As cabeças cortadas de Sergio Bianchi

No cinema

20.06.14

Quem conhe­ce os fil­mes de Sergio Bianchi sabe que a suti­le­za não é o seu for­te. Sabe tam­bém, em com­pen­sa­ção, que neles não há lugar para a com­pla­cên­cia e mui­to menos para a hipo­cri­sia. Implacável, infle­xí­vel, seu dedo cos­tu­ma tocar dire­to nas feri­das que outros artis­tas pre­fe­rem igno­rar ou con­tor­nar. Não é dife­ren­te com seu novo tra­ba­lho, Jogo das deca­pi­ta­ções.

Desta vez, o pro­ta­go­nis­ta é Leandro (Fernando Alves Pinto), um estu­dan­te de pós-gra­du­a­ção que pre­pa­ra mes­tra­do sobre a esquer­da no perío­do da dita­du­ra mili­tar. Sua mãe é uma ex-pri­si­o­nei­ra polí­ti­ca (Clarisse Abujamra) que diri­ge uma ONG de direi­tos huma­nos empe­nha­da em con­se­guir inde­ni­za­ções para víti­mas do regi­me. Seu pai (Paulo César Pereio), artis­ta liber­tá­rio pre­so por aten­ta­do ao pudor na juven­tu­de, virou pri­si­o­nei­ro comum déca­das depois por ter mata­do uma mulher. Numa rebe­lião num pre­sí­dio, ele pode ser um dos mor­tos não iden­ti­fi­ca­dos, mas tam­bém pode ser um dos fugi­ti­vos.

É entre esses dois polos – a mili­tân­cia con­ven­ci­o­nal de esquer­da encar­na­da pela mãe e a pul­são trans­gres­so­ra do pai – que tran­si­ta o ator­men­ta­do rapaz.

Fosso de clas­se

Esse arca­bou­ço dra­má­ti­co ser­ve para Bianchi expor sua visão áci­da de alguns assun­tos cru­ci­ais: o opor­tu­nis­mo polí­ti­co de mili­tan­tes encas­te­la­dos em ONGs ou na polí­ti­ca ins­ti­tu­ci­o­nal; a bar­bá­rie que carac­te­ri­za des­de sem­pre nos­sa for­ma­ção soci­al; a cli­va­gem de clas­se que sepa­ra a eli­te inte­lec­tu­al de esquer­da dos pobres que ela jul­ga defen­der; a fal­ta de pers­pec­ti­vas visí­veis no hori­zon­te.

Tudo con­flui para a con­clu­são, expres­sa no títu­lo de um fil­me do dire­tor, de que o Brasil é “cro­ni­ca­men­te inviá­vel”. É pela boca do céti­co e sar­cás­ti­co Rafael (Silvio Guindane), cole­ga de facul­da­de de Leandro, que Bianchi pare­ce pro­fe­rir suas sen­ten­ças ter­rí­veis e defi­ni­ti­vas.

A cons­tru­ção nar­ra­ti­va é osten­si­va­men­te hete­ro­gê­nea, “suja”, com­pos­ta de dife­ren­tes tex­tu­ras: a expo­si­ção da ação no pre­sen­te se entre­la­ça a docu­men­tá­ri­os de épo­ca, aos pesa­de­los do pro­ta­go­nis­ta e a tre­chos de Jogo das deca­pi­ta­ções, fil­me rea­li­za­do nos anos 1970 pelo pai por­ra-lou­ca e res­ga­ta­do por Leandro.

Jogo inter­tex­tu­al

As ima­gens des­se fil­me den­tro do fil­me, na ver­da­de, foram extraí­das do pri­mei­ro lon­ga-metra­gem de Sergio Bianchi, Maldita coin­ci­dên­cia, de 1979. Alguns ato­res do fil­me anti­go, como Sergio Mamberti e Maria Alice Vergueiro, rea­pa­re­cem no novo, em papéis bem diver­sos, pro­du­zin­do um curi­o­so cur­to-cir­cui­to.

O que Jogo das deca­pi­ta­ções tem de mais inte­res­san­te tal­vez seja esse argu­to jogo inter­tex­tu­al, que mati­za e pro­ble­ma­ti­za o tom sen­ten­ci­o­so do dis­cur­so. Os pesa­de­los do pro­ta­go­nis­ta, embo­ra mar­ca­dos pela ênfa­se e pela redun­dân­cia, têm alguns momen­tos ins­pi­ra­dos, como a expo­si­ção das cabe­ças cor­ta­das de um punha­do de pre­sos, numa espé­cie de altar que lem­bra em tudo a céle­bre foto das cabe­ças de Lampião e seu ban­do. Troféus maca­bros liga­dos pelo fio invi­sí­vel da nos­sa crô­ni­ca bar­bá­rie.

Outras cenas memo­rá­veis – e igual­men­te ter­rí­veis – são a do lin­cha­men­to de um homem que atro­pe­lou uma pes­soa e a da “ofi­ci­na de tea­tro” minis­tra­da numa esco­la rural por um ex-guer­ri­lhei­ro (Elias Andreato). Nesta últi­ma, sal­vo enga­no o úni­co momen­to em que o fil­me se afas­ta do pro­ta­go­nis­ta, o ex-guer­ri­lhei­ro entoa com vigor uma velha can­ção polí­ti­ca, dian­te do olhar joco­so de jovens indi­fe­ren­tes. Mundos em des­com­pas­so, idei­as fora do lugar, lín­guas dis­tin­tas, cabe­ças cor­ta­das.

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