As bonitas que me desculpem

Correspondência

21.02.13

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Xico,

A tua more­na jam­bo me buli­ver­sa os sen­ti­dos ain­da cha­co­a­lha­dos pelo bati­cum car­na­va­les­co. Ela me remon­ta, e remon­ta é uma pala­vra boa para que eu me lem­bre de uma outra, mais cla­ra, uma cer­ta bran­que­la nari­gu­da (ah, as fei­as, Xico, você pre­ci­sa expe­ri­men­tá-las em sua fúria para que o outro se esque­ça des­ses deta­lhes).

A bran­que­la nari­gu­da, um pier­cing na nari­na esquer­da, era des­se mara­vi­lho­so jar­dim das fru­tas em que você se meteu no car­na­val de Olinda. Ela era da espé­cie laran­ja-bahia. A pro­pó­si­to: Você já foi à Bahia, meu nego? Você já chu­pou uma, meu fre­vo­len­te folião per­nam­bu­ca­no?

A laran­ja-bahia tem aque­le umbi­gui­nho sal­ta­do pra fora, se você me per­mi­te a for­ça do ple­o­nas­mo, e era assim que me veio a bran­que­la nari­gu­da para ser des­fru­ta­da (ah, Xico, você pre­ci­sa saber do devo­ta­men­to à cau­sa de que é capaz a mulher feia no seu esfor­ço subli­me para ser entro­ni­za­da no rei­no das musas ines­que­cí­veis).

E lá esta­va ela, e por asso­ci­a­ção de idei­as estou me lem­bran­do des­se suces­so car­na­va­les­co “ago­ra eu fiquei doce”, e lá esta­va ela, fru­ta per­mi­ti­da, no jar­dim-pomar que eu man­ti­nha, por aca­so semân­ti­co no bair­ro de Laranjeiras, lá no fim do mun­do entre as fave­las ain­da não paci­fi­ca­das do Rio, bala pra tudo que é lado, uma rua sem saí­da onde eu abri­ga­va sem pre­con­cei­to todo tipo de espé­cie que nos vita­mi­na as vei­as e põe sen­ti­do à exis­tên­cia.

Drummond poe­ta­va a neces­si­da­de de se buqui­nar no sebo. Tentava dizer em pri­mei­ro pla­no, numa lei­tu­ra aca­dê­mi­ca, ser pre­ci­so esca­ra­fun­char as livra­ri­as em bus­ca daque­le livro que nin­guém que­ria e, no entan­to, guar­da­va pre­ci­o­si­da­des em suas pági­nas pou­co folhe­a­das.

Eu acho, meu bom Xico, na sim­pli­ci­da­de inte­lec­tu­al que gra­ças a Deus me aco­me­te — enquan­to os neo-ser­ta­ne­jos fazem o “Camaro Amarelo”, eu escre­vo crô­ni­cas sobre a cal­ci­nha azul -, eu acho, cama­ra­da Xico, que Drummond não esta­va falan­do de livro nenhum. Afinal ele é o autor de “a bun­da, que engra­ça­da, está sem­pre sor­rin­do”. O bar­do só pen­sa­va naqui­lo, e, tenho cer­te­za, ao buqui­nar, na ver­da­de ele batia na mes­ma tecla que já me levou seis pará­gra­fos des­ta car­ta.

Drummond, nas entre­li­nhas, pedia mais aten­ção para com as pre­ci­o­si­da­des que des­car­ta­mos sem cur­tir. Na clas­se infi­ni­ta de seu pre­zo à safa­de­za, ele dizia da sabe­do­ria e da bele­za escon­di­das nas coi­sas des­pre­za­das.

Eu estou de acor­do. Precisamos pas­sar as folhas sua­ve­men­te — se é o caso de um livro. Perscrutar como se fos­se um mine­ra­dor na gru­ta escu­ra — se é o caso da mulher feia.

O ges­to de buqui­nar do Drummond, gran­de Xico, é o que ago­ra estou tra­du­zin­do para a nos­sa cor­res­pon­dên­cia como cul­to deli­ca­do à mulher que o mun­do tachou feia ape­nas por­que teve pre­gui­ça de fuçar as suas pepi­tas escon­di­das. As boni­tas que me des­cul­pem, mas as des­pa­ra­go­na­das sabem das coi­sas.

Elas não per­dem tem­po olhan­do no espe­lho como estão foto­gra­fan­do naque­la posi­ção xis ou naque­la outra que dei­xa as boche­chas no sen­ti­do con­trá­rio da lei da gra­vi­da­de. As fei­as são abso­lu­ta­men­te devo­ta­das ao dese­jo de supe­ra­rem o han­di­cap esté­ti­co com que entra­ram em cam­po. Querem jogo. Daí em dian­te, meu bom Xico, é se dei­xar buqui­nar nes­te sebo de delí­ci­as, é car­na­va­li­zar, ou que outro ver­bo ela qui­ser con­ju­gar, a cama, a tra­ma, e o infi­ni­to de nós dois. Deixe-se levar pelo bati­cum. É assim que a bate­ria da feia toca e, na gri­ta­ria das noi­tes de Laranjeiras, acho que a vizi­nhan­ça não teve do que recla­mar. Eu era só “dez, nota dez”.

E assim se pas­sa­ram mui­tos anos, pois eu esta­ci­o­nei o meu Camaro ama­re­lo na gara­gem dela, reve­ren­te ao alum­bra­men­to cons­tan­te daque­la que o mun­do con­de­na, o pro­gra­ma Superbonita não pau­ta. A dita feia. Fui ao doce-doce-doce que ela entre­ga­va a quem se dis­pu­ses­se pro­var, o néc­tar escon­di­do no âma­go do seu umbi­go laran­ja-bahia. Fui-lhe cúm­pli­ce e ela, ao con­trá­rio das outras, sem­pre baten­do a por­ta, foi-me fiel. “A van­ta­gem da mulher boni­ta é que ela vai embo­ra”, dizia o nos­so nun­ca dema­si­a­da­men­te cita­do Antonio Maria. A feia fica, a feia rima com a essên­cia do amor.

Prezado Xico, eu não que­ria que a nos­sa cor­res­pon­dên­cia aca­bas­se sem que eu des­se esse gri­to de car­na­val tar­dio. Sei que pro­fes­sas da mes­ma fé e fal­ta de pre­con­cei­to. Jambo é jam­bo, pre­ta é pre­ta, mas a fei­o­sa tam­bém faz seu car­na­val.

No caso des­ta que está em tela, a cal­ça Saint-Tropez já saí­ra da moda havia pelo menos duas déca­das, mas a moça não a dis­pen­sa­va. Não tinha a bun­da sere­le­pe que cos­tu­ma aco­me­ter a more­na jam­bo. Não tinha o sofá que deco­ra os lábi­os, e faz sonhar os que dor­mi­tam neles, das mula­tas. Muito menos lhe acom­pa­nha­va como aces­só­rio o air-bag vul­gar, mas mater­nal­men­te paci­fi­ca­dor, das novas lou­ras sili­co­na­das.

A moça feia, que car­re­ga­va na cor a trans­pa­rên­cia da hós­tia con­sa­gra­da e dei­xa­va ver atra­vés dela o san­gue pul­san­do o hino do Esporte Clube Bahia, aque­le do “nin­guém nos ven­ce em vibra­ção” — a moça feia apos­ta­va tudo na exi­bi­ção que a cal­ça Saint-Tropez per­mi­tia do seu tro­féu de bele­za. Era a mol­du­ra por onde exi­bia a alti­vez pro­tu­be­ran­te do umbi­gui­nho laran­ja-bahia cri­a­do sem agro­tó­xi­co, fru­ta e gra­ça nas­ci­da das mãos e do rega­dor daque­le que, para não lan­çar seu san­to nome em vão, vai aqui decla­ra­do ape­nas como o Sublime.

Ele, o umbi­go, des­pon­ta­va orgu­lho­so naque­le paraí­so não-cató­li­co que ia entre o fim da blu­sa e a linha do cin­to. Ah, Xico, o Murilo Mendes podia ter lá suas razões ao dizer que o mun­do come­ça­va ao redor dos sei­os de Jandira, e quem sou eu para cor­ri­gir os olhos de um poe­ta. O mun­do come­ça em algum can­to con­sa­gra­do do cor­po da mulher ama­da. O jam­bo com que você colo­re a sua more­na inau­gu­ra uma nova esco­la pic­tó­ri­ca pós-impres­si­o­nis­ta. (E o suva­co, Xico, quan­do um per­nam­bu­ca­no arre­ta­do, des­ses sem noji­nhos Zona Sul, vai escre­ver um fre­vo sobre o san­to suva­co delas?)

Por algum tem­po eu fui o mais devo­ta­do rocei­ro do pla­ne­ta, cui­dei com cari­nho e esme­ro, essa pala­vri­nha tão dig­na e nun­ca mais plan­ta­da nos tex­tos naci­o­nais — por um bom tem­po eu cul­ti­vei com duplo esme­ro a minha hor­ta de laran­ja-bahia. Sou-lhe sau­do­so, mas fico feliz em ter-me lem­bra­do dela aqui nes­ta nos­sa últi­ma car­ta. Foi bom, Xico. O mun­do come­ça­va no umbi­go sal­ta­do pra fora da lin­da bran­que­la-nari­gu­da, era o açú­car que ins­pi­ra­va os voos do meu com­ba­li­do bei­ja-flor rubem­bra­gui­a­no.

Abraços.