As belas metáforas de Lêdo Ivo

Por dentro do acervo

26.12.12

Lêdo Ivo, mor­to no últi­mo dia 23 aos 88 anos, não se ren­deu à rigi­dez for­mal da Geração de 45 e cons­truiu uma lin­gua­gem poé­ti­ca pró­pria, além de atu­ar em pro­sa, ensai­os e no jor­na­lis­mo. De seu acer­vo, que está sob a guar­da do IMS, nas­ceu E ago­ra adeus (2007), livro de cor­res­pon­dên­ci­as como a envi­a­da por Erico Verissimo que repu­bli­ca­mos jun­ta­men­te com um resu­mo da car­rei­ra do escri­tor.

Transcrição:

Porto Alegre
10 de junho de 1974

Meu caro Lêdo Ivo:

aca­bo de rece­ber seu O sinal sema­fó­ri­co. Obrigado! V. sabe como admi­ro a sua poe­sia. Vou dei­xar o volu­me sobre a mesi­nha de cabe­cei­ra para uma lei­tu­ra (em mui­tos casos relei­tu­ra) len­ta. Desde meni­no apren­di que doce bom não se deve comer depres­sa, em gran­des den­ta­das, mas sabo­re­ar deva­ga­ri­nho.

Agora um negó­cio comer­ci­al. Será que v. que­ria me ven­der, empres­tar ou alu­gar algu­mas de suas belas metá­fo­ras? Nesta altu­ra da vida ando meio pobre delas, e estou pre­ci­san­do de algu­mas para o livro que no momen­to escre­vo. (O Quintana seria o outro “for­ne­ce­dor”).

Um abra­ço mui­to cor­di­al do

Erico Verissimo”

Lêdo Ivo nas­ceu em Maceió (AL), em 18 de feve­rei­ro de 1924, filho de Floriano Ivo e Eurídice Plácido de Araújo Ivo. Aos 19 anos mudou-se para o Rio de Janeiro, onde come­çou a cola­bo­rar na impren­sa cari­o­ca como jor­na­lis­ta e, seguin­do ten­dên­cia de for­ma­ção daque­la épo­ca, bacha­re­lou-se pela então Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil.

Em 1944 publi­cou seu pri­mei­ro livro de poe­sia, As ima­gi­na­ções, no qual o tam­bém poe­ta e ensaís­ta Ivan Junqueira já iden­ti­fi­ca a boa cepa do estre­an­te, à von­ta­de no domí­nio do ver­so lon­go. Para Junqueira, o poe­ta ala­go­a­no pre­ci­sa ser “com­pre­en­di­do, tam­bém, à luz do exces­so, de uma pres­ti­di­gi­ta­ção retó­ri­ca e de uma lin­gua­gem encan­ta­tó­ria que são ape­nas e sin­gu­lar­men­te suas”.

À obra de estreia de Lêdo Ivo se segui­ria inten­sa pro­du­ção poé­ti­ca  com Ode e ele­gia, de 1945, e Ode ao cre­pús­cu­lo, do ano seguin­te, além de mui­tos outros, até cul­mi­nar com Finisterra, de 1972, que, ain­da para Junqueira, é “uma das obras mais impor­tan­tes de toda a poe­sia bra­si­lei­ra que se escre­veu na segun­da meta­de do sécu­lo xx”. Quando com­ple­tou 80 anos, a edi­to­ra Topbooks publi­cou sua Poesia com­ple­ta, que inclui Plenilúnio, de 2004, em volu­me de mais de mil pági­nas.

Sem ter se ren­di­do à infle­xi­bi­li­da­de dos pres­su­pos­tos da esté­ti­ca da  Geração de 45, que pre­ga­va res­ga­te das for­mas fixas e das medi­das métri­co-rít­mi­cas pos­tas abai­xo pelo Modernismo de 1922, Lêdo Ivo se inte­grou àque­le gru­po mais pela reto­ma­da da temá­ti­ca huma­na e uni­ver­sal do que pela rigi­dez for­mal que exi­gi­am.

Seu pri­mei­ro roman­ce, As ali­an­ças, foi publi­ca­do em 1947, mas, entre outras obras do gêne­ro, foi com Ninho de cobras, de 1973, tra­du­zi­do para vári­as lín­guas, que con­quis­tou noto­ri­e­da­de como roman­cis­ta. Leitor ávi­do des­de a juven­tu­de, em Alagoas, acu­mu­lou ao lon­go dos anos uma eru­di­ção que lhe ser­viu de esto­fo para o ensaís­mo, gêne­ro para o qual con­tri­buiu com tex­tos fun­da­men­tais como “O pre­to no bran­co”, de 1955, argu­tís­si­ma exe­ge­se do poe­ma “Água-for­te”, de Manuel Bandeira. Entre os mui­tos livros de ensai­os que publi­cou, des­ta­ca-se a cole­tâ­nea O aju­dan­te de men­ti­ro­so, de 2009.

Conhecido por sua mor­da­ci­da­de quan­do se tra­ta de polê­mi­cas, o autor era mem­bro da Academia Brasileira de Letras, onde tomou pos­se na cadei­ra n.10, em 1987. Cáustico na crí­ti­ca e nos comen­tá­ri­os, mui­tas vezes con­ser­va esse tom nas memó­ri­as de Confissões de um poe­ta, de 1979, e O alu­no relap­so, de 1991. Aos 87 anos de ida­de, em 2011, publi­cou mais um livro de memó­ri­as, O ven­to do mar, em que reú­ne 27 ensai­os e fina­li­za com 40 poe­mas.

Em 2007 o Instituto Moreira Salles publi­cou E ago­ra adeus, sele­ção de car­tas do arqui­vo do escri­tor sob a guar­da da ins­ti­tui­ção. Com apre­sen­ta­ção do pró­prio Lêdo Ivo e intro­du­ção de Gilberto Mendonça Telles, des­sa cor­res­pon­dên­cia emer­ge “como se fora uma maré tar­dia o tem­po esva­e­ci­do”, escre­ve o apre­sen­ta­dor.

O Acervo Lêdo Ivo che­gou ao Instituto Moreira Salles em abril de 2006. É for­ma­do de bibli­o­te­ca de 102 livros e 49 perió­di­cos cata­lo­ga­dos no site do ims; e de arqui­vo com apro­xi­ma­da­men­te: pro­du­ção inte­lec­tu­al con­ten­do dez docu­men­tos, cor­res­pon­dên­cia com 2.370 itens, 120 docu­men­tos pes­so­ais, 690 recor­tes de jor­nais e de revis­tas e 330 foto­gra­fi­as. Merece des­ta­que a cor­res­pon­dên­cia do autor, que reú­ne car­tas que lhe foram envi­a­das por per­so­na­li­da­des mais impor­tan­tes de sua gera­ção.

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