Aos vencedores, as batatas transgênicas

Correspondência

20.08.13

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"Nossa arte rupestre cyberpunk"

E aí, Fausto?

Continuo a flu­tu­ar nes­te mar de espe­cu­la­ções, bus­can­do pala­vras para des­cre­ver o nos­so zeit­geist — o “espí­ri­to da épo­ca”, o per­fil das idei­as e cos­tu­mes do momen­to, — panóp­ti­co demais para ser sin­te­ti­za­do em uma úni­ca foto­gra­fia. E você dis­se­cou essa rea­li­da­de mui­to bem com seu bis­tu­ri sur­re­a­lis­ta. Hoje eu gos­ta­ria de iden­ti­fi­car ten­dên­ci­as e extra­po­lá-las para o futu­ro. Adivinhar que capí­tu­los o tem­po pre­sen­te há de escre­ver nos livros de his­tó­ria, que, segun­do nos ensi­nam, só con­tam a ver­são dos ven­ce­do­res. “Aos ven­ce­do­res, as bata­tas”, diria Quincas Borba; com o aden­do de que hoje as bata­tas são trans­gê­ni­cas e assam ao micro-ondas, como ilus­tra­rei adi­an­te.

Na últi­ma car­ta eu me gabei de ter nas­ci­do na cris­ta da onda da revo­lu­ção digi­tal e ter aces­so a mais infor­ma­ção do que qual­quer pes­soa do recen­te sécu­lo pas­sa­do jamais sonha­ria. Isso vale não ape­nas para o aces­so, mas tam­bém para a nos­sa capa­ci­da­de de gerar uma enor­mi­da­de de dados, tão impe­re­cí­veis quan­to esque­cí­veis, que deve­rão per­du­rar pelo mes­mo tem­po que seus supor­tes digi­tais. Isso sig­ni­fi­ca que cada um de nós, hoje, tem a capa­ci­da­de de legar uma peque­na mon­ta­nha de lixo digi­tal para a pos­te­ri­da­de — tex­tos, fotos, víde­os, tra­ba­lhos, artes, his­tó­ri­cos de nave­ga­ção, de chat, comen­tá­ri­os em redes soci­ais, fofo­cas, abo­bri­nhas, arqui­vos e mais arqui­vos, ad infi­ni­tum, ad nau­se­am… Dados vir­tu­al­men­te eter­nos! A cada minu­to, milha­res de usuá­ri­os de inter­net depo­si­tam vul­to­sos teraby­tes em bura­cos negros de arqui­va­men­to expo­nen­ci­al encer­ra­dos em ser­vi­do­res que nin­guém ao cer­to sabe onde ficam, mas que são como las bru­jas: pue­des no cre­er, pero que los hay, los hay.

Eu dis­se vir­tu­al­men­te eter­nos? Aposto que qual­quer pes­soa com um per­fil no Facebook tem pelo menos um “ami­go vir­tu­al” já des­co­nec­ta­do des­te mun­do, cuja foto inde­le­tá­vel per­ma­ne­ce em sua lis­ta de con­ta­tos como um sutil memen­to mori. Acho mui­to curi­o­so ver como os per­fis de gen­te mor­ta se trans­for­mam em uma espé­cie de lápi­de vir­tu­al ou muro das lamen­ta­ções, con­tan­to que, em vez de flo­res, são depo­si­ta­das men­sa­gens de paren­tes e ami­gos (já vi até um caso em que os fami­li­a­res kar­de­cis­tas de uma fale­ci­da pos­ta­vam suas atu­a­li­za­ções do “além”). Chega a ser arre­pi­an­te pen­sar que, daqui a algu­mas déca­das, o usuá­rio que se conec­tar a uma rede soci­al velha e esque­ci­da terá gran­des chan­ces de se depa­rar com uma necró­po­le de ros­tos, per­fis e pos­ta­gens con­ge­la­dos num imen­so arqui­vo mor­to. Pois esse é o des­ti­no das redes soci­ais, ao menos até inven­ta­rem a cre­ma­ção de dados — ou até o sol nos dar de pre­sen­te uma boni­ta tem­pes­ta­de mag­né­ti­ca.

Mas por que esse meu deva­neio tétri­co? Porque o pro­ces­so de mumi­fi­ca­ção da infor­ma­ção via­bi­li­za­do pela inter­net pos­si­bi­li­ta que a exis­tên­cia vir­tu­al de cada indi­ví­duo medío­cre e ordi­ná­rio per­ma­ne­ça fos­si­li­za­da e… vire his­tó­ria — e que essa his­tó­ria pos­sa ser aces­sa­da do pon­to de vis­ta de cada um. É o sinal de que todos vamos pas­sar, mas dei­xa­re­mos nos­sa arte rupes­tre cyber­punk gra­va­da, em tin­tas mui­to frá­geis, nes­ta pito­res­ca caver­na invi­sí­vel. E um dia, quem sabe, arqueó­lo­gos de uma era pós-digi­tal res­ga­ta­rão os fós­seis dos nos­sos dados. Esta nos­sa tro­ca de cor­res­pon­dên­cia, por exem­plo, Fausto, tal­vez este­ja des­ti­na­da a mos­trar a esse des­bra­va­dor das cata­cum­bas digi­tais que este nos­so tem­po-e-lugar é mes­mo mui­to estra­nho.

Você comen­tou que a inter­net foi deli­ne­a­da por uma eli­te mili­tar uni­ver­si­tá­ria e hoje é um pode­ro­so negó­cio de empre­sas sur­gi­das no Vale do Silício. Qualquer efei­to libe­ra­dor de mas­sas não é o que pare­ce, e eu con­cor­do, até uma pílu­la de pseu­do­cons­ci­ên­cia polí­ti­ca é um pro­du­to ven­dá­vel e lucra­ti­vo na medi­da em que nin­guém quer ser cabi­de de ape­li­dos con­tem­po­râ­ne­os como “coxi­nha”. Também gos­tei demais des­sa sua fra­se: inter­nets vão sur­gir. Em um pon­to, lá na minha últi­ma car­ta, falei do meu temor de que alguém mui­to pode­ro­so resol­ves­se der­ru­bar a rede, e foi inge­nui­da­de minha. Tecnologias em geral; pro­ces­sa­do­res, chips, lin­gua­gens de pro­gra­ma­ção, cone­xões e até redes soci­ais são como a inven­ção da roda: não é nada que pos­sa­mos desa­pren­der ou que dei­xa­re­mos de repro­du­zir, rein­ven­tar, des­do­brar em dife­ren­tes esca­las.

E por mais que Facebook e Google este­jam sur­fan­do na cris­ta des­sa onda, bem lá no fun­do dos seus escri­tó­ri­os super­des­co­la­dos eles sabem que a onda é efê­me­ra, e que vai pas­sar na velo­ci­da­de eston­te­an­te da reno­va­ção das mídi­as. Reinventar-se é pre­ci­so, mas nem sem­pre fun­ci­o­na. Isso me leva a crer que tal­vez não seja fal­sa aque­la minha pro­fe­cia sobre o Facebook e outras redes soci­ais: hão de cair no esque­ci­men­to até virar necró­po­le. E quan­to à sua pro­fe­cia, Fausto, apos­to que tam­bém é ver­da­dei­ra: inter­nets sur­gi­rão.  Outras redes, múl­ti­plas e cada vez mais sutis. Cada vez mais espe­ci­a­li­za­das.  Até que… — vou extra­po­lar — até que os des­cen­den­tes dos nos­sos atu­ais smartpho­nes ope­rem suas cone­xões com coman­dos cere­brais dire­tos e, por fim, nos deem aces­so à mai­or rede soci­al pos­sí­vel: uma soci­e­da­de glo­bal conec­ta­da por algo mui­to seme­lhan­te à tele­pa­tia. A nós, ven­ce­do­res, as bata­tas trans­gê­ni­cas: todo o pesa­de­lo e o delei­te do que vier depois… Guiar-se por sis­te­ma de GPS inter­no? Ter o cére­bro hac­ke­a­do? Ser per­ma­nen­te­men­te moni­to­ra­do? Talvez esse seja o triun­fo do Big Brother de George Orwell [apro­vei­to para man­dar um bei­jo para a NSA e outro para a CIA, que estão me espi­o­nan­do], ou tal­vez um mer­gu­lho em somar­re­la­xa­ção e o desa­pa­re­ci­men­to do nos­so sen­so crí­ti­co no oce­a­no inter­mi­ná­vel de ruí­do do Admirável Mundo Novo [bei­jo, Rede Globo].

Enquanto escre­vo esta car­ta, acom­pa­nho o caso do bra­si­lei­ro deti­do em Londres, namo­ra­do do jor­na­lis­ta que vazou as infor­ma­ções de Edward Snowden sobre a espi­o­na­gem ciber­né­ti­ca e, para não esque­cer, denun­ci­ou tam­bém a bis­bi­lho­ta­gem nor­te-ame­ri­ca­na nas redes bra­si­lei­ras. (Aliás, o Glenn Greenwald mora no Rio e pode ser seu vizi­nho, Fausto, e é cla­ro que você vai me con­se­guir um autó­gra­fo se encon­trá-lo). O Brasil mais do que nun­ca está no olho des­se fura­cão — ou melhor, do ven­ti­la­dor, onde pes­so­as cora­jo­sas andam ati­ran­do coi­sas -, e não há melhor lugar para tirar a foto­gra­fia panóp­ti­ca de 360° do que o cen­tro da con­fu­são. Vivemos dias cyber­punks, assim meio Neuromancer, meio Cidade de Deus, meio 1984. Dias dis­tó­pi­cos. E ape­sar de vigi­a­dos, fis­ca­li­za­dos, moni­to­ra­dos, ain­da somos todos Amarildos em poten­ci­al, pas­sí­veis de desa­pa­re­cer em uma névoa de gás lacri­mo­gê­neo e legar um per­fil para a pos­te­ri­da­de na rede soci­al.

Ainda que­ria falar do não lugar, da Utopia, ir da Ilha de Thomas More ao infer­no de Dante, mas isso é algo que vou guar­dar para o últi­mo capí­tu­lo da nos­sa cor­res­pon­dên­cia.

Um bei­jo, Fausto.

Cristina Lasaitis

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