à melan­co­lia de Benjamin, na qual só nos res­ta­ria pen­sar sobre a infân­cia.

Se, como eu, você tam­bém já não supor­ta mais a cri­se polí­ti­ca do pre­sen­te, na sua pior dimen­são de repe­ti­ção de dife­ren­tes expe­ri­ên­ci­as de gover­nos vio­len­tos e auto­ri­tá­ri­os, pas­sa­do que não ces­sa de nos assom­brar, tal­vez seja pre­ci­so admi­tir a entra­da em tra­ba­lho de luto por tudo de ruim que se apre­sen­ta. Nem tan­to pelo que a cri­se tem de iné­di­ta na sua impres­si­o­nan­te dimen­são de rup­tu­ra ins­ti­tu­ci­o­nal, mas sobre­tu­do pela sua mar­ca de repe­ti­ção melan­có­li­ca e infi­ni­ta.

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